11/30/2011

My own private Stalin


















Eu sou o meu próprio Estaline. Ainda não me enviei para nenhum Gulag, mas não há nada que goste mais de fazer do que apagar-me das fotografias. Os outros podem ficar, não sou o Estaline deles. Não quero falsificar o passado, nem castigar ninguém, desaparecer chega-me, sem fazer barulho, um grande massacre com uma única vítima.

Gogol

 

















JOEL: Hey.
SUE: Hey.
JOEL: I bought you this. It’s one of my favorite authors, Gogol. Russian. He lost his mind, burned the only copy of his final book and died a week later of self-starvation.
SUE: Well… Thank you.
JOEL: Yeah…

[Adventureland, 2009, escrito e realizado por Greg Mottola]

Um indivíduo pouco perigoso

Contrairement au réactionnaire, le conservateur n'aura ainsi ni héros ni martyrs ; s'il ne sauve personne, il ne fera, non plus, aucune victime ; il n'aura, en résumé, rien de particulièrement héroïque ; mais il sera, c'est un de ses charmes, un individu très peu dangereux. 

[Michel Houellebecq]

Um daqueles alemães

Anotei no meu caderno uma extraordinária definição filosófica de «amor»: é aquilo que confere «uma justificação universal à vida». Infelizmente, não anotei o autor, e temo que seja um daqueles alemães que nunca amaram ninguém.

Código Penal













A irmã de Kate Moss, Lottie Moss, de 13 anos, já cobiçada pela «indústria da moda», à qual, pelos vistos, não se aplica Código Penal.

11/28/2011

A religião emudece

Uma tia-avó, católica como todos os seus, encosta a familia à parede: nonagenária, diz que não quer mais viver. A religião dá-nos algumas respostas, ou julgamos que sim, mas a religião emudece quando alguém diz esta simples frase: não quero mais viver.

Um deus escondido

Na correspondencia, Freud acusa Jung de estar a abrir as portas a uma «onda negra de lama», ou seja, à religião. Na autobiografía, Jung diz que a sexualidade também pode ser uma religião: um «deus absconditus».

O último Papa

















































Na colectânea de ficções Il libro nero (1952), Giovanni Papini incluiu uma história chamada «A conversão do Papa». É a biografia de um homem, filho de um herético executado pela Inquisição, que vai para um convento, torna-se frade virtuoso e afamado, depois bispo e enfim cardeal. Até que um dia é eleito Papa. Decide então vingar-se da morte do pai. Ateu convicto, fingiu que acreditava durante anos, mas agora vai poder aparecer à varanda do Vaticano e anunciar aos fiéis que Deus não existe. Só que ele vacila quando vê o povo na Praça. O povo acredita, espera, necessita de alento e consolo. E o Papa ateu converte-se. À fé, talvez, ou pelo menos ao catolicismo. E agradece, comovido, à multidão dos crentes. Na peça de teatro «Elle» (1955), Jean Genet imagina um Papa que posa para uma sessão fotográfica e que está convencido de que um Papa é mais uma imagem do que outra coisa, um ícone que representa uma ilusão. É um Papa inseguro, farsesco, hipócrita, poético, desabrido. Mas que importa a pessoa do Papa, o que conta é o cargo. Quem manda é o símbolo, a imagem, a fotografia. Ver é crer, mesmo que não se creia em nada. No conto «The Last Word» (1988), Graham Greene descreve a situação do «último Papa», num futuro em que o cristianismo foi erradicado, dominado por um despotismo mundial ateu. O único cristão que sobrou foi justamente o último Papa eleito, que entretanto se fez um velho amnésico e demente. Ainda assim, o General pede-lhe que se suicide, porque enquanto houver um cristão vivo, um só, existe perigo. E mesmo com todos mortos, é perigoso que nem fique sequer a inquietação religiosa. Não sei se Nanni Moretti conhece alguns destes textos. Em todo o caso, Habemus Papam (2011) não tem a intenção apologética de Papini e Greene nem se dedica ao escárnio como Genet; Moretti é agnóstico ou ateu mas não sentiu necessidade de atacar a Igreja, o desporto oficial da burguesia actual. Na verdade, Habemus Papam escolhe o Papa como figura que representa uma angústia e uma recusa. O Papa é em geral um homem idoso, não se candidata, e pode pasar de incógnito a mundialmente conhecido. Além disso, o Papa é «infalível», e Moretti quer mostrar um homem falível. Velho, cândido, doce, frágil, amedrontado, o Cardeal Melville (Michel Piccoli) gostava de ter sido actor, mas ser Papa não lhe serve, o Papa é um actor que deixa de ser uma pessoa, isto é, que tem de abdicar da sua individualidade para encarnar toda uma Igreja. A representação e o espectáculo vaticanos assustam Melville. No Conclave, ele partilha do mesmo sentimento de «non sum dignus» dos outros cardeais, mas é mais atormentado do que eles, e por isso não quer aceitar a eleição mesmo depois de ser escolhido, ou pelo menos não aceita tomar posse, aparecer em público enquanto Papa, ser reconhecido como tal. Quando o psicanalista interpretado por Moretti vem «analisar» o Papa, é-nos dito logo que «a alma» e «o inconsciente» são incompatíveis, e a tentativa de deitar o Vaticano no divã morre à nascença. Mas é verdade que aquele indivíduo chamado Melville precisa de ajuda. Ele chegou quase ao fim da vida sem confiança, nem serenidade, nem satisfação. Não é por acaso que quando foge do Vaticano vai assistir a uma peça de Tchekhov, o poeta da vida fracassada. A angústia individual de Melville não permite que ele se dissolva pacificamente num colectivo, e ele não abdica do seu eu em favor do seu múnus. Filmando a dúvida do cardeal, filma também um homem que recusa o poder, uma ave rara nos dias que correm. Melville escolhe o egoísmo do falhado em vez da glória do reprimido. E isso é assustador e poético ao mesmo tempo. Além do mais, para um crente, conceber um Papa que recusa o cargo porque não está à altura, não é uma heresia: nestes tempos de crise chega a ser uma evidência.

11/27/2011

Please please please


















Editado, mas que bem, no meu aniversário.

Um em três

«Morrissey worship incites antisocial obsessions, insomniac eBay skulking, and impassionate conversation nonstarters about the irony of Mozzer's perceived miserablism», escreve a Pitchfork. Eu nunca comprei nada no eBay, e nunca discuti com os meus amigos se o miserabilismo é irónico (o dele). Em contrapartida, sou bastante dado a «obsessões anti-sociais». Um em três não é mau.

Genuíno

















Numa crítica ao EP Colin Meloy Sings Morrissey (2005) a Pitchfork escreveu que o vocalista dos The Decemberists falhou onde todos falham; as covers de Morrissey estão condenadas ao fracasso porque o velho Mozzer é demasiado idiossincrático. As versões são de tal modo versões que perdem a genuinidade, e «genuíno» é coisa que o mancuniano sempre quis ser. Dito isto, uma canção de «crítica social» como «The Headmaster Ritual» ou um lamento quase etéreo como «Last Night I Dreamt» podem ter boas releituras: ouçam os Radiohead e os Low.

11/25/2011

Um método perigoso
















(...) Mas alguma coisa correu mal. A análise cria uma grande proximidade emocional entre analista e paciente, e há um pacto que não pode ser quebrado. No movimento chamado de “transferência” é preciso que tudo se mantenha no plano simbólico, e que ambas as partes tenham noção desse estatuto. Mas o pacto analítico falhou, forçosamente por culpa de Jung, sobre quem recaíam as obrigações deontológicas. Sabina estava dependente, Jung ouvia-a, compreendia-a, demonstrava ternura. Por isso ela idealizou-o, fez dele um deus. Essa desigualdade devia ser mantida, como um dique. Só que Jung deixou-se ir, expôs a sua fragilidade, as suas carências emocionais, os seus desejos sexuais reprimidos, e de repente tornou-se igual a ela, dependente dela como ela dele. Estavam ambos no mesmo plano, e a relação passou de instrumental a verdadeira, com sentimentos “autênticos”. Tornaram-se amantes. “Agora sou eu quem está doente”, confessou Jung. (...)

