5/31/2011

Redenção



Há uns tempos, escrevi numa crónica: «Há, no entanto, uma redenção possível. A última edição da Vanity Vair traz uma série de fotografias de Lindsay Lohan que a imaginam quase uma heroína hitchcockiana. A rapariga ruiva aparece como mulher loura, de cabelo curto, vestidos elegantes, estivais, chapéu, óculos escuros, e os olhos verde água têm uma intensidade que faz com que Lindsay pareça sempre emocionada, atentíssima ou desfeita. E há também aquela boca carnuda levantada de menina mimada. E a voz, muda nas páginas da revista, mas que conhecemos, rouca, felina, quebrada. Vejo as fotos e penso que não há razão para que Lohan, a celebridade, não se torne enfim em Lohan, a actriz. Depois de a ter visto num Altman, sei que é uma actriz, e que o turbilhão da sua vida («estou a cair aos bocados», confessa) é material bruto para o seu trabalho sobre as emoções». Às fotografias da revista há agora que acrescentar as fotografias em movimento de Richard Phillips (Bienal de Veneza, 2011). É, de novo, a redenção pela beleza e pelo olhar, via Hitchcock. Lohan não vai poder ir à inauguração, pois está em prisão domiciliária, uma vez que violou os termos da liberdade condicional a que estava sujeita.

5/30/2011

O corpo feminino

That there was something sexualised or, if you like, over gender-oriented, about the way she saw things I should have realised sooner than I did, but there was no missing it when she took to my manuscript with a blue pen, crossing out every reference to a woman's body – not just "breast" and "thigh", but also "eyebrow", "elbow" and "armpit".

[Howard Jacobson, no Independent, sobre a sua experiência de ser editado por Carmen Callil]

Nem sequer


















Carmen Callil, um dos três membros do júri do Man Booker International, demitiu-se das suas funções, depois de os seus colegas terem decidido por maioria atribuir o prémio deste ano a Philip Roth. A fundadora da editora feminista Virago declarou: «He goes on and on and on about the same subject in almost every single book. It's as though he's sitting on your face and you can't breathe». E mais: «I don't rate him as a writer at all». Uns dirão que se trata da antiga hostilidade das feministas à «misoginia» de Roth, palavra que como se sabe designa qualquer descrição honesta e brutal da libido masculina. Callil não quis ir por aí, embora a imagem que encontrou para expressar repugnância seja demasiado sexual para acreditarmos nela. Em todo o caso, Callil não está com meias medidas, diz que Roth nem sequer é um escritor. E porquê? Porque trata dos mesmos assuntos de livro para livro. Como se a marca de um criador importante não fosse precisamente a construção de um universo pessoal, subjectivo, obsessivo, reincidente. Cézanne pintou sessenta vezes o monte Sainte-Victoire. Querem ver que não era sequer um pintor?

5/29/2011

Enfáticos

Dizemos de forma singela as coisas mais fortes, e isso desde que estejamos rodeados de pessoas que acreditem na nossa força: um círculo assim forma-nos na «simplicidade de estilo». Os desconfiados falam de maneira enfática, os desconfiados tornam os outros enfáticos.

[Nietzsche]

5/28/2011

«The real people went away» (Bill Callahan)

Conheci pouquíssimas pessoas «reais», pessoas «a sério», e dessas poucas quase todas se foram embora. Por zangas, mudanças, acasos, a bem ou a mal, lentamente ou de repente, por razões atendíveis ou sem motivo algum. Vivem no estrangeiro, ou desapareceram do mapa, ou não têm tempo para nada, ou nem nos falamos. Muitas dessas pessoas tinham defeitos importantes, mas eram criaturas complexas, fulgurantes, infungíveis. O mundo seria um lugar mais exigente e mais decente se algumas dessas pessoas ainda estivessem por aqui. Mas não estão, foram-se embora. Falta saber se é uma fatalidade ou um castigo.

