2/28/2011

It works much better if I let it drag me around



Do sublime I Could Live in Hope (1994), álbum de estreia dos Low.

A quarta vida

Não tenho nove vidas como os gatos, tinha, pelos vistos, três vidas, esgotei as vidas, mas, que diabo, não vou morrer por causa disso.

C'est quand même un beau plateaux

Noite de Óscares

The Oscar ceremony most resembles Christmas in its sense of anticlimax. Everyone was so excited earlier; now they are subdued, and grow more subdued as prizes are won and the potential web of alternative futures gets smaller and smaller, until there are only the people who won and everyone else who didn’t.

[Zadie Smith]

Primos afastados

O pessimista emocional reage, pavlovianamente, à biografia. O pessimista filosófico, felizmente, responde apenas à sua natureza.

2/25/2011

Isso exige um cuidado especial



Imaginem um jornal inteiramente escrito por uma pessoa. Foi isso que aconteceu com Die Fackel («o facho», ou, um termo menos equívoco, «a tocha») a partir de 1911, faz agora um século. Die Fackel existia há mais de uma década quando o seu director, Karl Kraus, dispensou toda a gente e se tornou redactor único, cargo que manteria até à morte, em 1936. Deixou trinta mil páginas de jornal, provavelmente a melhor crónica de uma época a que já chamaram o «apocalipse alegre».

Há nele bastante menos «alegria» do que «apocalipse». Nascido em 1874, na Boémia, Kraus cresceu em Viena, onde estudou direito e filosofia. Começou a frequentar os cafés e os jornais, e com vinte e poucos anos escreveu um panfleto no qual arrasava os autores austríacos do seu tempo. Mas a verdadeira embirração de Kraus era o jornalismo. «O que a sífilis poupou será devastado pela imprensa», decretou. Ele lia os jornais todos, que eram muitos, vivia mergulhado em jornais, não porque acreditasse neles mas porque via no jornalismo o mais agudo sintoma de uma cultura degenerada. Para Kraus, os jornais não relatavam acontecimentos: eram, em si mesmos, o acontecimento. Por isso, quando queria provar um argumento recorria a citações.

(....) Kraus não concordava nem com quem concordava com ele, e não fugia à misantropia: «Divido as pessoas que não cumprimento em quatro grupos. Há aquelas que não cumprimento para não me comprometer. Esse é o caso mais simples. Há aquelas que não cumprimento para não as comprometer. Isso já exige uma certa atenção. Mas então há aquelas que não cumprimento para não me prejudicar junto a elas. Com essas é ainda mais difícil de lidar. E por fim há aquelas que não cumprimento para não me prejudicar junto a mim mesmo. Isso exige um cuidado especial». (...)

[a partir de amanhã, no Expresso, todas as semanas e «de acordo com a antiga ortografia»]

2/20/2011

Forced awkward intimitate situation



JANICE: I've got the perfect girl for you...

JEREMY: Janice, I apologize to you if I don't seem real eager to jump into a forced awkward intimate situation that people like to call dating. I don't like the feeling. You're sitting there, you're wondering do I have food on my face, am I eating, am I talking too much, are they talking enough, am I interested I'm not really interested, should I play like I'm interested but I'm not that interested but I think she might be interested but do I want to be interested but now she's not interested? So all of the sudden I'm getting, I'm starting to get interested... And when am I supposed to kiss her? Do I have to wait for the door cause then it's awkward, it's like well goodnight. Do you do like that ass-out hug? Where you like, you hug each other like this and your ass sticks out cause you're trying not to get too close or do you just go right in and kiss them on the lips or don't kiss them at all? It's very difficult trying to read the situation. And all the while you're just really wondering are we gonna get hopped up enough to make some bad decisions? Perhaps play a little game called «just the tip». Just for a second, just to see how it feels. Or, ouch, ouch you're on my hair.

JANICE: Okay...