[amanhã, no Expresso]

Cubista

(…) não tenho mau feitio nenhum, a menos que seja mesmo necessário. Em 1983, um jornalista foi entrevistar-me e perguntou-me se eu tinha entrado numa fase cubista e eu disse-lhe «vai para o caralho».

 [Eduardo Batarda, em entrevista ao Público]

11/24/2011

Epílogo

Essas veneráveis estruturas, o enredo e a rima, 
 por que me são tão inúteis agora 
que quero fazer 
uma coisa imaginada, e não recordada? 
Ouço o ruído da minha própria voz: 
A visão do pintor não é uma lente,
treme ao acariciar a luz.
Mas às vezes tudo o que escrevo
com a arte gasta dos meus olhos
parece um instantâneo,
chocante, apressado, berrante, estreito,
elevado face à vida
mas paralisado pelos factos.
Tudo é desconforme.
Mas porque não dizer o que aconteceu?
Pede a graça da exactidão
que Vermeer deu à iluminação do sol
espraiado como uma maré num mapa
sobre a sua rapariga concreta e ansiosa.
Somos pobres factos passageiros
e isso avisa-nos para que demos
a cada figura nas fotografias
o seu nome vivo. 

[«Epilogue», de Robert Lowell, versão PM]

Numa gaveta

Quinquenal

Fiz um plano quinquenal. Os quinquenais não são grande inspiração, mas há cinco anos precisei de um plano que não fosse de curto prazo, e portanto inútil, nem vitalício, e por isso impossível. Cumpri escrupulosamente o plano quinquenal, talvez porque me impus rigores estalinistas. O plano, reconheço, parece modesto visto de fora, mas visto de dentro era colossal. Reconheço também que sofreu um pequeno desvio, mas ninguém pode dizer que tive culpa, além de que foi um desvio tão mas tão benigno. Enfim, cinco anos depois, está cumprido. Não me tornei nenhuma potência mundial mas evitei ser riscado do mapa. Peço desculpa se isso perturba os planos de alguém.

Propaganda

Conheço muita gente que me parece o exacto oposto da sua imagem pública: intelectuais analfabetos, queques grosseiras, devotos venais, esquerdistas impiedosos, optimistas deprimidos, voluntaristas débeis e sisudos de opereta. Têm tanto jeito para a propaganda.

Boas intenções

O inferno está cheio de «intenções», faz sentido, mas não de «boas intenções», as boas intenções são boas mesmo quando as acções são más, tal como as boas acções são boas mesmo se feitas com má intenção. Aquilo a que chamamos «boas intenções» são talvez intenções piedosas, educadas, vagas, esperançosas, hipócritas, desajeitadas, sentimentais, tudo isso, mas nunca chegam a ser verdadeiramente «boas». Uma boa intenção, uma só, apagaria o fogo do inferno.

25














Rachel Roberts, a sra. Niccol, que nasceu em 1978 mas parece ter uns 25.

Tempo não é dinheiro

Percebe-se porque é que Slavoj Žižek gosta tanto de ilustrar complicadas teses hegelianas e lacanianas com cinema de Hollywood. Sem Tempo, de Andrew Niccol, é um bom exemplo das potencialidades teóricas de algum entretenimento. Com excepção de Gattaca, todos os filmes escritos ou dirigidos por Niccol (A Vida em Directo, Simone, Terminal de Aeroporto, O Senhor da Guerra) são boas ideias desperdiçadas, e este não foge à regra, à conta de acção a mais e especulação a menos.

É que a ideia aqui parece mesmo óptima: construir uma ficção distópica em que o conceito de «tempo» substitui o conceito de «dinheiro». Em Sem Tempo, as pessoas vivem numa sociedade que conseguiu um avanço genético não-explicado que lhes permite durar por períodos de tempo longuíssimos, embora nunca envelheçam fisicamente para além dos 25 anos. Tudo aquilo que na civilização tal como a conhecemos diz respeito ao dinheiro é neste mundo aplicado ao tempo, visto que as pessoas, chegadas aos vinte e cinco, vivem anos extra através de reservas de tempo, que têm que acumular, caso contrário morrem. O tempo, tal como o dinheiro no nosso mundo, é matéria de vencimento, preço, jogo, empréstimo e assalto. E, tal como o dinheiro, está mal distribuído: «da má distribuição da riqueza e das coisas boas da Terra todos sem excepção têm a máxima culpa», como diz o poema. As grandes clivagens naquela sociedade são entre classes de pessoas que têm tempo e outras que não têm, e que vivem em «zonas de tempo» diferentes. É um «darwinismo» capitalista, diz-se a certa altura, como se houvesse capitalismo não-darwiniano.

No filme de Niccol, quem armazenou bastante tempo é atraente, tem olho azul e nunca passa exteriormente dos 25, ainda que tenha vivido muito mais (e assim temos Olivia Wilde a fazer de mãe de Justin Timberlake). Não se pode dizer que eles tenham «a cara que merecem», que é supostamente a cara dos 30, mas têm o aspecto que compraram, não com dinheiro mas com tempo. O tempo é uma moeda paradoxal, porque se pode trocar por tempo. Uma prostituta faz mesmo o seguinte convite: «ten minutes for an hour».

O problema em tudo isto, além das correrias e dos carros espatifados, está no facto de Niccol não querer que o tempo seja tempo, mas sim dinheiro. O truque não se aguenta. Se o tempo fosse apenas tempo, podíamos pensar seriamente acerca dessa distopia a que de facto chegámos hoje, e que faz com que ter mais de 25 anos passe por «velhice» nalguns quadrantes; ou podíamos dizer que o cinema de massas vive precisamente nesse mundo em que toda a gente tem olhos azuis grandes e 25 anos; mas como Niccol quer que «tempo» signifique «dinheiro», entramos numa dimensão de «estado do mundo», estada da crise. É um beco sem saída.

Niccol lembra-me aqueles progressistas pacatos e conformistas que nos últimos três anos deram em papaguear Proudhon por dá cá aquela palha, a propriedade é um roubo e tal, ou acabe-se com o dinheiro, etc, é estranho terem estado tão caladinhos quando o socialismo despesista esbanjava à grande, cúmplice objectivo do liberalismo ganancioso. As injustiças geradas pelo dinheiro não começaram com a crise, olhem que os marxistas sempre o disseram, mas estes neófitos anti-dinheiro metem dó.

Niccol quer desmontar «o sistema» assimilando o tempo e o dinheiro, mas «dinheiro» e «tempo» são questões ontológicas diferentes, e incomunicáveis; o estatuto do dinheiro é matéria política, enquanto o tempo é um enigma filosófico. Há sociedades que resolvem de modo mais ou menos razoável a questão da distribuição do dinheiro, mas nenhuma sociedade resolveu a questão do tempo, que é fatalmente finito, e que não tem solução. Tempo não é dinheiro. Embora louve a ambição de Niccol, parece-me que a confusão de conceitos torna a filme politicamente ingénuo e filosoficamente pueril. Talvez em breve Žižek lhe explique.

