3/31/2011

Quase morto (3)


Perguntaram a Dylan: é uma canção sobre a sua mortalidade? Dylan respondeu: e por que não sobre a mortalidade de quem pergunta?

Quase morto (2)

Um homem que se acostuma à morte através de uma relação com a ideia de morte. Uma relação que parece quase amorosa, e na qual a fortaleza muda o medo em aceitação. O luto antecipado nasce de uma «premonição» que talvez tenha motivos biográficos imediatos, mas que não precisa de motivo algum: a morte não se torna mais ou menos fatal conforme as circunstâncias da vida.

[«Not Dark Yet», álbum Time Out of Mind, 1997]

3/30/2011

Quase morto (1)

Auden achou estranho que Eliot perdesse tempo a fazer paciências. Eliot explicou: «Well, I suppose it's the nearest thing to being dead». Viver de automatismos é como estar morto. Viver de automatismos é uma vida hipotética, eufemística, lamentável.

Strangers on a train














Tu cometes o crime que me interessa a mim, eu cometo o crime que te interessa a ti, nenhum de nós tem motivos pessoais para isso, e nem sequer nos conhecemos, é impossível que alguém nos apanhe.

[também, mas não apenas, i.m. Farley Granger, 1925-2011]

3/28/2011

Os significados

O álbum não vem acompanhado das respectivas lyrics, e as fontes na net (incluindo actuações ao vivo) são contraditórias ou incertas: ela canta «while every line speaks the language of love» ou «while every lie speaks the language of love»?

A primeira hipótese torna o verso algo banal, mesmo tendo em conta o que se segue: «While every line speaks the language of love / It never held the meaning I was thinking of». Cada frase fala na linguagem do amor, mas não tem o significado que ela pensava, é a «linguagem do amor» apenas como «linguagem», porque o «significado» só nasce em contexto, aí é que se vê que sentido tem.

Em contrapartida, se for a segunda hipótese, fica: «While every lie speaks the language of love / It never held the meaning I was thinking of». Não é apenas a mentira a agir numa relação amorosa, isso seria trivial, é a mentira «que fala a linguagem do amor», ou seja, é o próprio acto de mentir que se confunde com o acto de amar. E, se isso não tem o significado que ela pensava, a que se deve tal surpresa: ao facto de ser uma mentira? Ou à incapacidade quase metafísica de a mentira se confundir inteiramente com o amor?

[Beth Orton, «Stolen Car», álbum Central Reservation, 1999]

Uma luz há muito extinta e ainda forte

You walked into my house last night
I couldn't help but notice
A light that was long gone still burning strong
You were sitting
Your fingers like fuses
Your eyes were cinnamon


[Beth Orton]

3/27/2011

Ockham

Primeiro, hesitei, dei o benefício da dúvida, mas depois, subitamente, percebi que a «lei da parcimónia» se aplicava, «nunquam ponenda est pluralitas sine necessitate», nunca devemos propor uma pluralidade [de explicações] sem haver necessidade disso, às vezes uma explicação simples descreve bem o que aconteceu, foi então que essa explicação simples, grotescamente simples, se acendeu, e a navalha de Ochkam não hesitou.

James ego Agate


















The Selective Ego é uma antologia dos diários de James Agate (1877-1947). Agate foi o crítico de teatro mais influente da Inglaterra nas décadas entre Shaw e Tynan. Muitas das páginas do diário são aliás dedicadas ao teatro, ou antes, aos actores. Agate era sobretudo um perspicaz crítico de espectáculos, e de interpretações, incluindo os Oliviers e os Gielguds. O livro tem aquele tom típico de um misantropo sociável, culto mas anti-intelectual, exímio em frases certeiras, cheias de graça e gramática. O tema é quase sempre o «meio», entre snobismos e coscuvilhices, elogios e azedumes. E com uma boa dose de hipocondria e de lamúrias financeiras. Lê-se bem, mas o lado social cansa, até porque muitas das figuras citadas são-nos hoje desconhecidas. E também é um pouco fastidiosa aquela escrita sempre ao serviço da «personagem» Agate, o brilhante caturra, papel que James, diga-se, representa com brio.