5/24/2011

70

Canções de protesto

As mais canónicas «canções de protesto» de Dylan correspondem a uma fase inicial da sua carreira, a fase Woody Guthrie, na qual se incluem aliás alguns momentos altos. Depois, Dylan fartou-se de messias laicos e discípulos mal-amanhados, e tornou-se eléctrico e born again e o mais que lhe apeteceu. É verdade que nunca abandonou as «canções de protesto», mas essas canções eram um impulso, mais do que uma posição. Dois terços das canções de Dylan, contas por alto, são recusas, zangas, sarcasmos e ajustes de contas. O motivo pode ser «político» em sentido estrito, ou totalmente umbiguista, ou «cósmico». Dylan está sempre a protestar contra alguma coisa, tanto protesta contra o racismo como contra não o deixarem ficar em determinado hotel, protesta contra as ex-companheiras, contra os infiéis, contra o consumismo, contra a finitude, contra os homicidas, contra os exegetas, contra as expectativas, contra o futuro radioso, e por aí adiante. Não são hinos fulgurantes e datados, mas «canções de protesto» universais.

5/23/2011

A Coluna Infame

Café dos Blogues
Quinta-feira, 26 de Maio, às 19h
Na Livraria Almedina do Atrium Saldanha
A Coluna Infame
Com João Pereira Coutinho, Pedro Lomba e Pedro Mexia
Moderação: Carla Quevedo



Que tal sairmos de frente do ecrã e conversarmos de viva voz? O Café dos Blogues é o ponto de encontro de bloggers, facebookistas, twitteiros e leitores. Na última quinta-feira de cada mês, os assuntos mais falados nos blogues e nas redes sociais serão debatidos por dois convidados. Em cada sessão falaremos ainda de temas que preocupam os intervenientes nos novos meios de comunicação online, como o seu uso, a liberdade de expressão e o anonimato. Mas a conversa não fica pela mesa. O público é convidado a enviar as suas perguntas para bloguedoscafes@sapo.pt ou a colocá-las em presença e a viver a experiência esquecida de falar cara-a-cara com outras pessoas. Café dos Blogues: uma conversa de carne e osso, com coordenação e moderação de Carla Quevedo (Bomba Inteligente).

Uma estranha gratidão

«Pede tudo, mas prepara-te para não conseguires nada». Gosto desta injunção porque despreza a experiência empírica. Em geral, aqueles que pedem tudo estão habituados a conseguir muito. E aqueles que nunca conseguem nada evitam grandes pedidos. Mas pedir menos que tudo é uma abdicação repugnante. E receber quase nada é uma hipótese provável. Há então que fazer uma coisa e aceitar a outra, primeiro pedir, depois não conseguir, fica-se por fim com uma estranha gratidão.

5/19/2011

The Zombies

5/18/2011

A véspera desse dia

Vai chegar o dia em que eu não escreverei mais sobre ti, mas amanhã não é ainda a véspera desse dia.

Os fragmentos

Há vinte anos, ofereceram-me um «fragmento do muro de Berlim», e há dias, em Berlim, deram-me outro igual. Há «fragmentos» a mais em circulação, que excedem de certeza a extensão total do muro. Mas com os símbolos é mesmo assim: eu também tenho recordações tuas que nunca mais acabam, recordações a mais para tão pouco tempo, recordações às vezes quase inventadas mas nem por isso menos verdadeiras.

5/17/2011

Persistência retiniana













Persistência da visão, persistência retiniana ou retenção retiniana designa o fenómeno ou a ilusão provocada quando um objecto visto pelo olho humano persiste na retina por uma fracção de segundo após a sua percepção. (...) Segundo essa teoria, ao captar uma imagem, o olho humano levaria uma fracção de tempo para «esquecê-la».