11/23/2011

Impertinente

O corpo que habitam

As actrizes de cinema são demasiadas vezes solicitadas apenas por causa do seu corpo, o corpo estético, sexual, objectificado, vendável. O facto de o cinema usar tanto o corpo das mulheres faz com que não se interesse verdadeiramente pelo corpo das mulheres, pelo corpo enquanto corpo, digamos. Há uns tempos, a versão americana de Funny Games expunha longamente o corpo de Naomi Watts, numa situação incomodativa, deserotizada, uma cena de sequestro e tortura que incluía comentários desagradáveis ao corpo da personagem interpretada por Watts, que uma mulher madura com um corpo atraente mas normal. Há outros exemplos interessantes, do sublime ao lixo, passando pelo quase anedótico. Sublime é a exposição longuíssima do corpo nu de Emmanuelle Béart em La Belle Noiseuse, corpo esplendoroso de uma mulher que no entanto vamos reconhecendo como personagem viva, como pessoa, e de algum modo como objecto artístico igual a outros, são demasiados minutos de um corpo nu e estático, o que transforma a excitação em contemplação, algo notável, tratando-se de Béart. Depois, há um filme péssimo com Julian Sands (passe a redundância), Boxing Helena, em que temos uma Sherilyn Fenn amputada, feita cativa pelo seu admirador, Vénus de Milo ácida e vingativa, que é só corpo, e bocado de corpo, mas que consegue ainda que o espírito humano triunfe. E há momentos anedóticos, como os dedos dos pés de Uma Thurman no primeiro Kill Bill, com Tarantino claramente fascinado com aqueles dedões em grande plano, quase protagonistas de uma cena inteira. E agora temos o novo Almodóvar, com a câmara colada à pele de Elena Anaya, estudando o que é a pele, em que medida a pele é identidade. Devo dizer que Anaya é uma das poucas mulheres de celulóide (ou de digital) que me provoca oscilações cardíacas como algumas mulheres que conheço pessoalmente, incluindo, vagamente, no sentido bíblico; mas em La Piel Que Habito aquela nudez perfeitinha e mignone é constantemente sabotada: por um lado porque ela usa uma roupa muito justa que funciona como segunda pele; e por outro, porque sabemos que a pele da personagem é uma pele transplantada, e isso cria uma incomodidade inultrapassável. Almodóvar, de resto, não se fica por aqui, na medida em que a rapariga é na verdade um rapaz que foi modificado cirurgicamente, e nem é preciso entrar em considerações homossexuais, uma vez que o corpo feminino actual é cada vez mais um corpo modificado, embora de um modo, felizmente, bem mais restrito. Estas representações do corpo serão todas incómodas, fetichistas, abusivas, mas valem mil vezes o papel típico das jovens actrizes, aquela receita gratuita que Roger Corman definiu como «tits every 10 minutes».

Rothko, «Green, blue, green on blue», 1968


Greensleeves (2)

Well, I will pray to God on high, 
that thou my constancy mayst see, 
And that yet once before I die, 
Thou wilt vouchsafe to love me.

[balada do séc. XVI]

Greensleeves (1)

À saída do cinema, entre chuviscos, passei pelo sítio onde nos vimos pela primeira vez, devia ter uma placa e não tem, ninguém sabe, antes assim, dessa vez não era noite, nem chovia, estavas de costas, a três quartos, de chapéu verde, inquieta, e eu a atravessar a estrada antes de me veres e a pensar «se me fosse agora embora já teria tido mais do que mereço».

11/22/2011

Antes a lei seca

Jung escreveu que aquilo que não é querido nem desejado não precisa de ser interdito. Bom, mas saberemos nós aquilo que queremos e desejamos? A noção de «inconsciente» não passa precisamente pela ideia de que não sabemos? Proibir aquilo que desconhecemos pode ser excesso de zelo, mas não é totalmente absurdo. Por outro lado, um interdito provoca necessariamente um desejo daquilo que foi interditado. Será esse desejo «genuíno»? Mas quem é que decide quais são os desejos genuínos e quais os fictícios? Nos tempos da Lei Seca é que havia aquela grande frase: Antes a lei seca do que não haver álcool.

11/21/2011

Shelagh Delaney 1939-2011
















A compilação Louder Than Bombs (The Smiths, 1987) inclui a canção «This Night Has Opened My Eyes», uma paráfrase de A Taste of Honey (1958), a peça «kitchen sink» de Shelagh Delaney. Delaney aparece na capa do disco.

William Morris

Em O Mapa e o Território (2010), Houellebecq explica bem o problema: «O que se pode dizer sem dúvida é que o modelo de sociedade proposto por William Morris nada teria de utópico num mundo onde todos os homens fossem semelhantes a William Morris».

Desinit in piscem mulier formosa superne,













diz Horácio, e tem razão.

Serenidade (2)

Em «Serenidade és minha», o grande poema de Raul de Carvalho, há um verso que me atira sempre ao chão: «Vem [serenidade], e defende-me / da traição dos encontros».

Serenidade (1)

Chesley Sullenberger foi aquele piloto americano que em Janeiro de 2009 fez uma amaragem de emergência no rio Hudson aos comandos de um Airbus, depois de o avião ter chocado com uns gansos em voo. Os cento e cinquenta passageiros escaparam ilesos, e o espectro de um «11 de Setembro acidental» esfumou-se. Sullenberger viu-se justamente aclamado pelos media e pelas massas como um herói. Perante uma situação de grande perigo, demonstrou competência, eficácia e serenidade. O mais curioso é que durante anos ele estudou heroísmo, isto é, investigou tudo o que havia para saber sobre acidentes e segurança aeronáutica. Ele aprendeu a competência e a eficácia. Mas a serenidade é que fez dele um herói.

O heroísmo e a coragem

Passo por ruas que identificam os homenageados em placas que dizem «herói da Grande Guerra» ou «herói do Ultramar». E penso que o heroísmo é uma categoria histórica, ideológica, mutável. Essa patriótica «Grande Guerra» é lembrada hoje como uma mortandade escusada; e o glorioso «Ultramar» passou a ser o nefando colonialismo. Se aqueles homens merecem ainda o nosso respeito, merecem-no por terem tido coragem, e não por terem sido heróis. A coragem continua quando o heroísmo se esvai.

Toponímia

Há uns tempos, uma investigadora descobriu que Frei Miguel Contreiras nunca existiu. O frade do século XV, fundador da Misericórdia de Lisboa, teria sido inventado bastante mais tarde, talvez por causa de uma querela entre ordens religiosas. Nenhum documento coevo o menciona. Só que entretanto, a figura ficou e a toponímia consagrou-o. Que fazer? Passei hoje pela Avenida Frei Miguel Contreiras e fiquei a olhar para a placa com o nome dele, à espera que o semáforo à minha frente mudasse. Ainda que tenha sido descoberta uma fraude, o que é que isso importa? Não vamos mudar o nome de uma avenida só porque o homenageado nunca existiu. As fraudes, quando têm um lastro histórico, tornam-se quase História legítima. Pensei que também já passei por algumas fraudes, e não posso decretar a sua inexistência, fazem parte da minha vida psíquica, da minha memória, da minha biografia, da minha identidade. À existência da Avenida Frei Miguel Contreiras é indiferente o que se descubra ou não sobre Frei Miguel Contreiras. Modifiquem os manuais, mas não alterem as ruas. Deixem lá ficar o frade inexistente, como eu deixo estar as fraudes na minha cabeça. E entretanto, ficou verde.

11/20/2011

Come on over

Sunday best

Sunday best 
You're my favourite suit 
You make the team 
You're no substitute

[Isobel C. & Mark L.]

Objecto total

Melanie Klein dizia que o seio materno, sendo o nosso primeiro objecto de amor, representa tudo para o bebé: a mãe e o mundo, o bom e o mau. Para o bebé, o seio é «bom» ou «mau» de acordo com a resposta que dá aos seus desejos, satisfeitos num caso, noutro caso frustrados. Há, escreve Klein, uma «clivagem do objecto», que faz dele um «objecto parcial» e não um «objecto total». Comentei esta teoria com um amigo, e ele argumentou, e bem, que nunca conheceu um seio mau.

11/19/2011

A força tranquila

11/18/2011

Aquilo que os olhos não viram

Paulo cita as Escrituras: «Aquilo que os olhos não viram, os ouvidos não ouviram e o coração não compreende, isso Deus preparou para aqueles que O amam». Mas acrescenta que não é preciso esperar pela eternidade: «Deus, porém, revelou-o a nós pelo Espírito». E se tivesse dito «pela carne», também estava bem.

Um beduíno impertinente

É verdade, se encontrámos um oásis seria uma tolice não bebermos. Mas nada é assim tão simples, e eu sou um beduíno difícil e impertinente, que se gasta em perguntas, um oásis é muitas vezes uma miragem, não há vegetação nenhuma, não há água nenhuma, é tudo uma ilusão. E nesse caso, beber é uma ilusão ainda mais patética. Já sei qual é a réplica: e a sede é uma ilusão? Não, a sede não é uma ilusão.