Alguns exemplos. Agate diz que numa relação amorosa deve haver pelo menos uma pessoa jovem, pois o amor entre dois velhos é «disgusting». Considera que não existe «crítica construtiva», pois não se pode construir um edifício já acabado. Confessa que que não teme processos judiciais, pois as pessoas sobre quem escreve no diário estão «mortas ou moribundas». Conta que envia as suas críticas a um médico em troca de amostras de medicamentos. Comenta que fulano de tal «se retirou da vida privada». E recusa convites, recusa todo o tipo de convites, até inventa um formulário exaustivo para recusar convites. É, nisso, muito inglês, conquista a nossa simpatia exibindo a sua antipatia. Faz do seu ego um jogo, e cobra bilhetes.

Personagens

Numa nota introdutória aos nove volumes do diário Ego (1935-48), James Agate escreve: «None of the characters in this book is imaginary and whether any of them is real metaphysics has not yet determined. ». É uma boa regra para todos os diários, incluindo este, digital e em directo. As personagens não são «imaginárias», mas também não é forçoso que sejam «reais». Eu diria que são «imaginadas». Mas não sei o que diria a metafísica.

3/26/2011

Um ridículo russo

Uma noite foram ao teatro, ver a peça favorita dele, mas antes disso, ela, ao telefone, usou aquela linguagem agressiva que confundia com sedução, e ele ficou um pouco combalido, não disse quase nada antes do espectáculo começar, assistiram tensos às discussões entre Ranevskaya e Lopakhin e ela então disse-lhe ao ouvido que se ia embora, oportunidade gratuita de acabar de vez com esse cerejal venenoso e iludido, no entanto ele era um Trofimov ainda mais patético, pediu por isso que ela ficasse, pediu desculpa, e ela, incorrigível actriz, ficou mais um bocadinho, até que se cansou do seu ridículo pretendente russo.

3/24/2011

Tratado da evidência















Mantemos relações «argumentáveis», portanto descartáveis. Quando eu só quero o brilho indesmentível da evidência.

Demasiado / ninguém

Há quem me diga «não gostas de ninguém» e quem me diga «gostas demasiado das pessoas», e têm ambos razão.

Vinho com água

Tenho tido sorte com os meus infortúnios. Quase nunca senti tédio, indiferença ou aquela incipiente bonomia. Nunca misturei água no meu vinho. E, foda-se, não vou começar agora.

Lisbon Revisited

Sempre admirei, e nunca tanto como agora, a impaciência maçada do Álvaro de Campos quando lhe puxam pela manga, quando não o deixam em paz, quando o querem «da companhia», quando não o deixam ir sozinho para o diabo.

Virtuosos tiranos

Pessoas que, não podendo levar a sua avante, confundem o nosso feitio com o nosso carácter. Virtuosos que se revelam tiranos.

3/23/2011

Governo / Sombra

Caiu o Governo e, consequentemente, o Governo Sombra assume as suas responsabilidades, reunindo de emergência esta noite, na TSF, às 22h.

Tropismos













Coisa rara, gosto muito das vozes dobradas em Agosto (1987), de Jorge Silva Melo, talvez porque La spiaggia, que o filme «adapta», já tem um narração distanciada das suas emoções, e vermos actores estrangeiros a falar com vozes portuguesas torna a história ainda mais indirecta, alusiva, ínvia, menos importante pelas acções do que pelos seus «tropismos».

Seminus

Falamos de forma diferente quando estamos seminus: «Di giorno sulla spiaggia era un’altra cosa. Si parla con strana cautela quando si è seminudi: le parole non suonano più nello stesso modo, a volte si tace e sembra che il silenzio schiuda da sé parole ambigue». Tu e eu estávamos vestidos, mas foi como se estivéssemos meio despidos, as palavras não soavam do mesmo do modo, às vezes ficávamos calados, e o silêncio fazia nascer frases ambíguas.

[Pavese, La spiaggia, 1942]

A santa face

In his dreams he had been warned against this change. Seen the dear face and heard the unspoken words, Stay where we were so long alone together, my shade will comfort you.

Pause.

Could he not –

Knock.

Seen the dear face and heard the unspoken words, Stay where we were so long alone together, my shade will comfort you.

Pause. Knock.

[Beckett, Ohio Impromptu, 1980]

O teu gosto

O teu gosto deu a uma boca amarga a alegria final.

3/22/2011

Matisse













On est en mai 68. Godard décide de sacrifier les films qu'il sait faire pour choisir, de façon généreuse, l'anonymat et le collectif. Il considère l'art comme un engagement dans la politique. Truffaut, lui, choisit l'art «pour la beauté, pour rendre heureux». Il rappelle dans une lettre que Matisse a traversé un siècle, trois guerres et que les événements les plus importants de sa vie sont restés les fleurs, les amorces de fenêtres et les couleurs.

