4/30/2011

State of Britain (3)

Ontem, um dos comentadores convidados pela BBC, o historiador Simon Schama, lembrou que a «solenidade» existe «para o povo». Parece uma contradição. O «povo» supostamente detesta a solenidade, a princesa Diana tornou-se popular em grande parte porque representava a «informalidade» e a «sinceridade», contra a «solenidade» e a «reserva» dos costumes reais. Acontece que a «solenidade» está muitas vezes ao serviço de uma «distância» que tem ainda importância simbólica. Uma das figuras mais populares dos últimos anos, Obama, não podia estar mais distante da imagem que temos do «americano médio».

O casamento de William e Kate, ou de Guilherme e Catarina, como talvez se deva dizer agora, foi um evento social mas também um assunto de Estado. Carlos, que a todos parece uma caricatura de príncipe, apostou tudo num amor que ninguém compreende, e muitos esperam que abdique em favor do filho mais velho. Ontem, da cerimónia na Abadia de Westminster à aparição na varanda de Buckingham, do cortejo pelas ruas às multidões festivas em Hyde Park, assistimos na prática ao casamento de um rei, talvez o próximo rei inglês.

A cerimónia teve a pompa e a circunstância de uma monarquia ancestral, mais o toque «humano» dado pela óbvia simpatia de que gozam os noivos. William, menos atraente do que já foi, e cada vez mais parecido com o pai, às vezes sério, outras vezes quase alheado, outras ainda sorridente; Kate com uma cintura impossível, atenta e feliz, uma princesa «do povo», ou seja, sem «sangue azul», mas que, ao que tudo indica, conjuga a experiência de vida de uma burguesa educada e uma noção realista das funções que vai desempenhar. É mais «povo» do que Diana, e não cultiva as ilusões de Diana.

Kate e William parecem preparados para serem monarcas modernos. A monarquia é em muitos aspectos uma instituição arcaica, vinda de uma época aristocrática, com valores e códigos totalmente diferentes dos nossos. Mas tem sido um regime consentido e quase incontestado em muitas das nações mais ricas e «progressistas», como os países nórdicos. A monarquia, que reina mas não governa, mantém ainda algum prestígio simbólico e «representativo», ou «patriótico», que assegura, por enquanto, a sua sobrevivência. Há quem proteste, faça troca, se enfade, mas a atitude geral dos ingleses face a Kate e William corresponde àquilo que Schama chamou uma surpreendente «suspensão do cinismo».


[no Expresso]

4/29/2011

State of Britain (2)

O editor da revista Country Life explicou há tempos que a decadência das grandes casas de família inglesas (e das «grandes famílias») se deve aos três D: «drink, debt, divorce».

State of Britain

If we are talking about the power of a single unelected individual, Rupert Murdoch is a far greater threat to British democracy than our hereditary head of state.

[Timothy Garton Ash]

4/27/2011

Identity is the crisis can't you see



[X-Ray Spex, «Identity», álbum Germ Free Adolescents, 1978]

4/26/2011

Paradoxos da crise


















The world is completely melting and yet beautiful women are still being produced.

[Jason Schwartzman, em Bored to Death (HBO), de Jonathan Ames. Na imagem, Trieste Kelly Dunn]

O raio verde

Reencontro duas raparigas por quem tive um fraquinho, embora de importância e duração diferentes. E não há como dizer isto de outra maneira: perderam a beleza de outros tempos, esvaiu-se, foi-se, já não existe. Há uns anos, senti-me atraído pela beleza delas, pela sua «vivacidade» que era afinal a vivacidade das pessoas que se sabem belas, mas agora essa atracção morreu, são ainda raparigas simpáticas e animadas, embora menos, mas o desaparecimento tão flagrante da beleza perturba de algum modo o nosso reencontro, instala uma melancolia que tento disfarçar sem grande sucesso.

A beleza física dura pouco tempo. Talvez isso prove, sugerem alguns, que a beleza é «sobrevalorizada». Outros, como eu, acham que a beleza é como o raio verde, um fenómeno precioso porque dura apenas uns segundos, tão poucos segundos que muitos dizem que é uma ilusão.

4/21/2011

Créditos finais














Foi no Hellman, naquela cena em que o casal está deitado na cama a ver O Espírito da Colmeia, ele extasiado, e ela comovida, com a cabeça no peito dele. Percebi logo que podíamos ser nós, contigo «as herself», e com um actor a fazer as minhas vezes, eu muito junto mas fora de campo, de auscultadores, a coordenar a cena, artificiosa mas verdadeira, exactamente com aquela cama e aquele dvd. E mais do que não termos ficado juntos, custou-me de repente que os nossos nomes não fiquem juntos nunca.

