8/31/2011

Criado de quarto

Ninguém é um grande homem para o seu criado de quarto, é verdade, e como o meu criado de quarto sou eu, não estranhem a fraca opinião que tenho do meu amo.

Codex Iuris Canonici

Conheço quatro pessoas que estão a tentar que o seu casamento católico seja anulado. Uns estão divorciados, outros recasados civilmente, outros sozinhos, e a intenção não é necessariamente poderem voltar a casar pela Igreja, nem retirarem da anulação efeitos civis que ela nunca tem; o que pretendem é apagar de vez das suas vidas o facto de terem casado com aquela criatura.

O direito matrimonial canónico (essa bizantina latinice) inclui uma série de regras sobre «impedimentos» (consanguinidade, bigamia, votos religiosos) e também uns quantos motivos de «anulação». Mas o processo é moroso e dispendioso, a prova difícil, e o mais certo é o pedido ser indeferido, excepto a membros da aristocracia monegasca.

O casamento nulo não é um divórcio, é apenas uma verificação a posteriori de que não estavam reunidas as condições exigíveis para celebrar um casamento católico válido. Isso acontece se tiver havido coacção, erro na identidade dos nubentes, reserva mental (quanto à fidelidade ou à procriação), «incapacidade psicológica de cumprir as obrigações do casamento» (uma cláusula vaga) e, notem bem, aquilo a que normalmente se chama «imaturidade», ou seja, ausência de «uma compreensão básica» do que é o casamento e de uma «ponderação acerca da decisão de casar». Compreensivelmente, os tribunais eclesiásticos têm tido um entendimento bastante restritivo deste último artigo, sob pena de todos os casamentos estarem em risco.

Existe por fim um casamento que é nulo por definição: o casamento «não-consumado», aquele em que não chegou a haver penetração, coito, débito conjugal, truca-truca; mas como não há virgens no Ocidente desde 1963, tal nulidade deixou de ser possível de provar anatomicamente, e fica sujeita a um inquérito falível e embaraçoso.

Nunca conheci um divórcio que me parecesse estapafúrdio, em geral é mesmo a solução ideal para um casamento degradado. Mas a anulação do casamento católico parece-me algo nebulosa. Para além da horrenda jurisdicionalização de um sacramento, há na ideia de anulação um predomínio do «apagamento» psicológico sobre a «nulidade» jurídica. E um padre não é um terapeuta. Mas claro que cada um sabe de si, e entre ex-marido e ex-mulher que ninguém meta a colher.

Chesterfield


















Numa das célebres cartas ao seu filho, Lord Chesterfield escreveu acerca do sexo: «o prazer é momentâneo, a posição ridícula e o preço a pagar incomportável».

8/29/2011

O conforto intelectual

O livro mais ousado e divertido que li nos últimos tempos foi um ensaio de Marcel Aymé chamado Le Confort intellectuel (1949). Aymé é o protótipo do «anarquista de direita», refractário e desalinhado. Acusado de conivência com o colaboracionismo, passou por algumas dificuldades depois de 1945. Uma vez «reabilitado», recusou a Legião de Honra que lhe outorgaram e convite para que se candidatasse à Academia Francesa. Aymé interrompeu a sua extensa obra romanesca para redigir Le Confort, panfleto em forma de diálogo com um tal senhor Lepage, erudito reaccionário com uma opinião muito negativa de literatura francesa do romantismo para cá. Lepage, alter-ego de Aymé, diz que a ascensão da burguesia, em 1789, com as revoluções esquerdistas ou liberais, e depois, no pós-II Guerra, inquinou a literatura francesa com tiques e poses, do satanismo ao existencialismo, passando pelo esteticismo finissecular e pelo surrealismo. Tudo, segundo ele, nasceu de um mesmo «vírus» romântico, manifestação de uma sensibilidade burguesa desregrada, de uma língua que abandonou o rigor clássico, de um culto histérico da personalidade, e de um conformismo estético e político. Para Aymé, a literatura contemporânea, à custa de se apresentar como «transgressora» acabou por se tornar comodista. Não acompanho a maioria das ideias de Aymé, nomeadamente a sua estapafúrdia hostilidade a Baudelaire, mas gosto deste Le Confort intellectuel, um livro valente e veemente, que lembra, em patusco, o brilhante La Littérature à l’estomac, de Julien Gracq, publicado um ano mais tarde.