Adorar












Nenhuma religião pode ser verdadeiramente casta. Não é por acaso que «adorare» significa «levar à boca».

O argumento adulto

O argumento adulto é que a felicidade depende da estabilidade. Percebo essa identificação, reconheço que faz algum sentido. Mas não é a minha experiência. Só fui feliz quando estava instável, e sempre que encontrei a felicidade encontrei-a na vizinhança da infelicidade, entre enigmas e perigos. Longos períodos estáveis, por opção ou cansaço, nunca me trouxeram felicidade alguma. A estabilidade gera estabilidade, que gera tédio. E o tédio não é vida. Só me senti vivo em momentos instáveis, nos quais era me impossível separar a infelicidade e a felicidade, o medo e a glória. O argumento adulto não me serve de nada.

11/17/2011

Instrumental

















Uma canção chamada «Oscillate Wildly» tinha mesmo que ser um instrumental.

Nalga (2)

A propósito, uma pesquisa Google com a palavra «nalga» dá-nos como primeiro resultado o blogue do Núcleo dos Amigos das Lapas, Grutas e Algares. Isto não se inventa. «Une-nos a aventura da Espeleologia», garantem. O texto mais recente parece-me uma confissão cifrada:

«Integrado na continuação da exploração da Gruta da Contenda (…) regressámos a esta cavidade com o propósito de verificar, em mergulho, os sifões Este e Oeste, a que se acede a partir da Galeria do Rio. Após lenta e penosa progressão até à Galeria do Rio, transportando equipamento colectivo e de mergulho, iniciaram-se preparativos numa sala existente nesta galeria. (…) A primeira imersão realizou-se no sifão Este, ao qual se acede após progressão de cerca de 100 metros em galeria tipicamente de conduta forçada, que se encontrava parcialmente inundada à data do mergulho, com fundo coberto por argila. Devido à inexistência de pontos de amarração de fio guia, foi utilizado um saco de espeleo repleto de pedra para servir de poita, a partir do qual se largou um fio até à superfície com uma garrafa de água a servir de bóia de sinalização, com o propósito de referenciar o ponto de início do mergulho. Iniciada a progressão subaquática, e após avançar 10mts numa galeria de 2,5 por 3 metros de altura, o mergulhador viu-se novamente em galeria semi-inundada com zona aérea de 0,5 metros de altura, prolongando-se numa extensão de 25 metros. Neste ponto verifica-se um rebaixamento do tecto até ao plano de água, após o que se inicia um novo sifão. (…) A cerca de 60 metros de penetração total e com uma profundidade acima dos 7mts, tendo agora exclusivamente fundo arenoso, a visibilidade passa a ser determinada pelo limite da luz. Aos 80 metros de progressão, onde se regista a profundidade de 9mts e secção de 1,5 por 1,5 metros, continua a verificar-se a inexistência de pontos de amarração de fio de ariane. Aproximando-se os terços na gestão de gás, é efectuada uma derradeira tentativa de encontrar pontos de amarração progredindo o mergulhador mais 5 metros.(…) Ficando o sifão Oeste próximo do ponto de base do mergulho anterior, foi iniciada uma nova exploração. Neste sifão a galeria desenvolve-se numa secção de menores dimensões com fundo argiloso nos primeiros 10 metros, passando depois para fundo de areia. A progressão é feita numa galeria de secção uniforme sem grandes oscilações de direcção. A cerca de 45 metros de penetração total, a galeria abre numa pequena sala a partir da qual muda 90 graus de direcção. Progredindo mais 5 metros, o mergulhador constata que a galeria continua mas depara-se com os mesmos problemas do sifão anterior: gestão do ar, total ausência de pontos de amarração de fio guia e visibilidade “0″ no regresso. Neste ponto foi terminado o mergulho a uma profundidade acima dos 8mts. O regresso decorreu sem incidentes».

Acho que nem aqueles «anónimos do séc. XVIII» descreviam isto tão bem.

Nalga (1)

Freud formulou um conceito que causa ainda indignação em muita gente: a «inveja do pénis». Pippa Middleton deu agora azo ao conceito «inveja do rabo». Em inglês é muito mais castiço: «bum envy» Escreve o Telegraph, como se comentasse geopolítica: «Bum envy is not to be envied. The bottom line is that it’s not a good idea for a young woman to be known for her behind (…)». Nunca estaremos realmente em crise enquanto discutirmos a nalga.

11/16/2011

10 × 19

Não há assim tantas editoras francesas fora de Paris. O caso de maior sucesso comercial e crítico é sem dúvida a Actes Sud. Fundada em 1978 pelo belga Hubert Nyssen (que morreu há dias), a editora está há muitos anos sediada em Arles, no sul, justamente. Tudo podia não ter passado de um projecto simpaticamente à margem. Mas na década de 1980 Nyssen fez uma grande descoberta: uma exilada russa octogenária chamada Nina Berberova, de quem publicou o romance L'Accompagnatrice (1985), e que se tornou um êxito inesperado. Uns anos mais tarde, saiu a taluda à Actes: editaram Stieg Larsson, cujo sucesso colossal permitiu à editora dar um salto de gigante. Actualmente, a Actes Sud dá à estampa 350 livros por ano, um número incrível. O catálogo inclui também gente como Auster, McCarthy, DeLillo, e três Nobel, Grass, Kertész e Jelinek. Como aconteceu isto? O que contou? A boa fortuna, talvez, mas sobretudo o gosto e a dedicação de Nyssen, o seu faro, a relação privilegiada que manteve com os autores, e ainda o aspecto dos livros, nomeadamente aqueles de 10 por 19 centímetros, diferentes de todos os outros e por isso fáceis de lembrar. Uma editora de sucesso é caso raro. Em Arles, ainda mais. E sem cedências. A história da Actes Sud é uma inspiração em época de peste negra.

Nativos digitais

Ainda não consigo gostar da imagem digital, não sei se algum dia me habituarei, falta-lhe densidade, espessura, mas enfim, reconheço que o digital tem sido muito benéfico para o cinema. Filmar torna-se mais fácil, ainda não é a «câmara-caneta» anunciada por Astruc mas quase, o cinema ficou de súbito bastante acessível e de difusão imediata. E o digital tem contribuído muito para reconfigurar a distinção entre ficção e documentário, criando novos tipos de narrativas híbridas. Este ano, vimos pelo menos quatro obras filmadas em digital que ilustram bem esta nova fase. Uns são talvez mais «ficção» do que «documento». Soderbergh fez um filme ficcional clínico e estilizado, usando uma estrela porno como protagonista e criando uma ambiguidade com o «grau zero» de representação e com aquele registo tão intimista quanto distanciado. Hellman pôde finalmente voltar ao cinema, e celebrou o regresso multiplicando narrativas dentro de narrativas dentro de narrativas, começando a história com um dvd em cuja imagem entramos e que é afinal o filme que estamos a ver, entre o falso documentário e o jogo de espelhos. Outros dois cineastas colocaram-se mais do lado do documental. Cavalier continua a fazer home movies, diários pessoais, idiossincráticos, minimalistas, e agora convidou um actor famoso para contracenar com ele, e ambos fingem que estão a gravar um filme de ficção, enquanto comem e conversam. Panahi, em prisão domiciliária, e proibido de filmar pelas autoridades iranianas, usou o digital (e o telemóvel) para gravar um testemunho, um inocente «não-filme» nada inocente, e com o qual ensaia todos os processos narrativos do cinema, quase sem pegar na câmara, quase sem ninguém que o ajude, e sem nunca pôr um pé fora de casa. É algo mais do que anedótico sabermos que este último filme chegou ao Ocidente numa pen drive metida dentro de um bolo de aniversário.

Mucho mistrust













Once I had a love and it was a gas 
Soon turned out had a heart of glass 
Seemed like the real thing, only to find 
Mucho mistrust, love's gone behind.

