7/16/2011




















Estas férias vão dar muito trabalho. O Lei Seca volta em Setembro. Cheers.

Licença sabática

Todas as semanas recebo convites para apresentações, colóquios e debates. São convites amáveis, aos quais tenho tentado corresponder na medida do possível. Mas depois de doze meses em que me desmultipliquei em intervenções, vou interromper durante uns tempos todas essas actividades. Assumi compromissos que me vão deixar pouca disponibilidade, e que tornam indispensável uma licença sabática.

7/15/2011

The water sustains me without even trying



The water sustains me without even trying
The water can’t drown me, I’m done
With my dying
Please help me build a small boat
One that’ll ride on the flow
Where the river runs deep
And the larger fish creep
I’m glad of what keeps me afloat

The artist has run out of pain

Ouvi mal a letra, aconteceu-me tantas vezes, «the artist has run out of pain», grande verso, claro que depois percebi que não era assim, era «the artist has run out of paint», faz mais sentido mas não é tão bom, falta de tinta é um percalço mas falta de sofrimento é outra coisa, não sei se bênção ou maldição, afinal o «artista», aquele que se julga artista, precisa do sofrimento, sem o sofrimento por que razão havia de perder tempo com coisas criadas, artefactos, tentativas? Mas às vezes acontece, esgota-se o sofrimento, não talvez o sofrimento em si, alojado algures em neurónios de que nem suspeito, mas a capacidade de fazer do sofrimento o nosso contra-campo, a nossa contracena, a nossa conversa. Estou cansado, tenho mais do que idade para estar cansado, esgotou-se-me o sofrimento como ao outro a tinta, não o matei mas dispensei-o, jubilei-o, exilei-o, dei-lhe folga, pedi-lhe que metesse férias, mandei-o ver se chovia. O sofrimento, a certa altura, é como um comediante que anda nisto há décadas. Perdeu a graça, caiu em desgraça, graças a quem devo dar graças, se é que há algo ou alguém, nalgum átomo de que nem suspeito.

7/14/2011

Vestir a camisola

A cultura da abjecção

Deborah Orr, no Guardian, lembra o essencial: não são apenas os aparentes actos criminosos do império Murdoch que são graves, também são graves os seus métodos «legítimos». Murdoch criou uma cultura do lixo. Lixo estético, ético, jornalístico e humano. Acabou com a cultura da «deferência», mas também tornou normal a cultura da abjecção.

But for many years there has been widespread acquiescence to the idea that it's reasonable, even necessary, to punish imperfect humans for their success or wealth – particularly when that success is wholly or even partly put down to the agency of the media in the first place (...). But the attitude itself is wrong (...).

The funny thing is this: while Murdoch's empire may now be crumbling, one of the magnate's objectives has been fulsomely achieved, and remains, as yet, unchallenged. He wanted to destroy British deference to people who had, or seemed to have, a sense of entitlement. His own sense of entitlement, fostered among all of the lieutenants in his own organisation and beyond, trumped everyone else's.

The compact was between him and the public whose interest, however prurient, his newspapers piqued, directly or indirectly. It was Murdoch, his clients and all those others who picked up the stories, ran them and read them versus the rest of the culture. Much of that culture has accepted to some degree that public figures (...) are always, in some sense, fair game. I repeat. Even now, the debate is all about illegal means, not bogus, self-righteous, spiteful, resentful, petty, judgmental and repellently self-interested attitudes.

Britain can only save itself from Murdoch by re-examining that baleful legacy, and understanding that by threatening the exposure and condemnation of private, human failings, the Murdoch empire, and much of the rest of the press, held the politicians, the police, and the entire population, to ransom. (...)

7/13/2011

The Queen is Dead






















O discou saiu há vinte e cinco anos, eu descobri-o há vinte e um. Nunca tinha ouvido nada assim, nunca mais ouvi nada assim. O desaforo lúdico de «The Queen Is Dead», a sinceridade rude de «Frankly, Mr Shankly», o emotivismo apocalíptico de «I Know It's Over», o queixume regressivo de «Never Had No One Ever», a empatia arrogante de «Cemetry Gates», a raiva festiva de Bigmouth Strikes Again», a diferença ofegante de «The Boy with the Thorn in His Side», a troça desabrida de «Vicar in a Tutu», a esperança mórbida de «There Is a Light That Never Goes Out», o hedonismo surreal de «Some Girls Are Bigger Than Others». Nunca me canso disto.