8/28/2011

Os meus nazis

Às vezes penso que se deviam conhecer ou ter conhecido, iam dar-se bem. De todo o mal, este mal foi o único importante, o único que me assombra, que não se desfaz. Um amigo, aos vinte, e uma mulher que amei, aos trinta e poucos. Se se conhecessem, iam dar-se bem. São, cada um a sua maneira, nietzschianos, ambos têm ou tinham um total desprezo pelos fracos, apesar da educação católica. Talvez não houvesse neles uma intenção malévola, eram simplesmente incapazes de não tratar com impiedade alguém que sabiam fraco ou fragilizado. Não eram maus, era apenas a sua natureza, como diz o escorpião quando ferra o sapo. Inteligentes, ambiciosos, cínicos, infelizes, gostavam da competição, da arrogância, da agressão. Em ambos os casos, alimentavam um vago trauma social, não exactamente classista, eram «de fora» e sentiam-se superiores aos «de dentro», nada lhes dava mais gozo do que uma frase perspicaz e cruel sobre quem estava «dentro» e não o merecia. Nunca percebi por que me deixaram entrar na vida deles, custa-me acreditar que fosse desde o início um joguete, suponho que reconheciam em mim alguma qualidade, não sei qual, qualidade obviamente desperdiçada numa pessoa fraca. Gostavam de mostrar o seu ascendente sobre mim, através de pequenas humilhações, num caso, ou de um teatro permanente, no outro. Eu era um fraco «de qualidade», digamos assim, tinha talvez algo que eles queriam, não sei bem o quê, e sempre aceitei a superioridade deles, o que naturalmente lhes agradava mas não era suficiente. Julguei que a «amizade» e aquela outra palavra contrariassem a natureza deles, ou o fizessem no futuro. Quis ter esperança, impedir o inevitável. Quando chegou o momento, nenhum deles hesitou um segundo, um forte não pode hesitar perante um fraco senão perde as suas capacidades, como um Sansão de cabeça tosquiada, e eles fizeram de conta que não tinha havido uma escolha, achavam que a verdade era apenas uma questão de perspectiva, acreditavam que a moralidade é aplicável apenas aos carneiros, e não percebiam como é que um fraco não aceita que os fortes prevalecem porque é seu direito e destino. Antes e depois, quem me quis fez mal foi gentinha sem importância, e o mal passou logo, mas os meus nietzschianos nunca se hão-de apagar da memória, vão comigo para a cova, o que sou deve muito ao que eles foram comigo, criaturas que desprezavam os fracos e que nos fracos não distinguiam amigos e inimigos, é tudo a mesma raça maldita, exterminável, não eram apenas teóricos estes dois, acreditavam na prática acima de tudo, na acção, porque a acção é o contrario da fraqueza, iam dar-se bem se conhecessem, não são pessoas más, é apenas a sua natureza, gente forte que despreza gente fraca, eu não fui excepção, e quando chegou o momento a vontade deles triunfou sobre a minha esperança, e eu acabei, e depois eles para mim, os meus amigos, os meus nazis.

À segunda vista

Outro dia chamaram-me «um triunfador». Ou antes: que «à primeira vista» sou «um triunfador». A expressão contém os elementos da sua falácia. Um «triunfo» detectado «à primeira vista» pode ser uma tremenda ilusão de óptica, uma crença baseada apenas em indícios visíveis. É verdade que exteriormente a vida me corre bastante bem, mas também é verdade que interiormente a minha vida se revelou um enorme fracasso. Talvez eu seja isso afinal: um fracassado à segunda vista.

A ética da autenticidade

O discurso apocalíptico cansa, até pela sua inexactidão. Não é inteiramente verdade que o «relativismo» tenha triunfado. E não é de todo verdade que o «niilismo» tenha triunfado. Mesmo um pessimista cultural tem de criticar esses exageros. Claro que o «ethos» do individualismo é uma ameaça aos «valores comuns» e aos «laços sociais»; mas o «ethos» colectivo, bem ou mal, tem-se reinventado nos últimos tempos, através, por exemplo, da tecnologia. Já chamar «autenticidade» ao impulso individualista parece-me discutível. O «eu» reivindicado por cada pessoa tanto pode ser autêntico como mimético, ou epocal, ou perverso, ou de pechisbeque. Não é a autenticidade que importa, mas a auto-determinação. A «escolha» pode talvez fundar uma ética. Mas a «autenticidade», enquanto ética, vale zero.

