12/31/2011

Boas entradas


Um agradecimento

Mais um ano em que aquilo que consegui não me veio da força, da virtude ou do talento, bens que não possuo; tudo o que tenho veio mais uma vez do facto um pouco miraculoso de ter leitores, muitos nas crónicas, bastantes no blogue, uns quantos nas recensões, um punhado na poesia, não importa a quantidade mas a constância, a generosidade e a afabilidade que demonstram, e que agradeço como se agradece à mão que nos ampara.

Cadernos do subterrâneo

«Oh, mas digam-me: quem foi o primeiro a proclamar, o primeiro a declarar que o homem faz sujeiras só porque não conhece os seus verdadeiros interesses; e que, se for esclarecido, se alguém lhe abrir os olhos para os seus verdadeiros e normais interesses, o homem deixará imediatamente de fazer pulhices, tornar-se-á sem tardança bom e nobre, porque, iluminado por alguém e na posse da consciência das suas vantagens, ele, consequentemente, começará por assim dizer a fazer o bem». Isto escreve Dostoievski nos Cadernos do Subterrâneo (1864) [trad. port. Nina e Filipe Guerra].

O grande biógrafo de Dostoievski, Joseph Frank, escreveu que Cadernos do Subterrâneo tem como tema a incapacidade do livre-arbítrio contra o determinismo. Não consigo imaginar tema mais terrível, mais actual. Sobretudo porque Frank acrescenta que o «homem do subterrâneo» encena-se como «resistente» mas não produz mais do que um espectáculo deprimente.

Petersburgo
















Diário de S. Petersburgo: Inauguração de um monumento a Dostoievski (1997) é um dos mais tocantes documentários de Alexander Sokurov. O filme, com imagens toscas, em vídeo, mas com ângulos e movimentos de cineasta, regista a inauguração da estátua de Dostoievski em S. Petersburgo, a cidade onde morreu. Estão presentes as autoridades locais, que dizem palavras de circunstância, e as autoridades eclesiásticas, demasiado enfáticas e prosélitas, bem como uma extraordinária pequena multidão de russos comuns, calados, respeitosos, curiosos, surpreendidos, pacatos, comovidos. Os testemunhos são fortíssimos, em especial dos estudiosos de Dostoievski e de um seu descendente. Para eles, aquela estátua do romancista é uma memória da resistência, uma resistência que para eles tem muito a ver com a memórias do comunismo, mas que representa também mais de dois séculos de repressão e sofrimento, sempre vitimando os «humilhados e ofendidos», mesmo quando os verdugos invocavam o seu nome. As palavras dignas daqueles russos vincados, dignos, são comoventes, «ganhámos o direito», dizem eles, de ter esta estátua, de recordar alguém que se confunde com a cidade, que se confunde com os russos, «ganhámos o direito», dizem, de perpetuar o sofrimento e a angústia, íntimo e político, das coisas da pólis e da alma, e eles dizem isto quase em lágrimas, enquanto os sinos repicam, e alguém, suponho que o próprio cineasta, lê passagens de Dostoievski, que nos diz para não fugirmos do sofrimento e da angústia, que vivamos com eles, não em submissão mas em guerra, com uma coragem feita da soma dos medos, e há um excerto onde se diz «não deixes que a literatura nos abandone», os sinos não param, as pessoas circulam em volta da estátua, não conheço outra oração assim, «não deixes que a literatura nos abandone».

Ruínas



















Há umas semanas, em Londres, vi uma exposição sobre a arquitectura soviética dos anos a seguir a 1917. Tal como noutras artes, houve uma explosão de modernismo visionário, exaltado, utópico, unindo forma e função em torres, fábricas, casas de operários e de funcionários, centros culturais, piscinas, escolas. Ao lado das fotografias antigas, dos desenhos e maquetes, estavam expostas fotos tiradas depois da queda do comunismo, com os prédios decadentes, abandonados, em ruína. Um sonho modernista que morreu duas vezes e acabou esquecido. Pouco me interessa, para este efeito, o modernismo, enquanto estética, e o comunismo, enquanto ideologia; interessa-me o entusiasmo e a ruína, interessam-me aquelas fotografias, a sua tristeza.

12/30/2011

Bela indiferença


















Comprei um livro quase só pelo título, chama-se The Beautiful Indiference, na capa tem uma mulher de costas, nua, expectante ou desistente, aprisionada ou entediada, magra, melancólica, marcada, talvez não seja uma mulher mas uma estatueta, uma alegoria, a bela indiferente, eis alguém que me convém.