Estatística doméstica

Tenho quinze primos direitos. Oito estão casados, e alguns «bem casados», como se diz, naquela lógica «de cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas necessidades». Cinco divorciaram-se, e quase nenhum desses desquites surpreendeu alguém. E há duas primas solteiras, uma das quais é «contra o casamento» ou coisa assim. A minha família talvez não seja uma estatística representativa, mas é o meu mais próximo objecto de afecto e de estudo, e um ponto de apoio seguro para o meu pessimismo.

11/15/2011

Giving pleasure to Mrs Bone

Podia ser Hawks, mas é nos Comuns.

Feriados que ninguém festeja

Devemos manter os feriados que são festejados, e deixar cair os que se tornaram arcaicos. Os cristãos celebram o nascimento e a morte de Jesus, quase toda a gente celebra «a família» ou algo assim a 25 de Dezembro, o regime celebra-se a 25 de Abril, os sindicatos celebram o 1º de Maio, o 10 de Junho é um dia «nacional» como existe em todo o lado. E a 1 de Janeiro a ressaca recomenda ócio. Mas os outros feriados são, para a grande maioria dos portugueses, feriados apenas no calendário, ocasiões ou festas que poucos festejam, recordam ou sequer conhecem. Quantos católicos sabem explicar o que é a Imaculada Conceição ou o Corpo de Deus? Quantos patriotas desfilam pelas avenidas a 1 de Dezembro a verberar as Espanhas? Quantos cidadãos envergam aventais e barretes frígios em Outubro?

11/14/2011

A troika


Haja bom tempo ou mau tempo, fico com os nórdicos: Lars Norén (Suécia, 1944), Peter Asmussen (Dinamarca, 1957) e Jon Fosse [eu sei, eu sei] (Noruega, 1959).

Patologias

Kierkegaard dizia que adequar os nossos objectivos às nossas capacidades é uma atitude patológica. Houve quem argumentasse que Kierkegaard era um notório caso patológico, e que portanto devia refrear-se em matéria de atestados de patologia. Mas estas pessoas estavam apenas a tentar adequar os seus objectivos às capacidades de Kierkegaard. Uma estratégia completamente patológica.

A repetição

Há um poema de Yehuda Amichai que diz: «não sei se a História se repete mas sei que tu não te repetes». A ideia de que a História se repete tem em geral conotações nefastas, e isso torna a incerteza do sujeito mais positiva do que negativa. Mas o «tu não te repetes» é bastante ambíguo, tanto pode ser motivo de alegria como de angústia, e dessa ambiguidade o sujeito tem a certeza.

Gola alta


















Sabemos que se trata de uma canção feliz porque ele anuncia: «'Cos it's all downhill now».

Brand new friend



Walking in the pouring rain
Walking with Jesus and Jane
Jane was in her turtleneck
I was much happier then

[Lloyd Cole, num quarto de hotel sueco]

11/13/2011

Carnide

Há em Lisboa um cemitério em que os cadáveres não se corrompem. É o cemitério de Carnide. Parece que o solo é argiloso, pouco permeável, e não absorve a água das regas e da chuva. Consequência: os mortos não se decompõem. Quando se exuma um corpo anos depois do enterro, está intacto. É abominável. Deviam fechar o cemitério de Carnide. Os mortos merecem desaparecer de vez.

Os negros de bronze



















Two months after marching through Boston, 
half the regiment was dead; 
at the dedication,
William James could almost hear the bronze Negroes breathe.

Uma história da violência

Dantes, não tinha exército, como a Costa Rica ou o Liechtenstein. Achava que não precisava. Ou confiava que seria defendido por terceiros, como confiam o Mónaco e a Gronelândia. Que diabo de ideia. Mesmo quando surgiram umas escaramuças, uns avisos, apenas formei uma guarda garrida, cerimonial, ineficaz, arcaica, à imagem do Vaticano. Depois veio a guerra, e eu não estava preparado. Percebi que é preciso ter um exército, que ninguém nos defende, que não basta umas sentinelas em guaritas. Comprei, para minha grande vergonha, armas químicas.

Yellow Ledbetter

Talvez seja sobre os mortos de uma guerra e ele cante «I don’t know where there's a box or a bag». Ou talvez seja sobre os vivos de uma guerra e ele cante «I don’t know whether I’m the boxer or the bag».

Hollywood














Há pessoas que se vangloriam de feitos um bocado pífios. Quando alguém se arma em Joaquim de Almeida comigo, gosto de lembrar que o grande português do cinema americano é Nuno Salvação Barreto. Ao menos, foi-lhes aos cornos.

11/12/2011

Pobre Itália

Berlusconi chegou ao poder com uma das piores ideias ditas «de direita»: a ideia de que o sucesso nos negócios privados é uma especial habilitação para a condução da coisa pública. Viu-se. O homem que triunfou por causa da acumulação de capital acaba de se demitir por indecente e má figura perante os «mercados». Ironias. Entretanto, foram dezassete anos, como Presidente do Conselho ou como líder da oposição, quase duas décadas de gafes, dislates, momices, bazófias. É difícil pensar numa figura mais inapresentável na política europeia recente. Não por acaso, deu-se sempre bem com Khadafi e Putin, exímios democratas. Berlusconi devia estar barrado da governação há muito tempo, talvez desde sempre: incontáveis processos por corrupção, controlo quase monopolista dos media, aprovação de amnistias ad hominem, perseguição a juízes e jornalistas. E a cereja no bolo: fama comprovada de bode velho, com meninas pagas, incluindo menores de idade. A Itália, pátria do gosto, não merecia este episódio de retinto mau-gosto. Agora é preciso retomar o processo de refundação do sistema político. A Primeira República [1946-1994] estava podre, e a Segunda não melhorou a situação. Tudo indica que o Presidente italiano percebe que é precisar afastar actores políticos nefastos, como a Liga Norte, separatista e socialmente racista, e, à esquerda, a Itália dos Valores, o PRD transalpino, moralismo arrogante e tudo. Essa é a boa notícia, a segunda boa notícia. A má notícia é que o Governo vai ser entregue a um técnico, aparentemente sem eleições à vista. Como se em democracia houvesse boas soluções políticas que não sejam isso mesmo, políticas, e portanto eleitorais. Talvez a Itália passe do circo à tecnocracia, mas isso é apenas uma limpeza, não uma resposta. Pobre Itália.

11/11/2011

Luzes da cidade















O néon fez cem anos. Quer dizer, o néon é um gás, mas a patente americana daquilo a que habitualmente chamamos «néon» foi registada por Georges Claude em Novembro de 1911. Um ano antes, tinha feito o mesmo em França. Claude era um figurão: fã de Júlio Verne, físico, químico, engenheiro, investigador, empresário, milionário, nacionalista, colaboracionista, esteve preso a seguir à guerra, foi expulso da Academia das Ciências, e o seu nome caiu no esquecimento. No entanto, mudou definitivamente as nossas cidades. Tornou-as feitas de luz. (...)

A modernidade é marcada pela iluminação: primeiro a gás, depois eléctrica, depois a néon. Nascem as grandes cidades iluminadas, onde as pessoas encontram tanto segurança como excitação, a cidade moderna, local diurno e nocturno onde as multidões são expostas a uma constante estimulação nervosa, à variedade, a mensagens difundidas e difusas, à fragmentação da atenção e da consciência. A noite torna-se diferente, não menos noite mas mais noite, o fotógrafo Brassaï disse mesmo que as luzes é que permitiram descobrir o escuro da noite. A conquista da luz redescobriu a noite escura. (...)

[amanhã no Expresso]

Bonnie and Clyde



Vous avez lu l'histoire de Jessie James 
Comment il vécut, comment il est mort 
Ça vous a plu, hein, vous en d'mandez encore 
Eh bien, écoutez l'histoire de Bonnie and Clyde 

Alors voilà, Clyde a une petite amie 
Elle est belle et son prénom c'est Bonnie

Jeunes femmes et vieux messieurs



Nem viam os meus filmes

It's the rawness that he brought to those early parts that is so amazing. As he talks, I'm thinking of the slobbering, desperate lust of Boogie Nights and Happiness. Did girls back then always expect you to be terrible in bed? He laughs. «No». Are you sure they did not expect the most abject sex ever? «No, because they weren't watching my movies».