[a propósito de The Ethics of Authenticity (1992), de Charles Taylor]

8/27/2011

Virar costas


















Virar costas não adianta; o mundo continua, e chama.

8/26/2011

Guerra quase fria

He lay on a cot
He was drenched in a sweat
He was mute and staring
But feeling the thing
He had not

(...)

And she lay on her back
She made sure she was hid
She was mute and staring
Not feeling the thing
That she did


[Suzanne Vega, «Men in a War», álbum Days of Open Hand, 1990]

Caixa de espelhos















«Men in a war / if they lost a limb / still feel that limb / as they did before», lembrei-me da canção da Vega sobre o «phantom limb», essa sensação de que ainda se tem um membro que no entanto foi amputado. É como se o cérebro não soubesse que o braço ou a perna já lá não estão, e ainda registasse sensações, sensações obviamente imaginárias, mas às vezes incomodativas. Um dos métodos para curar o «membro fantasma» é a «mirror box», uma caixa com dois espelhos virados um para o outro. Sendo a paralisia do membro ausente uma das sensações mais frequentes em casos de «phantom limb», a caixa de espelhos supera essa paralisia enganando o cérebro. O amputado põe o braço numa mesa, à frente da caixa, e coloca a caixa no lugar onde devia estar o outro braço; desse modo, quando o braço se mexe, mexe-se também a sua imagem no espelho, e é como se o braço amputado voltasse à vida. E a sensação dolorosa passa. Eu estou a tentar, a sério que estou, mas não funciona.

A Áustria e a Hungria

Otão de Habsburgo (1922-2011) viu que estava a dar futebol na televisão e perguntou quem jogava. «A Áustria e a Hungria», responderam. E ele perguntou: «Contra quem?».

No meio


















Marina Abramovic e UIay fizeram uma performance em 1977 chamada «Imponderabilia», que consistia no casal nu, encostado à soleira da porta, e na passagem dos visitantes pelo meio do casal. Mas isto é mais difícil do que parece. É incómodo, embaraçoso, as pessoas não acham a experiência divertida mas quase solene, a distância interpessoal demasiado desrespeitada, um contacto mais abusivo do que sexual, uma experiência que nem se quer observar mas apenas despachar, não é bom estar no meio de um casal, não é bom.

Trincheiras

Estava convencido de que Edward Thomas tinha morrido com um tiro, como outro grande poeta inglês das trincheiras, Wilfred Owen. Mas li há dias que Thomas não morreu baleado, embora tenha de facto falecido na Batalha de Arras (1917). A bala fatal não chegou a atingi-lo, mas passou tão perto que a sua deslocação criou um vácuo, e foi esse vácuo que fez com que o coração de Thomas parasse de repente e não se reanimasse. E chega de falar de mim.

Cavamento

A época estival ressentiu-se de um «cavamento de uma depressão na região do Golfo de Cádis associado à aproximação de um vale em altitude», pelo que quase não houve bom tempo. As notícias internacionais também foram sisudas. Um terrorista ariano cometeu um massacre no país mais civilizado do mundo. Em Londres e outras cidades inglesas, uma «multitude» hooliganesca saiu à rua para homenagear o romance A Clockwork Orange. Na Líbia, o perpétuo e demente coronel Khadafi caiu até que enfim, escorraçado pelo povo líbio e pelas bombas do Rui Tavares.

Agosto deu guarida a alguns escândalos sexuais ou conjugais. Dominique Strauss-Kahn livrou-se de um processo de violação, mas foi definido como «um macaco com cio» pelas testemunhas de defesa. Na Alemanha, um promissor dirigente da CDU, de quarenta anos, teve que se demitir quando se soube que cometeu actos democratas-cristãos com uma namorada de dezasseis. E a mulher do presidente da Guatemala divorciou-se amigavelmente do presidente da Guatemala para assim poder candidatar-se a presidente da Guatemala, ambição vetada pelo supremo tribunal, lá está, da Guatemala.