4/15/2011

Já nas livrarias


















Uma antologia pessoal com poemas dos livros Duplo Império (1999), Em Memória (2000), Avalanche (2001), Eliot e Outras Observações (2003), Vida Oculta (2004) e Senhor Fantasma (2007). Edição Dom Quixote.

Poems from the Portuguese

Sidney Lumet 1924-2011

Cineasta abundante, o meu Lumet favorito é o Lumet tardio: Fuga sem Fim (1988), fabuloso ensaio sobre o combate entre a revolução política e a conservação familiar, e Antes que o Diabo Saiba que Morreste (2007), um epílogo desencantado sobre a nossa espécie animal, lasciva e venal. Esses dois filmes crepusculares vão mais longe do que os famosos «docudramas» de Lumet sobre a justiça, perfeitamente carpinteirados e coerentes, mas algo rasos, pouco complexos, insuficientemente ferozes. Isso viria depois. A idade não «pacificou» Lumet, como se diz que faz, trouxe pelo contrário uma nova inquietação, cheia de zonas de sombra. Por isso o cineasta terminou, octogenário, com uma tragédia brutal, uma história tão trágica e tão brutal que não nos deixa tempo nem liberdade para julgar ninguém.

4/14/2011

Londres esquece / esquecer Londres


















East London will never forgive
all my wrongdoings but still it’s the place where I live
North London has a place in her heart
she’s far too strong for me that’s what I thought at the start
I’m not that strong
after a week or two
I thought our love was true
She was my girlfriend
but I couldn’t call her my girlfriend.


Um apego a fantasmas

Há nestas quatro histórias duas que estão «mal resolvidas»: mal esclarecidas e mal desfeitas. As outras duas terminaram de vez, em natural e saudável apagamento; mas nestas existe ainda alguma coisa viva e doentia. Racionalmente, ninguém duvida de que tudo ficou esclarecido e desfeito, mas parece que a doença sobreviveu ao óbito, como um apego a fantasmas.

A moral e as maneiras

Li In a Forest, Dark and Deep (2011) e não me pareceu memorável, talvez porque não fosse especialmente «dark» nem «deep». Mas em palco, com bons actores, ganha bastante. Ao contrário de uma peça, digamos, geminada a esta, In a Dark Dark House (2007), o clima aqui não é opressivo, são apenas dois irmãos aos gritos, um proletário machista e uma intelectual angustiada.

Na versão agora em cena no West End londrino, dirigida pelo próprio LaBute, Matthew Fox traz uma ferocidade genuína ao papel, fazendo do irmão um «cowboy puritano». E a inteligente Olivia Williams compõe uma mentirosa compulsiva mas sedutora. Ele prefere a «moral» às «maneiras». Ela prefere as «maneiras». Ele odeia a mentira, toda a mentira, e por causa disso porta-se como um bruto, sem medir a violência das suas palavras. Ela precisa da mentira para guardar segredos destrutivos, para criar ilusões suportáveis, para viver com uma imagem decente de si mesma.

O texto nunca ultrapassa a mediania, mas é um prazer ver Williams e Fox, sob a direcção segura de LaBute, à volta com os seus segredos e mentiras, com as suas revelações previsíveis e as provocações moralistas, lançados ao pescoço um do outro, por bem ou por mal, pelas educadas mentiras ou pelas intoleráveis verdades.

Norwegian Wood













O que o vietnamita Tran Anh Hung faz com o romance de Murakami (que não li) é portentoso: segue um triângulo amoroso adolescente eliminando quase por completo o mundo à volta daqueles três. A contestação política, a vida social, é tudo um ruído de fundo, tanto quanto o próprio mundo físico, que é desfocado, silenciado, posto fora de campo, boicotado. O erotismo em Norwegian Wood é sôfrego mas também delicado e minucioso, e a paixão existe de forma tão desmesurada porque supõe à partida a ideia de perda. Tran Anh Hung filma o amor sem contexto, sem ironia, sem cinismo, não me lembro de outro filme que o tenha feito, talvez desde Bresson. E depois, é verdade que me identifico-bastante com aquele desnorte tímido do rapaz, Toru, que tenta ser uma boa pessoa mas que percebe que isso não chega; com a seriedade tresloucada de Naoko, tão depressa carinhosa e carnal como frígida e demente; e ainda com aquela Midori [a actriz Kiko Mizuhara] que se parece tanto com uma rapariga que eu conheci, forte, frágil, fútil, dissimulada, encantadora, brutal. Até a canção dos Beatles bate certo: She asked me to stay and she told me to sit anywhere, / So I looked around and I noticed there wasn't a chair.