Antoine de Baecque
, historiador e crítico de cinema]

3/21/2011

O dia censitário

Hoje, avisam as autoridades, é o «dia censitário». Todas as respostas ao questionário do recenseamento geral da população, actualmente em curso, devem ser dadas com referência a este dia, evitando omissões ou duplicações. Não interessa o que aconteceu ontem, nem o que acontece amanhã. O estado das coisas é o estado das coisas neste preciso momento, um retrato único e intocável, que faz doutrina durante uma década. E eu, que tantas vezes decretei isso, percebo enfim como é estúpido o dia censitário.

Quem não faz mais do que a vida?

Je crache sur ma vie. Je m'en désolidarise. Qui ne fait mieux que sa vie? Reencontro enfim esta passagem de Michaux (de La Vie dans les plis, 1949). Há quase vinte anos que ando com a citação, truncada, na cabeça. Recupero agora a forma exacta da sua força afirmativa. A primeira frase percebi logo, e concordei logo. Mais tarde, entendi também a segunda frase, deixei finalmente de ser «solidário» com a minha vida, como num desdobramento, estou de fora e não sinto empatia por quem que está dentro, é matéria inerte, quase anedótica. Faltava o remate, ao qual cheguei no último ano ou assim. Quem é que não faz melhor do que a sua vida, quem não vive mais coisas do que aquelas que são a ilusão oficial, a vã «biografia»?

3/20/2011

Pressa nenhuma

3/19/2011

La luna e i falò

Janto em casa dos meus pais, no céu uma lua cheia maior e mais brilhante do que é costume, há dezoito anos que não estava assim tão próxima da Terra, no ponto chamado perigeu, aonde só regressa daqui a outros dezoito. A minha mãe chama da varanda: «Anda cá fora, o teu pai e eu não voltamos a ver esta lua».

3/18/2011

Dia Mundial da Poesia no CCB, leituras

20 de Março de 2011

14h45 Elisabete Caramelo diz Herberto Helder
15h00 Fernando Echevarría
15h15 Filipa Leal
15h30 Jaime Rocha
15h45 Armando Silva Carvalho
16h00 Pedro Mexia
16h15 Elisabete Caramelo diz Carlos Drummond de Andrade
16h30 Gastão Cruz
16h45 Pedro Tamen
17h00 António Carlos Cortez
17h15 Margarida Vale de Gato
17h30 Nuno Júdice
17h45 Miguel-Manso
18h00 A. Dasilva O.
18h15 Elisabete Caramelo diz Jorge de Sena

[CCB, Sala Luís de Freitas Branco, piso 1, entrada livre]

3/17/2011

«L'Idéal»


















Ce ne seront jamais ces beautés de vignettes,
Produits avariés, nés d'un siècle vaurien,
Ces pieds à brodequins, ces doigts à castagnettes,
Qui sauront satisfaire un coeur comme le mien.

Je laisse à Gavarni, poëte des chloroses,
Son troupeau gazouillant de beautés d'hôpital,
Car je ne puis trouver parmi ces pâles roses
Une fleur qui ressemble à mon rouge idéal.


[Thomasin Rand / Baudelaire]

Degredo

Um oitocentista condenado ao degredo de 2011.

3/16/2011

Gustave Flaubert a Louise Colet, 6 de Março de 1855

Madame, j’ai appris que vous vous étiez donné la peine de venir, hier, dans la soirée, trois fois, chez moi. Je n’y étais pas. Et dans la crainte des avanies [humilhações] qu’une telle persistance de votre part pourrait vous attirer de la mienne, le savoir-vivre m’engage à vous prevenir: je n’y serai jamais. J’ai l’honneur de vous saluer.

Toque de espera

3/14/2011

A minha pirata

Eu disse tudo, a um único ouvido. Ela contou tudo à Wikileaks.

Boneco vudu

Quando ela me mentiu, morreu como pessoa, existe sem dúvida no mundo dela mas no meu é apenas um boneco vudu, posso espetar alfinetes à vontade pois não há «crime contra as pessoas» sem haver pessoas. 

Blake

A truth that's told with bad intent
Beats all the lies you can invent.

Piedade impiedosa

Todos os mentirosos defendem afincadamente a noção de «mentira piedosa». É uma excepção ética razoável que eles, impiedosos, invocam como regra hipócrita. 

O que é a verdade?