[Vince Vaughn em The Wedding Crashers, 2005]

2/17/2011

Deprimismo

Nunca li os romances e os volumes de autobiografia de François Nourissier, mas conhecia-o há muitos anos da imprensa, escreveu mais de três mil artigos em publicações como o Figaro Magazine, que os meus pais compravam nos anos 1980 e onde o li.

Leio agora os obituários. É-me indiferente, ou mesmo antipática, a faceta de mandarim, os prémios, as cliques, as academias, o «meio» em que ele se movia como ninguém. Em compensação, gosto muito daquele confessionalismo pessimista, auto-depreciativo, decepcionado, a que têm chamado «deprimisme». Ao que parece, isso incomodava muita gente.

«Je ne m’aime pas, je n’aime pas ma vie», disse Nourissier, talvez não cheguem esses «maus sentimentos» para escrever boa literatura, talvez nem seja um começo, mas para mim é um bom começo.

François Nourissier 1927-2011

Je n'ai jamais supporté les gens qui se supportent. Le contentement de soi m'est étranger. C'est un réflexe quasi physique.

2/16/2011

Arrumações

Guardo o postal do Thyssen? Apago os nove dígitos? Rasgo os despojos? Mudo o pretérito para perfeito? Faço de conta que nada se passou? A distância «aumenta as grandes paixões e cura as pequenas», mas eu já nem sei se quero sossego, esperança ou desastre.

Torniquete (2)

Take your hatred out on me
make your victim my head
you never ever believed in me
I am your tourniquet


Torniquete













«Espécie de cruz móvel em posição horizontal na entrada de ruas ou estradas, para só deixar passar peões, um a um»; «instrumento de comprimir as artérias»; «trapézio fixo», «antiga tortura em que os membros do condenado eram apertados num torno». Descobrimos sempre mais tarde e tarde demais o que fomos um para o outro. Hoje dei com a terrível palavra «torniquete».

2/15/2011

A classe média

Herculano, em 1856, descreve a classe média como «ardente nas suas paixões» e «fria nas suas opiniões». O século XIX foi há muito tempo, Portugal é outro, a classe média mudou, e nada me parece mais justo hoje do que dizer que a classe média é «ardente nas suas opiniões» e «fria nas suas paixões».

Andais entre Lobo e Cão

Não vejo o rosto a ninguém;
cuidais que são, e não são;
homens que não vão nem vêm,
parece que avante vão;
antre o doente e o são
mente cad’hora a espia;
na meta do meo-dia
andais entre Lobo e Cão.


Há sempre gente pressurosamente disposta a garantir que o pessimismo é uma ideologia moderna, uma coisa e outra sempre, «moderna» e «ideologia». Recorro por isso a Francisco Sá de Miranda, e ao seu pessimismo que é disposição natural e cuidado classicismo. Sá de Miranda frequentou a corte, e depois exilou-se na província, desgostado com os poderosos e seus lacaios, com tantos disfarces, hipocrisias, oportunismos e conspirações. Cinco séculos passados, a capital ainda respira um nefasto ambiente de corte, também eu estou farto de cortesãos, mas não tenho nem quero um refúgio minhoto, fico aqui, a dar luta, triunfante ou devorado por cães e lobos.

2/13/2011

Gérard Castello-Lopes 1925-2011


















A fotografia dos rapazes na rua a jogar futebol, em que os gestos deles quase eclipsam a bola, que mal se vê, é a minha favorita de entre aquelas que Gérard Castello-Lopes tirou em Lisboa, na segunda metade dos anos 1950. Este «instante decisivo», como os de Cartier-Bresson, que Gérard emulava, revela toda uma época: naturalismo no retrato social, insólito surreal, e uma sugestão existencialista. Julgo que é a bola pouco visível que torna esta composição memorável, tão precisa e poética ao mesmo tempo. Talvez por isso tenham chamado a Gérard o Alexandre O’Neill da fotografia.