4/13/2011

Café da política #3

Almedina Atrium Saldanha
13 de Abril 2011, às 19h
CICLO DO CAFÉ
Café da Política
«A soberania que sobra - de Bodin ao FMI»
Com António Costa Pinto (historiador e politólogo) e Pedro Lomba (jurista e colunista)
Moderador: Pedro Mexia
Discussões sobre política não faltam: em fóruns radiofónicos, nos transportes públicos, em família. Mas nesta tertúlia mensal sobre política não queremos confrontar embirrações, palpites ou estados de espírito. A política não é puramente casuística, depende de leis, ideologias, tendências, propostas, e há quase sempre textos que enquadram ou antecipam as grandes decisões e as grandes polémicas. Sem preocupação estrita de acompanhar as novidades editoriais, o Café da Política vai ter em atenção o que escrevem os especialistas, para que o debate político não se faça no vazio, e para que a política se revele ser, afinal, sobre a nossa vida. Café da Política, com coordenação e moderação de Pedro Mexia
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4/09/2011

Back in a minute

4/08/2011

Cioran 1911-1995















(...) Cioran escreve contra si mesmo, escreve para insultar a vida e para se insultar a si próprio, foi sempre isso que me interessou nele, nunca gostei de críticos auto-complacentes. Ele enfrenta o desespero, e, ao contrário do que parece, nunca desespera por completo. Por exemplo, foi com Cioran que aprendi que um pessimista não se suicida, que o suicídio é uma facilidade, uma recusa da vida não como experiência mas como incógnita. Tal como o seu amigo Beckett, Emil Cioran viveu estoicamente o seu desgosto pela espécie e pela existência. E até encontrou no budismo uma espécie de religião defeituosa e portanto útil. Era um homem intensamente privado, e apesar de obcecado com o tema da solidão total, tinha um grupo de fiéis e viveu cinco décadas com uma mulher, de quem creio nunca ter visto sequer um retrato. 

Cioran foi um «aristocrata dos vencidos», não conheço definição tão certeira como essa, e viveu algumas divertidas contradições: autor da moda mas mediaticamente invisível, niilista citado nos salões burgueses, discípulo de Job sem grandes tragédias objectivas. Sempre admirei nele a propensão para os «exercícios negativos», que eram não apenas a constatação de fracassos, precariedades ou embustes, mas uma exploração radical dessa constatação pessimista. Isto, creio eu, tem também a virtude de afastar os timoratos e de atrair os complicados.

Descobri Cioran na biblioteca do meu pai, que nunca contrariou o meu entusiasmo por aquele autor, que era porém uma possível influência «perigosa» na minha educação nada niilista. Ao longo dos anos, fui comprando e lendo o Cioran quase todo, geralmente livros fininhos que eu enchia de marcadores e sinalefas a lápis. É possível, creio que é até desejável, que estes textos sejam mais «literatura» do que «filosofia», a verdade é que nenhum argumento filosófico, por mais bem argumentado, me perturba, enquanto que uma frase bem calibrada do romeno é fatal, nem vos conto. A biografia do Cioran parisiense é sucinta e em geral amena, mas nunca entendi as acusações de «pose», acho que chamam «pose» àquilo que nos outros, a ser sincero, incomoda. E se muitos admiram as subtilezas elegantes de Cioran, é bastante mais difícil aceitar o seu pensamento inquieto. (...)


[no Expresso de amanhã]

4/07/2011

Os vossos exageros

É muito raro estar de acordo com aquilo que as pessoas dizem acerca de mim, gostem ou desgostem. Encontrei ontem esta frase de Talleyrand: «On dit toujours de moi trop de bien ou trop de mal. Je jouis des honneurs de l'exageration». É a fórmula exacta: honram-me com os vossos exageros. Valho bem mais e bem menos que isso.

4/06/2011

O cabaré amoroso

A Sense of Detachment, de John Osborne, é Pirandello on speed. Em 1972, Osborne estava inseguro e zangado, como sempre, e escreveu a peça alimentado a anfetaminas. Não admira que o texto seja um objecto alucinante, uma colagem de poemas e citações, um amontoado de provocações anti-burguesas e reaccionárias, um manifesto de desconstrução teatral, um cabaré pornográfico.

Mas a barulheira é excessiva, ninguém faz tanto barulho se não for para ocultar alguma coisa, a nobreza da linguagem, por exemplo, ou a integridade intrínseca de um acto («being in love») que se tornou anátema. «Anathema because it involves waste, exploitation of resources, sacrifice, unplanned expenditure, both sides sitting down together in unequal desolation. This is the market place I have known and wandered in almost as long as I indecently remember or came to forget».