Senhora Kübler-Ross

Já sabemos, há a negação, a raiva, a negociação, a depressão, a aceitação, been there done that, senhora Kübler-Ross, mas a senhora, com o devido respeito, deixe que lhe diga que a senhora se esqueceu da quinta etapa, a mais eficaz e estável, a senhora esqueceu-se da indiferença, senhora Kübler-Ross, não sentir nada é um luto imbatível, acho mesmo que se esqueceu disso, desculpe, senhora Kübler-Ross, não a queria incomodar, é só para dizer que está dispensada.

Lições

Percebi que não sou pior pessoa por não fazer de Gandhi. Percebi que devemos perder mais vezes do que devemos perdoar, para que a contabilidade não ofenda. Percebi que não tenho medo e que isso mete medo.

2011: Ficção estrangeira


















Anatomia de Um Instante, Javier Cercas, D. Quixote
Auto-de-fé, Elias Canetti, Cavalo de Ferro
Contos Escolhidos, Guy de Maupassant, D. Quixote
Correr, Jean Echenoz, Cavalo de Ferro
A Escavação, Andrei Platónov, Antígona
Ferdydurke, Witold Gombrowicz, 7Nós
A Livraria, Penelope Fitzgerald, Clube do Autor
Matadouro Cinco, Kurt Vonnegut, Bertrand
Pornopopeia, Reinaldo Moraes, Quetzal
Prosas Apátridas, Juan Rámon Ribeyro, Ahab

O ano editorial foi especialmente forte na ficção estrangeira. Recenseei nestas páginas os contos impiedosos de Askildsen, o melhor Houellebecq da última década e uma brilhante sátira de Waugh ao jornalismo. Acrescento agora estas dez ficções. Um momento decisivo na transição espanhola. Uma tragédia erudita. O maior contista francês. Um atleta modelo. Uma distopia soviética. O elogio da imaturidade. Uma subtil miniatura social. O bombardeamento de Dresden. Uma Ilíada da libido na língua de Camões. Textos por tudo e por nada. E acrescento outros dez títulos, em jeito de afinidade ou contraponto: Uma Espécie de Sono, de Henry Roth; Os Buddenbrook, de Thomas Mann; os Romances de Flannery O’Connor; O Homem que Gostava de Cães, de Leonardo Padura; Vida e Destino, de Vassili Grossman; Impressões de África, de Raymond Roussel; C, de Tom McCarthy; Catch 22, de Joseph Heller; O Filho do Desconhecido, de Alan Hollinghurst; Alvo Nocturno, de Ricardo Piglia.

[no Expresso de hoje]

2011: Ensaio

O Caderno Cinzento, de Josep Pla (Cotovia)
O Chalet da Memória, de Tony Judt (Edições 70)
Cidadãos, Simon Schama (Civilização)
Cinema Português - Um País Imaginado, de Leonor Areal, Edições 70
Crítica da Razão Cínica, de Peter Slojterdijk (Relógio D´Água)
Dicionário de Luís de Camões, coord. Vitor Manuel Aguiar e Silva (Caminho)
História da Vida Privada em Portugal, dir. José Mattoso (Temas e Debates)
Histórias de Imagens, de Robert Walser (Cotovia)
A Ilha de Sacalina, de Anton Tchekhov, Relógio D’Água
Mortes Imaginárias, de Michael Schneider (Cotovia)

2011: Portugueses

ENSAIO:  Tatuagem & Palimpsesto, de Manuel Gusmão (Assírio & Alvim)
POESIA: Um Teatro às Escuras, de Pedro Tamen (D. Quixote)
ROMANCE:  O Retorno, de Dulce Maria Cardoso (Tinta-da-china)
CONTO:  O Homem do Turbante Verde, de Mário de Carvalho (Caminho)

2011: Filmes



















Um Ano Mais, de Mike Leigh
A Autobiografia de Nicolae Ceausescu, de Andrei Ujica
Carlos, de Olivier Assayas
Fora-de-jogo, de Jafar Panahi
Indomável, de Joel e Ethan Coen
Matar para Viver, de Jerzy Skolimowski
Poesia, de Chang-dong Lee
Sem Destino, de Monte Hellman
Uma Separação, de Asghar Farhadi
Temos Papa, de Nanni Moretti