[Philip Seymour Hoffman, em entrevista ao Guardian]

Príncipe Real

Uma mulher cosmopolita, cosmopolita de verdade, nota-se logo, como um vinho bom ou estragado, há uma marca cosmopolita que é uma espécie de naturalidade, de leveza, uma cosmopolita é o que é, não se anuncia, não se gaba, não teatraliza, a classe é nela um adjectivo e não um substantivo pífio.

Drôle de fille

Os franceses chamam «drôle de guerre» àqueles meses de 39 e 40 em que houve uma invasão relâmpago e uma resistência fictícia, grotesca. Mas há também a «drôle de fille», com ela a falsidade faz de qualquer combate um embaraço.

Leituras

Um grande fim de tarde num elegante e sisudo anfiteatro do museu da Ciência. Quatro escritores e os seus textos, não é preciso mais nada. DeLillo é fisicamente frágil e apagado. Leu um excerto de Point Omega, um trecho ensaístico sobre o Psico de Hitchcock na variante lentíssima concebida por Douglas Gordon. Coerente com a sua concepção do mundo, não deu espectáculo. Coetzee parece um aristocrata impecável e impassível, a pronúncia inglesa é imaculada. Anunciou que ia ler um conto durante 12 minutos «and then stop». Leu um conto dialogado, simples, com uma misteriosa referência a uma chave mestra, a que uma personagem se referia como «chave universal». Chegado aos 12 minutos, parou. Auster continua com bom aspecto, voz funda, entoação certa, leu umas páginas de Sunset Park acerca de irmãos em conflito, e ilustrou bem a sua técnica narrativa desenvolta, viciante, nunca alheia aos aspectos fónicos. Mas quem ganhou a sessão foi Hustvedt, que leu com imensa graça uma passagem de The Summer Without Men, uma antologia de magníficas tontices que os cientistas escreveram sobre as mulheres e a definição genética do que é «feminino». Foi incisiva, inteligente divertida, atraente. Os quatro leram num estrado iluminado, com a sala calada e às escuras. Não houve apresentações, biografias, perguntas, conversa fiada. Devia ser sempre assim.

11/10/2011

New York Press 1988-2011


Durante mais de duas décadas, havia nas bancas nova-iorquinas uma alternativa à alternativa Village Voice. Chamava-se New York Press, era culta e raçuda, e escreveu lá gente como Alexander Cockburn, Armond White, Christopher Caldwell, Dave Eggers, Jonathan Ames, Taki ou Toby Young. Agora-se acabou-se, em breve acaba-se tudo, somos a última geração do papel, por mim acho uma tristeza.

Escondido à vista de todos

Estou como em «The Purloined Letter»: «hidden in plain sight». É o estado que me convém, não exposto e obscuro mas escondido e à vista de todos.

Houdini

Às vezes desapareço. Toda a gente que me conhece sabe isso, convive com isso. Levo sumiço, não dou notícia, não respondo ao mundo. Sou um perito do «disappearing act», um Houdini sem espectáculo. Às vezes é uma fuga. Outras, um cansaço. Outras, um hiato. E às vezes é porque celebro em recato uma alegria incompreensível e inesperada.

Uma minúcia


















Jane tem um segredo, e o segredo está talvez contado numa fotografia ampliada. Quando Thomas olha para Jane, instala-se a mesma inquietude fotográfica, Thomas amplia o rosto de Jane à procura duma verdade, duma minúcia.

[Blow-Up (1966), de Michelangelo Antonioni, com David Hemmings e Vanessa Redgrave]

Nada de misturas

Quando ele descobre que tem cancro, conta à namorada e diz-lhe que esteja à vontade para deixá-lo, compreende perfeitamente que ela queira ir embora. Ela aparenta estoicismo, dignidade, elevação. Mas um pouco depois lá confessa que de facto não gosta de «misturar as coisas positivas com as coisas negativas».

[50/50 (2011), de Jonathan Levine, com Joseph Gordon-Levitt e Bryce Dallas Howard]

11/09/2011

O génio do cristianismo

É a mais bela frase da liturgia católica: «mas dizei uma só palavra e serei salvo».

Chá

Procurou refúgio da chuva mas confundiu uma casa de chá e uma casa de putas.

Tácito e o seu modelo

Barbey diz que a ficção é mais interessante do que a História: «Lovelace dure plus, dans Richardson, que Tibère dans Tacite». Alguma coisa se ganha no trânsito entre a vívida «imaginação» e a severa «verdade» «Mais, si Tibère, dans Tacite, était détaillé comme Lovelace dans Richardson, croyez-vous que l'Histoire y perdrait et que Tacite ne serait pas plus terrible?». O problema é que a História tem um modelo, e portanto cria uma relação agónica entre «modelo» e «narrador», enquanto na ficção o «modelo», ainda que demoníaco, confunde-se com o narrador, ou seja, está sempre «à sua altura»: «Certes, je n'ai pas peur d'écrire que Tacite, comme peintre, n'est pas au niveau de Tibère comme modèle, et que, malgré tout son génie, il en est resté écrasé».

Crimes civilizados














J'ai souvent entendu parler de la hardiesse de la littérature moderne; mais je n'ai, pour mon compte, jamais cru à cette hardiesse-là. (…) Certainement, si on veut bien y regarder, la littérature n'exprime pas la moitié des crimes que la société commet mystérieusement et impunément tous les jours, avec une fréquence et une facilité charmantes. (…) La pauvre littérature ne saurait même par quel bout prendre de pareilles histoires, pour les raconter. (…) Cependant, les crimes de l'extrême civilisation sont, certainement, plus atroces que ceux de l'extrême barbarie par le fait de leur raffinement, de la corruption qu'ils supposent, et de leur degré supérieur d'intellectualité.

Um católico diabólico

Um crítico definiu assim Jules Barbey d’Aurevilly: «pensa como de Maistre e escreve como de Sade». É uma síntese magnífica. Católico ultramontano viciado na podridão e na obscenidade, Barbey era várias coisas ao mesmo tempo, um aristocrata normando, um polemista infrene,um dândi, um apologista de Roma, um dissoluto, um cínico, um grave moralista. Era também amigo de Baudelaire. Quando publicou livros «escandalosos» como a colectâneas de contos Les Diaboliques (1874), disse, como era costume à época, que descrevia o mal para melhor o expor e o condenar. Mas era uma desculpa esfarrapada, e Barbey nunca sairia à rua esfarrapado. Os seis contos de Les Diaboliques são exercícios de uma imaginação doentia, à Poe, mas com maior refinamento estilístico, uma escrita insolente de tão civilizada, e no entanto ao serviço histórias de cordel, excessivas, inacreditáveis, grotescas. Les Diaboliques vive de sangue e sexo, mas não porque queira «expor» ou «condenar» o mal. Um outro crítico francês escreveu que Barbey, como católico radical, sabia que só havia dois caminhos para a imoralidade: santificá-la ou perdoá-la. Ou, porque não, ambas as coisas.

Giovanni Tocci

Em Abril de 1883, um tal Giovanni Tocci enviou o seguinte requerimento à polícia parisiense: «Venho por meio desta carta solicitar autorização para exibir, numa das praças da cidade, numa barraca ou num salão, um fenómeno dos mais extraordinários: duas crianças ligadas por um mesmo tronco. Eles têm cinco anos de idade, estão vivos, possuem duas cabeças, quatro braços, um único tronco e duas pernas. Os indivíduos em questão nunca foram exibidos em Paris, mas já estiveram nas maiores cidades da Itália, da Áustria, da Suíça, bem como em inúmeras cidades da França». Mas Tocci estava um pouco fora de tempo. A grande época dos monstros de feira chegava ao fim, e uma autoridade policial respondeu: «Não concordo com a exibição pública de tais monstruosidades. Isso compete exclusivamente à Faculdade de Medicina».