Está tudo aí

We look down on the earth and all its schemes
We laugh and it's all there in my dreams
(...)
That was the funnest day, her sad eyes beam
And it's all there in my dreams


[Eels]

Um compromisso

Alguém, nem sei quem, disse que um bom compromisso é aquele em que ambas as partes ficam descontentes. Foi isso que conseguimos, sem sequer ter havido negociações, apenas uma conjugação de abrandamento, evidência e inércia. Provavelmente, ninguém definiria o que aconteceu como um «compromisso», mas eu sei e tu sabes que abdicámos em função de outros interesses, e obrigámo-nos a isso, mais tu que eu, reconheço. Ambas as partes ficaram descontentes, é a prova de que encontrámos um bom compromisso.

5/13/2011

Caminhar no Gelo

(...) Herzog atravessa bosques, aldeias, rios, vinhas, passa por radares, locais históricos, inscrições religiosas, vê corvos, cães, veados, extasia-se com as estrelas, avança pelo vento e o nevoeiro, sofre a chuva e a neve. O diário de viagens de Herzog remete para a mais importante iconografia do romantismo: os quadros de Caspar David Friedrich, com personagens solitárias no meio de paisagens inóspitas mas sublimes. (...)

[da minha introdução ao mais recente volume da colecção de viagens da TdC]

Museum für Film / Berlim

Um cenário em miniatura de «Caligari». A farda vermelha do porteiro de «O Último Homem». Um convite para a estreia de «Os Nibelungos». Um exemplar do guião de «O Anjo Azul». Um bilhete de Pabst à moderníssima Louise Brooks. Um tétrico cartaz de «Matou». O caderno de notas de Lang para «Metrópolis». A máscara mortuária de Murnau. O passaporte de Lubitsch. A cigarreira de Stroheim. O Óscar de Emil Jannings. Um telegrama enlevado de Sternberg a Marlene Dietrich. Uma foto autografada de Hemingway dedicada «à minha boche favorita». As malas de viagem Marlene e os vestidos de noite de Marlene. Um modelo em grande do estádio olímpico de Berlim, com a localização, iluminada, das várias câmaras de Leni Riefenstahl. Um painel com os colaboracionistas, os exilados e os que morreram nos campos. E, anos mais tarde, uma fotografia de Lotte Eisner, que escreveu sobre «o ecrã demoníaco», a visitar a geração do pós-guerra (Herzog) durante uma rodagem. Ou ainda os abundantes materiais de «As Asas do Desejo», filme de todos os fantasmas alemães. (...)

[no Expresso de amanhã]

5/12/2011

Camões

O pós-pessimismo

Assim como os sociólogos falam de «pós-materialismo», também existe um «pós-pessimismo». O pós-materialismo supõe uma sociedade que genericamente tem assegurada a sua subsistência e que por isso se dedica a questões não-materiais. O pós-pessimismo supõe um estado de coisas em que a hipótese pessimista se confirmou, e por isso o pessimismo já não é um espectro mas uma condição. E isso liberta a cabeça para pensar noutros assuntos.

5/11/2011

Summer and Smoke










Summer and Smoke (1948) começa como um Tennessee Williams vintage. Estamos numa daquelas cidadezinhas sulistas abrasadoras, ignorantes, opressivas. Os protagonistas são um jovem médico materialista e hedonista e uma filha de pastor muito puritana e afectada. Gostam um do outro, mas têm concepções de «amor» opostas; para ele, o amor é natural como uma lição de anatomia, para ela é majestoso e inefável como uma catedral gótica. Ele acredita na carne, ela em «laços espirituais». Tudo isto em registo um pouco caricatural mas bastante verosímil, e com aquela efeverscência poética típica de TW.

Não acontece nada entre ele e ela no primeiro acto. Ele vai-se embora da cidade, casa-se, e ela cai de cama, deprimida. Quando se reencontram, no verão seguinte, ela mudou completamente de ideias. Aquela rapariga que dizia «não» morreu há um ano, sufocada pelo fumo de algo que ardia dentro dela.

Só que ele também mudou bastante, e as posições invertem-se, cruelmente. Agora que ela é sensual, ele tornou-se espiritual; agora que ela é máquina, ele é fumo; agora que ela é fogo, ele é gelo.