Um grande ano para o «naturalismo», ensaiadíssimo e tristíssimo em Leigh (e em Canijo, já agora); feito de uma subtil banalidade, em Farhadi e de banalidade comovente em Chang-dong Lee. Assayas revitalizou o docudrama, ensaiando uma bem-sucedida parceria com a televisão. De Panahi, detido pelo regime iraniano, e autor de um original e engenhoso acto de resistência chamado Isto Não é um Filme, vimos finalmente Fora-de-jogo, de 2006, um protesto em tom agridoce e em que futebol, por uma vez, não significa alienação. Moretti, no ano em que Berlusconi foi despedido, filmou outro poder romano, o Papa, com uma simpatia melancólica estranha num confesso ateu. Os Coen provaram que a segunda vaga de westerns «revisionistas» se distingue pela lentidão (v. também O Atalho). Skolimowski fez uma obra abstractizante sobre um tema político. Ujica, um documentário de montagem magistral e assustador. E Monte Hellman, com uma camarazinha digital, voltou, no mais bizarro jogo de espelhos de 2011, é um filme sobre ilusões atrás de ilusões feito com as fragilidades de um estreante e a sabedoria de um mestre. 

Há alguns títulos ausentes desta lista e escolhidos como «do ano» por muito boa gente. Não me posso pronunciar sobre Aurora e As Quatro Voltas, que não vi. Mas confesso-me agnóstico nas três obras «devotas» dos últimos meses. Von Trier é sempre difícil de engolir, mas Melancolia volta a conjugar depressão clínica com pretensiosismo apocalíptico; não é grotesco, como Anticristo, mas é inócuo e um pouco pateta. Filme Socialismo é mais do mesmo do «Godard tardio», um Godard que abandonei depois do sublime Histoire(s) du cinéma, que me parece agora ruminante, repetitivo, aleatório, às vezes um pouco embaraçoso na poetização de um desencanto que já nem sequer é «militante». Malick deu o passo em frente, do panteísmo extasiado dos últimos filmes para o deísmo grandiloquente; gosto muito dos fragmentos de uma infância e de algumas imagens assombrosas, mas A Árvore da Vida exige mais do que admiração, exige devoção, e eu não comungo dessa fé.

2011: Discos

















Smoke Ring For My Halo, Kurt Vile 
C'mon, Low
Let England Shake, PJ Harvey 

(in progress)

Eros


















Watts, Dunst. Blunt, Portman, Pike, gosto sempre das mesmas de ano para ano. Keira Knightley e Eva Mendes entraram no filme de que mais gostei este ano por razões não-fílmicas, A Última Noite; Jennifer Aniston, a quem não ligava muito, está uma quarentona de apetite, além de ter uma desenvoltura cómica invejável. Até apreciei Amanda Seyfried, o que é preocupante. E alvíssaras, a menina Judith Godrèche voltou. Entre as dez actrizes que escolhi (o critério aqui é mais estético) há algumas revelações absolutas, umas quantas confirmações e Elena Anaya, sobre quem o meu cardiologista me impede de discorrer.

Elena Anaya, em A Pele Onde Eu Vivo
Shannyn Sossamon, em Sem Destino
Rose Byrne, em A Melhor Despedida de Solteira
Bryce Dallas Howard, em 50/50
Jessica Chastain, em A Árvore da Vida
Mila Kunis, em Cisne Negro
Felicity Jones, em A Tempestade
Amber Heard, em Hospício
Haley Bennett, em Alucinação
Analeigh Tipton, em Amor, Estúpido e Louco


[para o Miguel ilustrar]

Thanatos


















Os meus mortos do ano são em geral aqueles sobre quem escrevi de imediato alguma coisa: este ano, foram os escritores empenhados Jorge Semprún, Ernesto Sabato, Christopher Hitchens e Vaclav Havel, aos quais acrescento agora Christopher Logue, que nos deu a Ilíada num inglês endiabrado; e o estruturalista lúdico Gilbert Adair. E Christa Wolf, cujo diário comecei a ler há dias; Wilfrid Sheed, de quem li os Essays in Disguise; e o inclassificável Russell Hoban. Entre os artistas, escreverei em breve sobre o meu favorito Lucian Freud (também deixei aqui breves referências a Richard Hamilton e Cy Twombly). No cinema, morreu uma vintena de nomes importantes, e do meu panteão faziam parte em especial Peter Falk e o Sidney Lumet da fase tardia (além disso, continuam a desaparecer os actores clássicos, a Taylor, a Russell, Farley Granger). Na política, há a celebrar várias mortes, faleceu muito facínora nos últimos tempos, mas deixo aqui uma homenagem a esse «velho europeu» que era o impecável Otão de Habsburgo, e a Daniel Bell, autor de The End of Ideology. E porque a criação artística não está desligada do resto da vida, uma palavra final para Suze Rotolo, porque uma pessoa que originou canções de Dylan não viveu em vão.