Café da política #6

Café da política #6
Almedina Atrium Saldanha
13 de Julho de 2011, às 19h
CICLO DO CAFÉ
Café da Política
«O discurso catastrofista em política»
Com André Freire (politólogo, ISCTE-IUL) e Eduardo Cintra Torres (crítico de televisão do Público)
Moderador: Pedro Mexia
Discussões sobre política não faltam: em fóruns radiofónicos, nos transportes públicos, em família. Mas nesta tertúlia mensal sobre política não queremos confrontar embirrações, palpites ou estados de espírito. A política não é puramente casuística, depende de leis, ideologias, tendências, propostas, e há quase sempre textos que enquadram ou antecipam as grandes decisões e as grandes polémicas. Sem preocupação estrita de acompanhar as novidades editoriais, o Café da Política vai ter em atenção o que escrevem os especialistas, para que o debate político não se faça no vazio, e para que a política se revele ser, afinal, sobre a nossa vida. Café da Política, com coordenação e moderação de Pedro Mexia.

7/12/2011

A alma no prego

You’re a weapon of devotion
Keep the faithful entertained
You’re a lover of attention
Found a way to pawn the soul
Disposition may be fetching
But the world moves on and leaves you far behind


[James]

7/11/2011

Lamento gramatical

Quando desapareceu a única pessoa, desapareceu a segunda pessoa.

Sine nobilitate


















Em arrumações, encontro um romance de Julian Fellowes que comprei para lhe oferecer mas que ficou vários anos esquecido numa estante. Na capa vem uma citação do Telegraph: «A wildly funny novel about aristocrats and social climbers». Sempre que reencontro memórias destas, fico melancólico, mas desta vez saiu-me uma inevitável gargalhada.

Como outros deixam os sapatos

Zsa Zsa Gabor é uma grande hedonista e uma grande fraseadora. Gosto especialmente desta declaração: «O movimento feminista não mudou a minha vida sexual. Não teria coragem». Zsa Zsa não está propriamente comentar o movimento feminista; apenas garante que este, apesar de ser um «movimento», não mudou a vida dela. «Não teria coragem», garante, provocadora. É uma individualista consequente, uma pessoa que deixa os «movimentos» à porta de casa como outros deixam os sapatos.

Sobre a minha teimosia

Parece aquele trava-línguas: se o Arcebispo de Constantinopla se quisesse desconstantinoplizar, só se desconstantinoplizaria se Constantinopla se desconstantinoplizasse primeiro. E isso não aconteceu, nem promete.

7/10/2011

Temporada 8

Hu-er-hu-er-hu-er

JEFF: I got you what you need. Everlast condoms, my friend. The best in the business.
LARRY: Really? Oh, thank you.
JEFF: Those babies, you’re never gonna stop
LARRY: Never gonna stop?
JEFF: Never gonna stop.
LARRY: Well, I want a condom called Get It Over With.
JEFF: Not Everlast.
LARRY: Yeah. How long do you think I’d wanna to do that for?
JEFF: I don’t know. All night long, I would guess.
LARRY: It’s boring. Come on.
JEFF: Fucking’s boring?
LARRY: It doesn’t get boring after a while? Hu-er-hu-er-hu-er.
JEFF: No. It doesn’t get boring.
LARRY: It’s a bore. Hu-er-hu-er-hu-er. What is that? That’s enough. In and out.

[Jeff Garlin e Larry David em Curb Your Enthusiasm, temporada 4, episódio 8]

Lixo (2)

7/06/2011

Lixo

Eu avisei que éramos lixo.

Ler no Chiado

Pedro Mexia escreveu um poema sobre um ladrão de livros (é um dos 100 do livro «Menos por Menos»), Aldina Duarte integrou-o no seu «Contos de Fados». O novo livro-disco de Aldina e a colectânea de poesia de Mexia são o ponto de partida para a conversa no próximo Ler no Chiado. No dia 7 de Julho, às 18.30, na Bertrand do Chiado. Uma iniciativa da revista Ler e da Bertrand, com moderação de Anabela Mota Ribeiro.

A inscrição da nostalgia


















Não sou grande adepto da pintura enquanto simples inscrição. Detesto Miró, por exemplo, que acho mais paleontologia do que arte. Porém, gosto de Cy Twombly (1928-2011), cujas telas são tantas vezes inscrições, manchas, rasuras. Geralmente comparavam o que ele fazia ao grafito, mas Twombly explicou que preferia a nostalgia ao protesto. Uma nostalgia construída com base em alusões clássicas e exultações cromáticas. Alguns desses signos herméticos supõem um certo infantilismo ou primitivismo; mas é um primitivismo mergulhado em memória histórica, um primitivismo mediterrânico, mito-poético; e o infantilismo parece genuinamente visceral, é a caligrafia ou a pincelada enquanto gesto e experiência (como em Pollock). A pintura de Cy Twombly tende para o abstracto mas mantém vestígios do concreto, não ilustra, não refere, e no entanto tem quase sempre pontos de referência, geográficos ou literários, é desse referente que o artista parte, juntando imagens e textos, ou fragmentos de textos e hipóteses de imagens, chega a um sentido mesmo sem transmitir directamente o sentido.