2/11/2011

Livres como nós














Caiu a ditadura no Egipto. A ditadura é o pior dos sistemas, sem excepção nenhuma. Não tenho o culto da revolução, mas defendo a liberdade, e não posso deixar de me alegrar com um povo que reconquista a liberdade. Bem sei que tudo pode acabar mal, que à revolução pode suceder-se outra ditadura, tem acontecido bastante; mas se me dão licença acho que «os árabes» de 2011 merecem o mesmo que os europeus de 1989: que não sejamos cínicos com a sua liberdade.

2/09/2011

Café da política

Almedina Atrium Saldanha
9 de Fevereiro 2011, às 19h
CICLO DO CAFÉ
Café da Política
A política aos «especialistas»?
Com Pedro Magalhães (o especialista) e Ricardo Costa (o jornalista)
Moderador: Pedro Mexia
Discussões sobre política não faltam: em fóruns radiofónicos, nos transportes públicos, em família. Mas nesta tertúlia mensal sobre política não queremos confrontar embirrações, palpites ou estados de espírito. A política não é puramente casuística, depende de leis, ideologias, tendências, propostas, e há quase sempre textos que enquadram ou antecipam as grandes decisões e as grandes polémicas. Sem preocupação estrita de acompanhar as novidades editoriais, o Café da Política vai ter em atenção o que escrevem os especialistas, para que o debate político não se faça no vazio, e para que a política se revele ser, afinal, sobre a nossa vida. Café da Política, com coordenação e moderação de Pedro Mexia.

2/08/2011

Palavras cínicas (4)

Quanto à doença com que me contagiaram, quero que saibam que já passou muito tempo, ou algum tempo, o tempo passa, gostava que soubessem que vos perdoo, que quero que sejam felizes, que quero que apodreçam.

Palavras cínicas (3)

I’m a professional cinic but my heart’s not in it, diz a canção, e de vez em quando é preciso isso, ser cínico com o cinismo.

Palavras cínicas (2)

O cinismo é a cicatriz da inteligência.

Palavras cínicas (1)

Toda esta gente cínica contaminou-me, tenho agora a vossa doença, mas não sou um dos vossos. E cansa-me o vosso teatro, quando se viram para mim e me acusam do cinismo que convosco aprendi, ainda me lembro, há tantos anos, um cínico à responder à minha violência com um «não sejas cínico», dizia isto quase como se aquilo o magoasse, o grande cínico, e a mim nunca ninguém me tinha chamado isso antes, lembro-me de dizer «estou a usar a tua linguagem». Tantos anos depois ainda fazem o mesmo teatro ingénuo, «és tão cínico», dizem os cínicos.

Se é que me estão a seguir

(...) as we know, there are known knowns; there are things we know we know. We also know there are known unknowns; that is to say we know there are some things we do not know. But there are also unknown unknowns — the ones we don’t know we don’t know.

[Donald Rumsfeld]

Outros tempos


















Ela chamava-lhe reaça. Ele chamava-lhe comuna. Ela provocava. Ele era bruto. Ela tinha esperança. Ele previa o apocalipse. Ela era humanista. Ele misantropo. Ela era infeliz aos amores. Ele a princípio também. Ela era jovem. Ele tinha mais vinte anos. Ela foi para fora. Ele ficou em Inglaterra. E durante duas décadas escreveram-se: coscuvilhices, paródias, queixumes, maldades, curiosidades, conselhos às vezes, tudo com graça e inteligência. Um jogo nunca interrompido, sem intimidade, em branda sedução, elegante, infantil, aristocrática, teimosa. Raramente se encontraram, nunca dormiram juntos, «não houve nada» entre eles, mas deixaram a correspondência mais civilizada e divertida que conheço entre um homem e uma mulher, tão iguais, tão desiguais, tão companheiros. Outros tempos.

O que vem depois

Confundem força e determinação. Eu sou fraco, porque nunca imponho a minha vontade, mas sou determinado, porque nunca desisto da minha vontade. Ficamos ambos divertidos, eles com o fracasso, eu com o que vem depois.

