State of Britain (3)
O casamento de William e Kate, ou de Guilherme e Catarina, como talvez se deva dizer agora, foi um evento social mas também um assunto de Estado. Carlos, que a todos parece uma caricatura de príncipe, apostou tudo num amor que ninguém compreende, e muitos esperam que abdique em favor do filho mais velho. Ontem, da cerimónia na Abadia de Westminster à aparição na varanda de Buckingham, do cortejo pelas ruas às multidões festivas em Hyde Park, assistimos na prática ao casamento de um rei, talvez o próximo rei inglês.
A cerimónia teve a pompa e a circunstância de uma monarquia ancestral, mais o toque «humano» dado pela óbvia simpatia de que gozam os noivos. William, menos atraente do que já foi, e cada vez mais parecido com o pai, às vezes sério, outras vezes quase alheado, outras ainda sorridente; Kate com uma cintura impossível, atenta e feliz, uma princesa «do povo», ou seja, sem «sangue azul», mas que, ao que tudo indica, conjuga a experiência de vida de uma burguesa educada e uma noção realista das funções que vai desempenhar. É mais «povo» do que Diana, e não cultiva as ilusões de Diana.
Kate e William parecem preparados para serem monarcas modernos. A monarquia é em muitos aspectos uma instituição arcaica, vinda de uma época aristocrática, com valores e códigos totalmente diferentes dos nossos. Mas tem sido um regime consentido e quase incontestado em muitas das nações mais ricas e «progressistas», como os países nórdicos. A monarquia, que reina mas não governa, mantém ainda algum prestígio simbólico e «representativo», ou «patriótico», que assegura, por enquanto, a sua sobrevivência. Há quem proteste, faça troca, se enfade, mas a atitude geral dos ingleses face a Kate e William corresponde àquilo que Schama chamou uma surpreendente «suspensão do cinismo».
[no Expresso]