7/05/2011

Demasiado tarde


















High Windows (1974) revela alguma nostalgia face à ideia de comunidade, nem que seja a comunidade estival ou a infantil. Há mesmo sinais de empatia humana (uma característica nada larkiniana), e uma visão quase pacificada das pessoas comuns que fazem a sua vida comum. Talvez porque Larkin sente que essa «vida comum» está ameaçada. Para ele, a Inglaterra tinha entrado em acentuada decadência civilizacional, era agora uma paisagem degradada, de «cimento e pneus». Uma certa mitologia de comunidade estava em perda com o fim do Império. E o sentido de comunidade desfez-se com a revolução cultural dos anos sessenta e setenta, que acentuou o fosso entre a juventude e os mais velhos. Larkin nunca foi propriamente novo, sempre esteve muito atento à passagem do tempo, às calamidades da velhice, ao envelhecimento precoce, e agora é dos jovens que se sente distante, dos jovens de «1963», ano do primeiro álbum dos Beatles e da descriminalização de Chatterley. Para ele é tarde, demasiado tarde, mostra-se sarcástico com as novas liberdades wilsonianas, e especialmente amargo com a liberdade sexual. Nem filhos tem, «they fuck you up, your mum and dad», e por isso os jovens apenas confirmam que ele está velho, ultrapassado, extinto. Nos poemas, Larkin tenta suportar o tédio em sociedade ou em isolamento, mas fica sempre longe de qualquer horizonte de comunidade ou de felicidade. A vida dos outros é a vida dos outros, inacessível, uma vida que ele espia, inveja, despreza, desconhece. Para ele e os da sua laia só restam «the end of choice, the last of hope».

Cara ilusão

Descubro nas Complete Stories de Kigsley Amis um conto agudíssimo chamado «Dear Illusion». O protagonista é Edward Arthur Potter, um poeta consagrado mas pouco lido que vive em reclusão, na província. À jornalista que o vai entrevistar ele mostra-se bem consciente dos equívocos a que chamamos «consagração», «modernidade», «esquecimento» e «sucesso». Em resumo: Potter duvida da qualidade dos seus poemas. E isso não é uma angústia banal. Há quarenta anos, ele abdicou da vida por causa da poesia, sentia uma necessidade absoluta de escrever e de esquecer tudo o mais, só a poesia dava algum sentido à vida, ainda que fosse um sentido precário e amargo: «It’s a bad bargain even if the poems are good. Whatever that may mean. From my point of view, nothing at all could compensate for getting on for forty years of feeling bad with a couple of days of not feeling so bad and ten minutes of feeling all right thrown in about once a month». Potter trabalhou nos seus poemas anos e anos, enquanto as outras pessoas, as pessoas normais, faziam coisas reais e concretas. Mas se a sua poesia não presta, então a sua existência é um logro.

Inquieto com o que confessou na entrevista, Potter decide testar as suas suspeitas de uma vez por todas. Assim, uns tempos depois, anuncia à imprensa que escreveu uma nova colectânea, com a qual dá por terminada a sua produção poética. O livro é publicado e recebe elogios quase unânimes. Mas Potter revela que escreveu todos esses poemas num único dia, de jacto, sem revisão nem trabalho algum, e com resultados catastróficos. O livro foi aclamado porque as pessoas acham ou imaginam que ele é um «bom poeta», mesmo quando os poemas são maus, e se forem maus não faz diferença nenhuma. O bom poeta, percebe Potter, é aquele que escreve maus poemas e continua a ser considerado um bom poeta.

Para Edward Arthur Porter, o sucesso daqueles maus poemas é a prova de que precisava, a confirmação de que viveu em vão, e de que toda a ilusão se desfaz.

Amis and Son


















Na sua autobiografia, Christopher Hitchens conta que na década de 1970 Martin Amis lhe sublinhava a lápis os artigos, questionando o inglês duvidoso. No prefácio à reedição de The King’s English, Martin Amis conta que na década de 1970 o pai, Kingsley Amis, lhe sublinhava a lápis os artigos, questionando o inglês duvidoso.