Algumas palermices respigadas na imprensa insistiam também em temas genitais ou correlatos. Enrique Iglesias confessou que dormiu com milhares de mulheres mas que tem um pénis extremamente pequeno. Gérard Depardieu mijou de pé, e à vista de todos, a bordo dum avião. E no Facebook a página «Pippa Middleton Ass Appreciation Society» congrega agora duzentos e cinquenta mil adeptos.

Finalmente, a frase do trimestre, dita pela taróloga Maya ao jornal i: «Ser filha de um padeiro trouxe-me um certo deslumbramento pela noite».

O Lei Seca está de volta.

Linguagem



HUGH LAURIE: So let's talk instead about flexibility of language - um, linguistic elasticity, if you'd like.

STEPHEN FRY: Yes, I think that I've said earlier that our language, English -

LAURIE: As spoken by us.

FRY: As we speak it, yes, certainly, defines us. We are defined by our language, if you will.

LAURIE: [to screen] Hello. We're talking about language.

FRY: Perhaps I can illustrate my point. Let me at least try. Here is a question: um...

LAURIE: What is it?

FRY: Oh! Um... my question is this: is our language - English - capable... is English capable of sustaining demagoguery?

LAURIE: Demagoguery?

FRY: Demagoguery.

LAURIE: And by "demagoguery" you mean...

FRY: By "demagoguery" I mean demagoguery...

LAURIE: I thought so.

FRY: I mean highly-charged oratory, persuasive whipping-up rhetoric. Listen to me, listen to me. If Hitler had been British, would we, under similar circumstances, have been moved, charged up, fired up by his inflammatory speeches, or would we simply have laughed? Is English too ironic to sustain Hitlerian styles? Would his language simply have rung false in our ears?


LAURIE: [to screen] We're talking about things ringing false in our ears.

FRY: May I compartmentalize - I hate to, but may I, may I: is our language a function of our British cynicism, tolerance, resistance to false emotion, humour, and so on, or do those qualities come extrinsically - extrinsically - from the language itself? It's a chicken and egg problem.

LAURIE: [to screen] We're talking about chickens, we're talking about eggs.

FRY: Um... let me start a leveret here: there's language and there's speech. Um, there's chess and there's a game of chess. Mark the difference for me. Mark it please.

LAURIE: [to screen] We've moved on to chess.

FRY: Imagine a piano keyboard, eh, 88 keys, only 88 and yet, and yet, hundreds of new melodies, new tunes, new harmonies are being composed upon hundreds of different keyboards every day in Dorset alone. Our language, tiger, our language: hundreds of thousands of available words, frillions of legitimate new ideas, so that I can say the following sentence and be utterly sure that nobody has ever said it before in the history of human communication: "Hold the newsreader's nose squarely, waiter, or friendly milk will countermand my trousers." Perfectly ordinary words, but never before put in that precise order. A unique child delivered of a unique mother.

LAURIE: [to screen] ...

FRY: And yet, oh, and yet, we, all of us, spend all our days saying to each other the same things time after weary time: "I love you," "Don't go in there," "Get out," "You have no right to say that," "Stop it," "Why should I," "That hurt," "Help," "Marjorie is dead." Hmm? Surely, it's a thought to take out for cream tea on a rainy Sunday afternoon.

LAURIE: So, to you, language is more than just a means of communication?

FRY: Oh, of course it is, of course it is, of course it is, of course it is. Language is my mother, my father, my husband, my brother, my sister, my whore, my mistress, my check-out girl... language is a complimentary moist lemon-scented cleansing square or handy freshen-up wipette. Language is the breath of God. Language is the dew on a fresh apple, it's the soft rain of dust that falls into a shaft of morning light as you pluck from a old bookshelf a half-forgotten book of erotic memoirs. Language is the creak on a stair, it's a spluttering match held to a frosted pane, it's a half-remembered childhood birthday party, it's the warm, wet, trusting touch of a leaking nappy, the hulk of a charred Panzer, the underside of a granite boulder, the first downy growth on the upper lip of a Mediterranean girl. It's cobwebs long since overrun by an old Wellington boot.

LAURIE: [to screen] Night-night.


[A Bit of Fry and Laurie, série 1, episódio 3, 1989]

8/22/2011

O Verão árabe