12/29/2011

Em partes iguais












Berry, Buck, Mills e Stipe despediram-se de vez com uma antologia chamada Part Lies, Part Heart, Part Truth, Parth Garbage 1982-2011. É um álbum de fotografias antigas, que vou folheando e reconhecendo, psicadelismo etéreo de «Gardening at Night», a convicção fulgurante de «Begin the Begin», a fúria teatral de «The One I Love», a mágoa a dois de «Country Feedback», a fragilidade carnal de «Nightswimming». Não imagino a minha história sem estas canções 83-92, que foram as minhas canções 93-06, é curioso, comecei depois deles e acabei antes, e a minha antologia é também feita de mentiras, coração, verdade e lixo. Em partes iguais. 

Sociedade (2)















There is such a thing as a society. A sociedade é um covil de murmuradores. Juntam-se todos «para parecerem mais». Não sabem como a solidão é um fraco espantalho. Querem ter a alma lavada e a boca cheia de merda. Não se levantem, meus senhores, estou só de passagem.

Sociedade

Society is my friend
He makes me lie down
In a cool blood bath
Oh, society
(...)

Society is all around
Aw, hear the beautiful sound
Of all the high-pitched squeals
Ecstatic brilliance at its finest 
That's my friend 
Society is all around
It takes me down 

Society is my friend
He makes me lie down 
Down

[Kurt Vile]

12/27/2011

O fim da crise


















A segunda sessão do ciclo «O fim da crise» é já amanhã e terá como tema «O amor».  De Barthes a Bauman, passando pelo Facebook e as moranguitas. Uma conversa moderada por Pedro Mexia, com a fadista Aldina Duarte, a psicóloga e sexóloga Patrícia Pascoal e o crítico João Lopes. Leituras pela actriz Sónia Balacó. Dia 28 de Dezembro, às 18.30, no Jardim de Inverno do Teatro Municipal São Luiz, em Lisboa. Entrada livre.

12/22/2011

Luz de Inverno


















(...) A carta é da professora da escola local, Märta Lundberg. Ela anda sempre pela igreja, a tratar de Tomas, gozam com ela por causa disso. Na carta, conta finalmente a Tomas que o ama. Ela, que não acredita na religião, acredita no amor. Teve um caso com Tomas um ano antes, mas ele deixou-a, supostamente repugnado com a urticária dela, espécie de estigma laico. Agora, ela insiste. Pede-o em casamento, e a actriz Ingrid Thulin diz o texto para a câmara, num plano ininterrupto de seis minutos, era parecida com a mulher que eu amava quando vi Luz de Inverno há quase vinte anos, tem uns olhos magoados, uma boca maravilhosa, diz que precisa de viver para alguém, entrega-se: «Pedi uma tarefa, e a tarefa és tu». (...)

[amanhã, no Expresso]

12/21/2011

A family of trees wantin' to be haunted

12/19/2011

Pessoal

Leio com frequência nos jornais a expressão «amigo pessoal». Parecia-me uma redundância, mas depois lembrei-me de que tenho alguns amigos impessoais.

Gossip boy

12/18/2011

Vaclav Havel 1936-2011

«Um espectro assombra a Europa de Leste», escreveu Havel, «o espectro da dissidência». Quando eu era miúdo, os heróis do anticomunismo chamavam-se Walesa e Havel. Walesa era o operário franco e impulsivo. Havel, o burguês tímido, afável, irónico e cheio de dúvidas, um bom modelo. Com Havel e com Kundera eu percebi o que era «bloco socialista», não apenas um despotismo, isso já sabia, mas também o domínio do kitsch e da verdade enquanto farsa. Havel explicou que a «verdade», na esfera soviética, era um conceito com curso legal mas com uma lógica abstrusa. Por isso, chamou à Checoslováquia o «absurdistão». Defensor incansável da ideia de «responsabilidade», também demonstrou coragem prática, e depois de encabeçar a plataforma de direitos humanos Carta 77 esteve várias vezes preso. Beckett dedicou-lhe então uma peça política, uma das poucas que escreveu, Catástrofe. Na minha estante, os escritos políticos de Havel estão ao lado de Camus e Orwell, exemplos morais em século imoral. O seu teatro conheço mal, li apenas um volume de peças editado em português e Largo Desolato (1984); em ambos os casos gostei do estilo absurdista, umas vezes contido e alegórico, outras delirante e virtuoso, textos tão divertidos e terríveis como os de Ionesco e Kafka. No último terço da sua vida, Havel passou de dissidente a presidente. Foi depois da «Revolução de Veludo» de 89, um nome com conotações curiosas; Havel era um fã dos Velvet Underground, e argumentava que um regime, como o checo, que persegue o rock, é fatalmente iníquo, porque quem começa a proibir cabeludos e decibéis acaba a proibir ideias e modos de vida. Dissidente impecável, Havel revelou-se um presidente mediano. Relutante face ao jogo político, pareceu inábil nalgumas tomadas de posições, pouco dado ao clima conspirativo, talvez demasiado «idealista», hostil ao revanchismo, imune à beatice capitalista. Ida e Volta do Castelo (2007) é uma análise lúcida desses anos. A secessão da Eslováquia entristeceu-o. Apadrinhou todos os acordos pró-ocidentais. E manteve uma confiança céptica que nunca esquecia as lições históricas. Vaclav Havel continua a ser um dos meus heróis, falível mas justo, não há melhor epitáfio para uma vida pública.