Por isso, a ele só lhe resta a mitificação de um amor «impossível», e ela não tem outra remédio senão «cair verticalmente no vício». Cada um teve razão fora de tempo, e quando se despedem são já dois destroços.

Vem no Kierkegaard

Vem no Kierkegaard: casa ou não te cases, vais arrepender-te; ri-te ou chora com a estupidez do mundo, vais arrepender-te; confia numa rapariga ou não confies nela, vais arrepender-te; mata-te ou não te mates, vais arrepender-te. «A isto se resume, cavalheiros, a sabedoria».

The very name

«You have introduced a topic on which our natures are at variance - a topic we should never discuss: the very name of love is an apple of discord between us. If the reality were required, what should we do? How should we feel?»

[Charlotte Brontë, Jane Eyre]

5/09/2011

Café da política #4

Café da política #4
Almedina Atrium Saldanha
11 de Maio de 2011, às 19h
CICLO DO CAFÉ
Café da Política
«O Bom Governo - a propósito da edição portuguesa de
Do Espírito das Leis
Com Miguel Morgado (Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica) e João Tiago Proença (Escola Superior de Comunicação Social / Instituto de Filosofia da Linguagem)
Moderador: Pedro Mexia
Discussões sobre política não faltam: em fóruns radiofónicos, nos transportes públicos, em família. Mas nesta tertúlia mensal sobre política não queremos confrontar embirrações, palpites ou estados de espírito. A política não é puramente casuística, depende de leis, ideologias, tendências, propostas, e há quase sempre textos que enquadram ou antecipam as grandes decisões e as grandes polémicas. Sem preocupação estrita de acompanhar as novidades editoriais, o Café da Política vai ter em atenção o que escrevem os especialistas, para que o debate político não se faça no vazio, e para que a política se revele ser, afinal, sobre a nossa vida. Café da Política, com coordenação e moderação de Pedro Mexia.

5/02/2011

«Justice has been done»

5/01/2011

Velhos mestres

When he [Ray Davies] went to art school in the early 60s, for instance, he could feel that "culture was going through a radical change… I mean, people went off to be artists rather than to get proper jobs. Previously, art school had been for the upper and middle classes. Then working-class culture started coming in: in the theatre, in films, in music. There was this feeling that art was moving in that direction too. (…) ." Did Davies, product of a secondary modern, find this liberating? No, he did not. "I wanted everything to be as it was," he says, with a kind of yelp. "I liked the Old Masters. Russian icons. That's how I wanted to paint."

[de uma entrevista ao Guardian]

Ernesto Sabato 1911-2011


















Ernesto Sabato andou pelo comunismo e o humanismo existencialista e acabou numa espécie de «anarquismo cristão». Dos escritores novecentistas «comprometidos», sempre me pareceu um dos mais basicamente decentes, na linha de Camus, que o admirava. Nunca más (1984), o detalhado relatório que Sabato coordenou, descreve as violações dos direitos humanos durante a ditadura argentina, e as passagens que li, há muitos anos, nunca mais me permitiram conviver com a desculpabilização «tacticista» das ditaduras.

Li, de forma descontínua, dois dos três romances de Sabato, e, com grande entusiasmo, três colectâneas ensaísticas: Hombres y engranajes (1951), Heterodoxia (1953) e Apologias y rechazos (1979). Nessas meditações e anotações, encontrei sempre um homem inquieto, insatisfeito, angustiado, tão diferente do típico intelectual sul-americano, que geralmente se encosta a um «ideal» e se mantém imune aos factos.

Sabato começou como cientista, mas abandonou a ciência porque lhe parecia uma actividade insuficientemente ética, demasiado neutra. Os textos ensaísticos de Sabato são tudo menos eticamente neutros, mas gosto deles porque nunca se tornam justificativos, eufemísticos, ínvios, perversos. Talvez a inquietude de Sabato me tenha tocado porque existe nela uma estranha vitalidade, algo que um jornal argentino definiu como «a força vital do pessimismo».