Detesto a mentira, mas não amo a verdade. A mentira sei bem o que é, mas, como perguntava Pilatos, «o que é a verdade?»

A imortalidade

Kundera é a partir deste mês o único autor vivo na Bibliothèque de la Pléiade.

3/13/2011

Vem no Shakespeare, filha

(…) for I myself am best
When least in company.


[o duque Orsino, em Twelfht Night]

Exame

Tenho pecados individuais e defeitos sociais, mas não aceito bem a ideia de ter pecados sociais e defeitos individuais.

Uma liberdade triste

Estar isolado por imposição é um calvário. Mas ficar isolado por escolha não custa. Uma liberdade triste não deixa de ser uma liberdade.

3/10/2011

Governo Sombra 100



A edição número 100 do Governo Sombra, na TSF, vai ser em directo e ao vivo. É já nesta sexta, dia 11 de Março, às 18h, no auditório da Escola Superior de Comunicação Social, em Lisboa. Convidados musicais: Deolinda. Entrada livre.

3/09/2011

Estantes


















Atarefado e ausente, a arrumar uma vez mais os livros, e desfazendo algumas colunas que tapavam tudo, as estantes progressivamente desimpedidas vão parecendo aquelas estantes da Rachel Whiteread, de quem gostas tanto, o meu espírito estava tão longe de ti e inesperadamente eis que entras de mansinho pela casa adentro. Não te vás embora.

Rainha

Reivindicou um direito à reserva emocional, «como a Rainha». Mas ela não precisava de esconder nada, pois nada havia para esconder. E nenhuma Rainha se transformaria tão rapidamente em plebeia.

Café da política #2

Almedina Atrium Saldanha
9 de Março 2011, às 19h
CICLO DO CAFÉ
Café da Política
Semi ou não semi – Os poderes presidenciais em Portugal
Com José Medeiros Ferreira (historiador e político) e António Araújo (jurista)
Moderador: Pedro Mexia
Discussões sobre política não faltam: em fóruns radiofónicos, nos transportes públicos, em família. Mas nesta tertúlia mensal sobre política não queremos confrontar embirrações, palpites ou estados de espírito. A política não é puramente casuística, depende de leis, ideologias, tendências, propostas, e há quase sempre textos que enquadram ou antecipam as grandes decisões e as grandes polémicas. Sem preocupação estrita de acompanhar as novidades editoriais, o Café da Política vai ter em atenção o que escrevem os especialistas, para que o debate político não se faça no vazio, e para que a política se revele ser, afinal, sobre a nossa vida. Café da Política, com coordenação e moderação de Pedro Mexia.

Instrução primária

















Les Liasons Dangereuses tem como subtítulo «cartas coligidas numa sociedade e publicadas para instrução de outras». Este subtítulo de gozo quase antropológico é uma maravilha. As Liasons são intensamente literatura e intensamente sociedade, anulando a distinção secular entre literatura panfletária e nefelibata. Laclos, uma espécie de Sade de direita, cria personagens fortíssimas, e grandes momentos de retórica, mas insiste em que tudo isso nos diz coisas sobre «uma sociedade». A sociedade ancien régime, folgada e perversa, que faz do ócio perfídia. E essas cartas são também «cartas persas», pois servem para «instruir» outras sociedades, talvez a nova sociedade, revolucionária, que se adivinhava, e que seria, quase sem excepções, puritana. Que se trate de matéria «instrutiva» pode ser visto como simples ironia ou com alguma amargura. Eu tive um vislumbre dessa instrução primária e eis o que aprendi: que quando o desejo vive apenas para a inteligência, e a inteligência apenas para o desejo, nascem monstros.

O triunfo da vontade

Malraux detectou nas Liasons Dangereuses uma «erotização da vontade». De facto, já não se trata apenas de tornar erótica a inteligência, e a sua declinação marcial, que é a estratégia; é também libertar a vontade de qualquer seguidismo face ao desejo. Fazer das estratégias do desejo um culto da vontade.

3/07/2011

Provas de contacto















Inquietude e alegria, alegria e inquietude, a caminho de ti, mas havia ainda outra coisa, o quê exactamente, talvez uma estranheza. Pessoas como tu não perdem tempo com pessoas como eu. O que era aquilo então? Fazia falta uma visão de fora, mas por força das circunstâncias não havia fora, ou tudo era fora connosco. Até que um dia te fotografaram, às escondidas, e a mim contigo, ficámos ambos preocupados com aquela fotografia, tu pelas razões óbvias, eu pela prova fotográfica, prova de nada mas prova de algo, de um facto ridículo, ridículo eu ali, contigo, pessoas como tu não perdem tempo com pessoas como eu, adjectivos pouco amáveis vinham a caminho.