Chamava-se Lily

Alexandra Wells, namorada de Martin Amis por alturas de 1970, tem explicado em várias entrevistas que Amis se inspirou nela para criar uma das personagens femininas de The Pregnant Widow (2010). Trata-se de Lily, a namorada do protagonista, rapariga não especialmente atraente e um pouco entediante. Alexandra diz que não ficou nada incomodada com o retrato desfavorável, e enviou um e-mail a Amis para o tranquilizar. Ele, ao que parece, ficou aliviado. Mas tudo isto, que humanamente é compreensível e estimável, não devia ser do domínio público. Do domínio público é o romance. E para o romance, é irrelevante que Lily se inspire em Alexandra Wells ou em qualquer outra pessoa. O facto de Alexandra ter vindo a público anunciar que Lily «é» ela revela algum desportivismo, mas também demonstra que Alexandra tem uma concepção um pouco entediante do que é a literatura.

7/04/2011

Uma ilha não é um homem

O recente triunfo eleitoral do Partido Nacional Escocês deixou a Escócia mais perto da independência. O Partido Conservador inglês tem agora uma escolha curiosa a fazer. Se pactuar com a independência da Escócia, o Partido Conservador torna-se responsável pela destruição da unidade nacional. Mas se a Escócia abandonar o Reino Unido, os Conservadores podem manter-se no poder durante décadas, visto que só não ganham mais eleições por causa dos maus resultados em terras escocesas. Nunca o dilema entre os princípios e as vantagens foi tão claro. Que fazer? Eu deixaria ir a Escócia, aliás já deixei, mas uma ilha não é um homem.

Fora do mundo

Na entrevista que deu ao Expresso, Vasco Pulido Valente comenta o facto de viver «fora do mundo», como tanta gente o acusa. Num certo sentido, explica, esteve sempre isolado, pois nunca foi católico nem marxista, as grandes mundividências da sua geração. Mas o envelhecimento, o negativismo, a morte de alguns amigos, tudo isso agravou esse distanciamento. E se não fosse a disciplina da coluna trissemanal nem sequer prestava atenção ao mundo. A entrevista, melancólica, acentua muito essa ideia: algumas «figuras públicas» não são exactamente «públicas», e podemos olhar para o que escrevem não como chave da realidade mas como sombras de um teatro privado.

7/02/2011

Muito obrigado












JIM: So I really loved your novel. Dark, funny, perverted, beautiful. You must really suffer from the terrifying clarity of your vision.

JONATHAN: Thank you. I do suffer. Thank you.

[Jim Jarmusch e Jason Schwartzman em Bored to Death, 1/3]

A morte dos antigos

Faz cinquenta anos que Hemingway se matou. Quando eu acreditava que o suicídio era «a mais importante questão filosófica», o tiro na boca de Hemingway representava para mim a morte «romana», a morte dos antigos, mas também a de Mishima ou Montherlant, mortes aristocráticas, teóricas, motivadas, e por isso quase incompreensíveis, por oposição à morte «fragilizada» de Kleist, de Pavese, dos poetas confessionais americanos. Era a morte da força extinta, da honra, da recusa da decadência, uma morte «adulta», que não me dizia nada, ao contrário daquelas desesperadas despedidas adolescentes, o pacto de Kleist, os comprimidos de Pavese, o atropelamento do pobre e fugitivo Jarrell.

É uma opinião

Certa noite, o crítico teatral James Agate adormeceu durante um espectáculo sobre o qual ia escrever; no fim da representação, o dramaturgo protestou, dizendo que a sua peça tinha direito a uma opinião. Agate respondeu: «Young man, sleep is an opinion».

Aristos

Uma boa definição de «amigo»: aquele que separa sempre o público e o privado. Curiosamente, é também uma boa definição de «aristocrata».

Estrebaria

Gente que vê tudo como uma corrida de cavalos. Gente da estrebaria.

A impaciência é a minha ética

Na minha vida moral, nunca tomei decisões em tempo real, existe sempre um diferimento da acção. Em especial nos casos em que a acção é uma reacção. Quando sofro um agravo, um ataque, uma desilusão, geralmente fico imperturbável ou vou-me embora, sou estóico ou desistente. Mas não tomo grandes decisões morais de imediato. Só decido alguma coisa quando à desilusão se segue a desvergonha, ao ataque a bazófia, ao agravo o abuso. Só tomo decisões morais quando perco a paciência. A impaciência é a minha ética.

O cinismo enquanto moral

O cinismo é intelectualmente estimulante, confere uma agradável sensação de superioridade e tem um efeito letal como arma de ataque. Enquanto atitude, percebo que seja atraente ou útil. Mas enquanto ética, o cinismo é imprestável. Sobretudo porque não consegue funcionar como a «regra de ouro» cristã ou kantiana: nenhum cínico advoga a reciprocidade do cinismo ou o cinismo feito lei universal. O cínico é obviamente um egoísta, mas é também um cobarde.