Lembranças a D. Eudóxia


















Confesse, Sabino. Mas olha: vou-lhe dizer apenas o seguinte. Se cada um conhecesse a intimidade sexual dos outros, ninguém falaria com ninguém. Deixa eu ir. Lembranças a D. Eudóxia.

[Nelson Rodrigues, O Casamento, 1966]

Gazeta médica


















Em 1858 a vi eu a banhos de mar em S. João da Foz. Dos tais beijos do anjo da morte nem sinal! O anjo da vida é que viera acrescentar à de Maria três existências, três lindas crianças, robustas e sadias como as crianças dos noticiários do jornalismo, muito parecidas com sua avó, virtuosa e ditosa senhora, para quem o Céu é inesgotável de contentamentos.

Sirva este casamento de conforto e esperança às meninas tísicas, de aviso aos pais e de estudo aos redactores da Gazeta Médica.


[Camilo, Doze Casamentos Felizes, 1861]

4/05/2011

Casamento sueco


















O filme de Bergman Scener ur ett äktenskap (1973) chamou-se na versão portuguesa Cenas da Vida Conjugal e na brasileira Cenas de um Casamento. Mas o que eu gosto mesmo é da edição brasileira do texto, intitulada Cenas de um Casamento Sueco. Compreendo, há que marcar as distâncias. Casamentos daqueles é coisa de estrangeiros luteranos, angustiados e complicados, os nossos casamentos, toda a gente sabe, são casamentos felizes.

Eu e o Bergman

Quando Bergman morreu, um crítico eminentíssimo, Jonathan Rosenbaum, escreveu que aquele cinema de angústias metafísicas e tormentos relacionais estava datado e ia desaparecer aos poucos: « (...) these films are at times too self-absorbed to say much about the larger world, limiting the relevance that his champions often claim for them». Não sei se Rosenbaum tem razão nas suas previsões, espero bem que não. Mas sei que os meus filmes favoritos incluem quase todos angústia metafísica e tormento relacional. Mas eu, é verdade, não ligo muito ao «larger world»: sempre fui um «self-absorbed» do caraças.

4/04/2011

O amor apagado

Ela explica que mudou, mudou muito, e enumera as mudanças, conta-me sem nenhuma intenção especial a sua vida recente, e a tranquilidade com que abjura as suas antigas convicções e qualidades, com que efectivamente se distancia de quem era quando eu a amei, esvazia de forma súbita, uma década depois, esse amor que se esvaiu de morte natural mas que existia em memória viva, agora cruamente apagada.

The blondie affair




Ouviram-no dizer ainda: «se ela ligasse eu ia a correr».

4/03/2011

Vale de Lobos

Há seis dias sucessivos a ouvir coisas que me fazem ansiar a destempo por um Vale de Lobos.

4/02/2011

Letra pequena

O que é miserável



Numa canção sobre uma humilhação sexual, a que propósito vem o refrão «and love is just a miserable lie»? Parece um salto conceptual, um abuso de linguagem, um exagero imperdoável. Mas reparem que há umas aspas: «and "love" is just a miserable lie». Não é «o amor» que é uma «mentira miserável», mentira miserável é usar a palavra «amor» em assuntos de estrita foda.

[«Miserable Lie», álbum The Smiths, 1984, aqui na versão Peel Sessions ]

4/01/2011

Quase morto (5)

Durante anos, como toda a gente, ignorei a morte. Até que fui ao seu encontro, como num devaneio sexual. Depois, fugi dela com grande dedicação e proveito. E um dia, numa curva, encontrei-a por acaso. Podia dizer que morri nessa altura, mas não é isso, é mesmo o contrário disso, eu encontrei a morte e sobrevivi, fiquei cá mesmo depois da morte, agora já não a desconheço, nem a procuro, nem lhe resisto, agora vivo a vida tranquila e estridente de um quase morto.

Condição



Ela diz «I can't live on this way», ele diz «You agreed to accept that condition», ela diz «I know I did. But I can't».

[Tennessee Williams, Cat on a Hot Tin Roof, 1955]

Quase morto (4)

Digo-lhe que «em sentido estrito» não tenho currículo nem biografia, não consegui nada, não fiz nada, é como se nem tivesse andado por cá. E lembro-me de uma passagem de Beckett: «Normally I didn’t see a great deal. I didn’t hear a great deal either. I didn’t pay attention. Strictly speaking I wasn’t there. Strictly speaking I believe I’ve never been anywhere».