Quando fui mortal



End of the pier, end of the bay
You tug my arm, and say: «Give in to lust,
Give up to lust, oh heaven knows we'll
Soon be dust»

Oh, I'm not the man you think I am
I'm not the man you think I am

And Sorrow's native son
He will not rise for anyone

And pretty girls make graves


[a versão é a de Troy Tate, melhor que a de John Porter]

3/06/2011

Anedonia



Annie Hall teve como working title «Anhedonia». Escrevi agora Anedonia na capa de um caderno de rascunhos, pois assim cabe lá tudo.

Uma história simples

E então decidiste que era melhor ficarmos só inimigos.

Alma / gémea

Um estudo de opinião hoje publicado indica que 60% dos inquiridos acreditam na existência de uma «alma gémea». E que 76% desses 60% dizem que já a encontraram. Persiste portanto o imaginário romântico na sociedade portuguesa, mesmo que esta esteja cada vez mais laica, tecnológica e cínica. Mas alguma coisa me intriga nestes números. Os setenta e seis por cento que encontraram a sua alma gémea vivem com essa pessoa? Ou esses setenta e seis incluem também aqueles que encontraram a alma gémea e a perderam? E se a perderam, seria realmente «gémea»? Ou é porque a perderam que acreditam que se trata de uma «alma»?

3/05/2011

«In Shreds» (1982)

Sem discussão

Lembro-me bem do momento em que soube que não ia ter irmãos. Lembro-me bem do momento em que soube que não ia ter filhos. Gostava que em ambos os casos o choque se diluísse na culpa, mas discutir com a natureza é uma fraude impossível.

Um terrível Éden

A peça televisiva Blue Remembered Hills (1979) é um Lord of the Flies menos programático e ainda mais pessimista. Os miúdos de 7 anos que brincam nas florestas do condado de Gloucester não estão exactamente no jardim do Éden. O «estado de natureza» não antecede a Queda, aqui «queda» e «natureza» são uma e a mesma coisa. Eles são animaizinhos movidos pelo instinto, pela violência, pela imitação. O «estado da natureza» é que é o «pecado original», inscrito na espécie desde o início. Dennis Potter quis os miúdos interpretados por actores adultos para evitar qualquer véu sentimental, para melhor nos identificarmos com aquelas pessoas iguais a nós, cruéis como nós, perdidas como nós, não são os adultos que se tornam crianças mas as crianças que já são terríveis adultos.

[Azul Longe nas Colinas, com tradução de Daniel Jonas e encenação de Beatriz Batarda, está em cena no Teatro Nacional D. Maria II]

3/01/2011

«La Beauté»


















Je trône dans l'azur comme un sphinx incompris;
J'unis un coeur de neige à la blancheur
Je hais le mouvement qui déplace les lignes,
Et jamais je ne pleure et jamais je ne ris.


[Annelise Hesme / Baudelaire]

Do feminino (2)

«C'était quelque être très jeune, mais de qui ce signe distinctif ne s'imposait cependant pas à première vue, en raison de cette illusion qu'il donnait de se déplacer en plein jour dans la lumière d'une lampe. Je l'avais déjà vu pénétrer deux ou trois fois dans ce lieu : il m'avait à chaque fois été annoncé, avant de s'offrir à mon regard, par je ne sais quel mouvement de saisissement d'épaule à épaule ondulant jusqu'à moi à travers cette salle de café depuis la porte. Ce mouvement, (...) que ce soit dans la vie ou dans l'art, m'a toujours averti de la présence du beau. Et je puis bien dire qu'à cette place, le 29 mai 1934, cette femme était scandaleusement belle». Breton descreve assim o seu encontro com Jacqueline, com quem casou meses depois. E o advérbio de modo final ilumina a minha atracção antiga pelo surrealismo. Ninguém que seja sensato e saudável diz que a beleza é «escandalosa». Mas alguém que vive na luz crua desse escândalo é alguém de quem sou fatalmente amigo.

Do feminino (1)

Levinas, numa das suas «lições talmúdicas», explica que o judaísmo (ou antes, o Talmude) não cultiva o culto do feminino. É um pequeno golpe no meu filo-judaísmo. Não concebo uma religião sem um «culto do feminino». Sem o culto do feminino, eu sou ateu.