Smoking / No Smoking

Estávamos em casa dela a ver o Smoking / No Smoking do Resnais; eu, em estado de beatitude (que ela achava pacóvio), ria francamente com os incidentes da fita, que já tinha visto, enquanto ela não ia além do sorriso, e só em situações especialmente engenhosas. Foi como se, ao contrário do que é meu hábito, eu tomasse aquelas situações morais como meros acasos e peripécias, e visse disso o lado lúdico. E foi como se, contrariando o seu feitio, ela visse os acasos e peripécias como escolhas morais, e percebesse a seriedade do que estava em causa. Depois, a seguir ao STOP, eu voltei à gravidade do costume, ela desvalorizou como triviais as suas decisões, nunca na vida estive tão iludido como quando víamos Smoking / No Smoking no sofá dela, ela prudente e reticente, eu na minha estúpida felicidade.

Uma vingança imaginária



Tinha dificuldades com «Unhappy Birthday». Talvez por vir a seguir a «Last Night I Dreamt». Aquela amargura cínica parecia-me um pouco chocante depois de uma desilusão sublime. Ninguém deseja a ninguém um aniversário infeliz. Ninguém diz que fica um bocadinho triste se a outra pessoa morrer, mas só um bocadinho. Que comportamento tão detestável desejar mal a alguém que nos deixou. «From the one you left behind» era a justificação, que eu achava injustificável.

Mas claro que esse «from the one you left behind», repetido com evidente gosto, não é uma causa, é apenas uma condição, e uma assinatura. A causa é «’cause you’re evil / and you lie». Não é a mesma coisa. Nem toda a gente que nos deixa é má e mente. Pessoalmente, estimo mais as pessoas que me deixam do que as que ficam comigo. Mas a maldade e a mentira mudam tudo.

Terceiros dizem ao narrador que ele se deve sentir feliz, pois «loved and lost» é melhor que nada. Mas não é o «loved and lost» que conta, é o «evil» e o «lie». Que o deixem, mas não assim, através da crueldade e da reserva mental.

É por isso que o narrador diz «I've come to wish you an unhappy birthday». Ele deseja à outra pessoa a infelicidade, o envelhecimento, a solidã. A maldade tornou o narrador numa criatura malvada.

Mas é curiosa a ilusão final, a ilusão de que a outra pessoa se preocupa com aquilo que nos acontece, com as nossas ameaças, com o nosso masoquismo, com o nosso destino. O narrador, que é um homem inteligente, tem forçosamente de saber que a outra pessoa se está nas tintas. Mas ele precisa de fazer o luto daquela relação através de uma vingança, nem que seja uma vingança imaginária.

A sua vingança é uma construção verbal, a que a outra pessoa é totalmente indiferente, mas que o narrador imagina como um rude golpe no outro. Por isso no final repete, quase alegre, o «from the one you left behind», e esse seu estatuto é todo o gozo desta desforra imaginária.

2/03/2011

The White Stripes 1997–2011

«Don't want to hear about it / Every single one's got a story to tell / Everyone knows about it / From the Queen of England to the hounds of hell».

Gostava de tudo nos White Stripes: do revivalismo, dos blues de garagem, do infantilismo punk, da América suada, do cool redneck, do puritanismo cromático, da barulheira vinda de apenas dois, do lado liceal dele, do lado «moe tucker» dela, da ofuscação biográfica, de serem feios bonitos, da ameaça sexual, do vídeo com o pole dancing.

E não esqueço a companhia que Jack e Meg me fizeram em dias negros, ambos cheios de adrenalina e desprezo, sozinhos contra o mundo, enquanto a Rainha de Inglaterra e os cães do inferno partilhavam, gozosos, as suas sórdidas histórias. «I'm gonna fight 'em all / A seven nation army couldn't hold me back». Assim ficámos, eles e eu. Vencidos mas invencíveis.

O mundo e a mudança

Marx escreveu que os filósofos apenas interpretam o mundo, quando o mais importante é mudar o mundo. Décadas mais tarde, Heidegger comentou que «mudar o mundo» pressupõe uma mudança na concepção do mundo. E só chegamos a uma concepção do mundo através de uma interpretação do mundo. Ou seja: a interpretação é sempre a grande mudança.

2/01/2011