11/08/2011

Fairground attraction


















Tínhamos ambições pequenas nesse tempo, até uma feira chegava como diversão juvenil, como felicidade modesta, imaginávamos talvez um futuro protegido e previsível, foi a única idade em que quisemos todos o mesmo, sabíamos que nos chegava manter a honra e a verdade, e evitar más companhias. Não errámos demasiado nas virtudes. Escolhemos tão mal a companhia.

Alguém importante

Há uns anos, uma ministra levou o telemóvel para uma audiência com a Rainha. Deixou-o ligado. E a certa altura, fatalmente, o telemóvel tocou. Então, a Rainha disse com brandura: «Atenda, querida. Pode ser alguém importante».

By Appointment To Her Majesty The Queen

«By Appointment To Her Majesty The Queen» é uma indicação que encontramos em alguns produtos ingleses, geralmente comida e bebidas, e significa que são fornecedores oficiais da Coroa. Mas também há blogues «By Appointment».

Pray you, undo this button












O crítico literário M. H. Abrams questionou assim a validade do «desconstrucionismo»: «I would agree that there are a diversity of (...) interpretations of the play King Lear, yet I claim to know precisely what Lear meant when he said, 'Pray you, undo this button'».

O sexo aos quarenta

O sexo aos quarenta lembra aqueles audiófilos que elogiam o vinil porque regista sons que o nosso ouvido não capta.

Bicicleta

Dizem que é como andar de bicicleta, mas haviam de me ver a andar de bicicleta.

Pedintes

Pedintes não podem ser esquisitos, dizem os ingleses. Mas quem é esquisito tem direito a ser pedinte. 


11/07/2011

Porque eu sou lixo e tu também


[Balla, «Equilíbrio», 2010, música Armando Teixeira, letra PM]

A menina Brittling

- Acho-o muito banal.
- Parece que achas tudo banal.
- É uma palavra nova cujo uso correcto só compreendi ultimamente (…) e que se aplica a quase tudo: a Virgílio, à menina Brittling, ao meu ginásio.
- Como vai o ginásio?

[Evelyn Waugh, Enviado Especial, 1938]

Generosidade

Churchill disse: «A História será generosa comigo, porque tenciono eu mesmo escrevê-la». Percebo a ideia, embora, claro, aquilo que escrevemos nós mesmos não seja bem «a História», apenas «uma história». E, no fim de contas, escrito nenhum garantirá que sejam generosos connosco.

Handke

Peter Handke estava cansado, já tinha dado uma entrevista, ao que parece falou bastante, apetecia-lhe beber vinho, tinha pouca vontade de conversar, embora a sala estivesse cheia, e com Auster e Coetzee na fila da frente. Handke vestia de preto, como de costume, é magro, cabelo ainda comprido mas mais escasso e grisalho, olhos vivos, óculos pequenos, um humor um pouco arisco mas fino e um inglês muito mau. Não foi antipático, mas é reservado, ou tímido, ou simplesmente não lhe apetecia conversar. O João Lopes e eu bem tentámos, mas Handke não estava in the mood, e nem com as perguntas do público se mostrou mais solícito. E no entanto, ensaiou algumas respostas ao que eu mais lhe queria perguntar, algumas bastante boas, que cito de memória. Porque é que os austríacos dizem coisas terríveis sobre a Áustria, como fazem Bernhard e Haneke? Handke: «Eles não são representativos, os austríacos gostam da Áustria, eu gosto da Áustria». Depois de anos a evitar a política, envolveu-se em grandes polémicas políticas, como reagiu a isso? «Não o procurei, veio ter comigo, mas isso acabou por me dar uma espécie de destino». A «Europa Central» é apenas um conceito «meteorológico», como disse uma vez? «É uma ideia meteorológica, geográfica; como ideia política é detestável, foi a ideia de Europa Central que fez com que portássemos como nos portámos com a Jugoslávia». Como é que alguém que gosta de Hofmannsthal, de Wittgenstein e das questões da crise da linguagem escreveu oitenta livros? «Tenho um problema com a linguagem, mas quando escrevo finjo que não tenho». Robert Walser morreu quase esquecido, depois de trinta anos num hospício, mas hoje é reeditado em todas as línguas; acredita na justiça da posteridade? «Há um provérbio alemão que diz: Diga isso ao ouvido de Deus».

Handke em Lisboa







[clique para aumentar]

11/06/2011

Branco em branco, invisível

Bare white body fixed white on white invisible. Only the eyes only just light blue almost white. Head naught eyes light blue almost white (…) Bare white body fixed one yard ping fixed elsewhere.

[Beckett, Ping, 1966/67]

11/05/2011

Arqueologia bíblica

Há uma publicação fascinante chamada Biblical Archaeology Review. Tal como o nome indica, a BAR estuda as descobertas relacionadas com a arqueologia dos locais bíblicos, aquilo que costuma ser designado como «Terra Santa». A BAR é lida avidamente por crentes (gente que quer «provar» coisas), por ateus (gente que quer «negar» coisas) e por agnósticos (gente que pelos vistos se interessa mesmo por arqueologia). Mas pobre do crente que se transformasse em ateu, ou do ateu que se transformasse em crente, por causa de umas pedras que afinal se encontraram ou de que afinal não ficou nenhum vestígio. A Bíblia não é um livro de História, e a fé tem pouco a ver com a verdade histórica. Na vida doméstica é o mesmo. Sempre que me dedico a arqueologias caseiras, encontro inúmeros indícios que provam, digamos, a existência do tanque de Siloé, ou que desmentem o achado do túmulo de Herodes. Pouco importa. Ninguém baseia a sua fé em «factos». Na Terra Santa como na terra do pecado.

11/04/2011

Nada é assim tão literal













Um dos problemas com os filmes pessoais é que as pessoas acham que são autobiográficos. Quando num filme como «Os Tenembaums» mostra uma família disfuncional, as pessoas tendem a perguntar se se trata da sua família. Isso não é desconfortável?

É desconfortável na medida em que me perguntam coisas que não batem sempre certo, e eu tento responder, mas não é fácil, porque nada é assim tão literal. Já escreveram coisas sobre os meus filmes que são ofensivas, por exemplo para o meu pai, que leu coisas de que não gostou nada, porque as pessoas presumem que ele é como o Gene Hackman no «Tenenbaums».

Isso também aconteceu ao seu amigo Noah Baumbach. As pessoas acham que o pai romancista de «A Lula e a Baleia» é o pai dele, que também é romancista.

Só que nesse caso a personagem é mesmo igual ao pai dele.


[entrevista a Wes Anderson, amanhã no Expresso]

Esclarecimento

Se o sexo estivesse apenas ligado à reprodução, o esclarecimento sexual seria sensato. Mas o sexo também está ligado a outras funções; por exemplo, ao esclarecimento sexual.

 [Karl Kraus]

Toda a gente sabe



















And everybody knows that the Plague is coming 
Everybody knows that it's moving fast 
Everybody knows that the naked man and woman 
Are just a shining artifact of the past

[Leonard Cohen]

PPR

O amor funciona na ignorância ou na esperança; como Plano Poupança Reforma, não recomendo.

Liga Carlsberg













Não é bem uma equipa que não vai a jogo: é uma equipa que só joga em casa.

Madoff

Elogiamos o processo Madoff pela sua rapidez. Devíamos elogiar o senhor Madoff pela sua confissão.

Galileu

Condenaram Galileu porque ele contrariava o senso-comum. Basta olhar pela janela para perceber que é o sol que anda à volta da terra, para que precisamos de ciência? Felizmente, hoje em dia há mais clemência para com os insensatos.

Intro

O fim da aventura

The End of the Affair acaba com a frase: «I hate You, God, I hate You as though You existed». Sempre me pareceu que isto é o começo de uma aventura.

Ich weiss jetzt, was kein Engel weiss

Ich weiss jetzt, was kein Engel weiss, agora sei o que nenhum anjo sabe, estranho como esta frase me assombra conforme o voo ou a queda do trapézio.

Claques

Um dia, alguém, talvez um sociólogo simmeliano, talvez um contista tchekhoviano, escreverá sobre este coro grego, estas claques, esta gente sem aparente interesse próprio que se reúne à nossa volta e faz tudo para que o amor alheio triunfe ou faz tudo para que naufrague.

Colombo

Não tenho interesse por «redes sociais». A rede social de cada um são os seus amigos. E essa outra dimensão que são os «amigos de amigos», enigma tão vasto como o mundo antes de Colombo.


















[a actriz Maggie Schiff]

Três poemas e meio de Ossip Mandelstam / fragmento

Sempre que amamos de novo
caímos de novo na heresia.
Destruímos o amor sem nome
junto com o nome do amor.

Três poemas e meio de Ossip Mandelstam / 3

O vento envolve
a minha vida seca.
Não mais canções de pedra.
Hoje canto a madeira.

É leve e áspera,
feita de uma só peça,
é o coração de um carvalho
e o remo de um pescador.

Juntem mais toros.
Batam, martelem, mais força.
Um céu de madeira
onde todas as coisas se acendem.

Três poemas e meio de Ossip Mandelstam / 2

Céu, céu, vais entrar no meu sonho. 
Não acredito que tenhas ficado cego.
 Que o dia, como uma folha de papel, 
tenha ardido e deixado apenas fumo e cinzas.

Três poemas e meio de Ossip Mandelstam / 1

Não é preciso linguagem,
não há nada a ensinar, 
que triste e no entanto bela 
é a alma escura e brutal. 

Não nos quer ensinar nada, 
não tem sequer uma linguagem. 
Mas nada como um jovem golfinho 
nos turvos abismos cinzentos do mundo.

 [versões PM, a partir de uma tradução inglesa de Robert Tracy]

11/03/2011

Chiado

Acontece com frequência, vou na rua e cruzo-me com uma pessoa que me conhece, faz cara de quem me conhece, mas eu não a reconheço, ou não de imediato, e entretanto não nos cumprimentámos. Acontece-me com frequência com pessoas que mal conheço. Acontece-me às vezes com pessoas que conheço bem.

11/02/2011

French Hamlet

O popular vegetal laranja

Não me quero repetir, até por razões estilísticas, e quem não se quer repetir deve escolher a omissão ou o silêncio. Tudo menos a paráfrase. Senão ainda acabo como aquele jornalista inglês que para evitar a repetição da palavra «carrots» escreveu «the popular orange vegetables».

Magnetic fields

















Estava todo lá dentro. Todo não, as extremidades apenas. Eu explico. Tive uma recaída de uma queda antiga, com vinte anos, já me aconteceram coisas passadas há vinte anos, quem diria, neste caso uma micro-ruptura num menisco, órgão que eu supunha exclusivo de jogadores do Portimonense. O médico mandou-me fazer uma ressonância magnética. Lembrei-me do dr. House, sempre a mandar fazer «éme-ar-ais» a torto e a direito, num hospital que claramente não pertence ao SNS e que tem a Olivia Wilde a fazer o internato. Ficção, portanto. Escusado será dizer que não tive tanta sorte. Cheguei ensopado da chuva ao centro de exames e fui encaminhado para uma salinha com uma enfermeira gira e uma enfermeira não-gira. Fui atendido pela não-gira. Deu-me um impresso, que preenchi. Era exaustivo. Tive que contar toda a minha história clínica e não só, incluindo alergias, próteses, a minha opinião sobre o Estado social e a infabilidade papal. A seguir, a enfermeira mandou-me vestir uma bata e pôr um plástico azul em volta dos pés. Lá fiz a coisa, e saí do vestiário naquele estado, de cuecas, barbatanas azuis e um balandrau sucinto em cima do meu corpo de nadador olímpico. Um espectáculo deprimente. Fui levado ao micro-ondas. Na melhor das hipóteses, parece uma cápsula espacial. Na pior, um instrumento concebido pelo doutor Mengele. Há dias, aprendi que o genial físico teórico Ettore Majorana concebeu os cálculos que estão na origem da ressonância magnética. Também concebeu experiências que estão na origem da bomba atómica, por isso estão a ver a ideia. Trepei para o tabuleiro e enfiaram-me no forno, felizmente só até ao cós. Eu achava que um mri era uma espécie de radiografia com bazófias. Estava enganado. É uma maquineta assustadora. A enfermeira avisou que a máquina fazia muito barulho, que não me assustasse. Enquanto o tubo me lia o menisco, ia de facto fazendo muito barulho, de vários tipos. Registei quatro: antiaérea nazi num campanário normando, fotocopiadora asmática, alarme anti-roubo comprado nos chineses e nave de Darth Vader em aterrissagem. A enfermeira tinha-me dado uns auscultadores para eu evitar ouvir o chinfrim. Pedi os dois primeiros álbuns dos Feelies. Não havia. Deram-me em vez disso uma musiqueta género eflúvio silvestre, pipilante, beatífico. Parecia a Enya, o que não é um elogio. Alguém já disse que se a vagina cantasse, cantava como a Enya. Ao fim de dez minutos de estudo minucioso das minhas canelas e de zumbidos metálicos, cabeceei um pouco com a Enya. Felizmente, o exame estava acabado. Barbataneei para o vestiário, voltei de lá esplendorosamente mal pronto, e fui recebido pelo médico. Ele ostentava aquele ar fascinado que sempre provoco nos médicos de todas as especialidades. Claramente eu apresentava um caso patológico, mais um. Todos os médicos me querem usar para papers que apresentam em congressos, onde vão contribuir para o avanço da ciência e enganar as esposas. O médico sentenciou professoralmente que eu tinha «um bocado da rótula solto na cartilagem». Eu disse-lhe «bom dia para si também» e saí para a rua chuvosa e magnética.

Contágio

O meu bilhete para o último Soderbergh dizia: CONTÁGIO DIGITAL.

11/01/2011

Depois de Godot

Morreu Ruby Cohn, decana dos especialistas em Beckett. Foi uma das primeiras pessoas a escrever sobre a grande transformação operada pelo dramaturgo irlandês: «Depois de Godot, os enredos podiam ser minimais; o enquadramento, dispensável; as personagens, contraditórias; a localização, não-específica; e os diálogos, imprevisíveis». Foi uma das primeiras a perceber que isto não era apenas uma estética.

Linguagem

Procurei a carta, certamente a última carta que receberei, a última carta que alguém mandará no mundo, em papel e caligrafia, e fiquei nervoso, não encontrava em lado nenhum o envelope, gasto do tanto que gosto dele. Não era possível ter perdido aquela carta, trocava todos os outros mementos por aquela carta, era importante encontrá-la. E depois, à procura de uma palavra, descobri-a, usada e prensada, metida num dicionário de sinónimos, no meio da minha linguagem.

Panaceia inútil

D. Pedro II

D. Pedro II mandou cortar e embolar os cornos aos touros. Curiosamente, encornou o irmão.

Quando recebeu informações

Quando o septuagenário primeiro-ministro Harold Macmillan recebeu informações concludentes sobre a arriscada aventura sexual do ministro Profumo, justificou o facto de não ter sabido de nada antes com uma frase que ficou célebre: «I do not move among young people fairly widely».

«It tastes like yours but sweeter»














Decido não perguntar nada, directa ou indirectamente, nada de nada. Temo que a resposta fosse uma versão suave do «é igual ao teu, mas mais doce».

O epílogo

Achei que aquele «epílogo», como de imediato lhe chamei, quebrou a regra aristotélica. Acolhi-o com imensa alegria, como é óbvio, mas não estava preparado. Tinha tudo arrumado em três unidades, três andamentos, três tempos. Que motivo então para um novo episódio? Nenhum motivo, não há uma divindade que estabeleça tais sucessos, mas ainda assim imaginei um qualquer sentido. Um consolo depois da abjecção. Uma porta ironicamente entreaberta. Uma lenta despedida.