Rock 'n' roll
















Let me tell you about defeatism. Defeatism is turning disaster into a moral victory.

 [«Ferdinand» / Havel, em Rock 'n' Roll, 2006, de Tom Stoppard]

Uma espécie de protagonista

«I am not Prince Hamlet, nor was meant to be», diz o senhor Prufrock. Nada de sonhos tão altos, de facto. Nem charme nem tragédia, algo mais comezinho. Uma personagem menor, adjuvante, um comparsa, quase um figurante, com gestos modestos e úteis: : «an attendant lord, one that will do / To swell a progress, start a scene or two, / Advise the prince; no doubt, an easy tool»; que diabo, não é um destino terrível, embora, verdade se diga, tenhamos em utilidade o que nos falta em dignidade: «Politic, cautious, and meticulous; / Full of high sentence, but a bit obtuse; / At times, indeed, almost ridiculous— / Almost, at times, the Fool». Mas numa tragédia, talvez o bobo, com a sua lucidez demencial, seja uma espécie de protagonista.

Velocidade

O taxista mete as mudanças demasiado tarde, o carro range em protesto, e ele continua assim a viagem toda, é exasperante, como se fosse surdo ou não soubesse conduzir. Não digo nada, não tenho autoridade: às vezes demoro anos a mudar de velocidade.

Após muitas lavagens


















Após muitas lavagens, percebi que o problema dela não era a sujidade mas o material de que era feita.

Uma estreia

Chego ao fim de um ano civil sem ter sido agredido por pessoas de quem gosto. É quase uma estreia.  

12/17/2011

But ask me why and I'll spit in your eye

Para o ar

É preciso estar acima de quem nos cospe, para fazer com que cuspam para o ar.

Happy enough

«Não espero muito, não dou muito, não recebo muito, sinto-me satisfeito com o pouco que tenho». Anotei isto num caderno, com o título «Happy enough». É o diálogo de um filme, não sei qual, não tomei nota, sinal talvez de que era esquecível. Há vinte anos, nem teria reparado nessa fala, ou se reparasse era para a declarar «abominável». Hoje direi que não me parece mal de todo, não subscrevo por inteiro a formulação mas percebo o conceito «happy enough», há frases que agora entendo e que dantes eram simples cuspo.

12/16/2011

Hitch é grande

Admirava o Hitchens prolífico, erudito, articulado, veemente, corajoso, divertido. E o seu estilo vigoroso e quezilento. Apreciava o orwellianismo desafiante, o combate contra o totalitarismo, tanto na fase de socialista inglês dissidente como no período americano. Hitchens foi uma das primeiras figuras da esquerda intelectual a tirar conclusões das fatwas, dos homicídios, dos atentados. Percebeu quem era o principal inimigo da liberdade, e isso valeu-lhe o ódio de quem o idolatrava e a idolatria de quem o odiava. Confesso porém que a sua retórica de convertido me deixava em geral frio. Em compensação, apreciava o seu ateísmo, dos profetas ateus era talvez o único que sabia fazer da missionação laica um bom entretenimento. Em Hitchens, achava graça à clique de amigos famosos, à caterva de ex-amigos igualmente célebres, à vontade de atacar figuras benquistas. E ao trotskismo champanhês, ao sotaque de menino bem reconvertido, ao visível hedonismo etílico e desmazelado. Cansava-me o Hitchens fanfarrão, arrivista, inconstante, polemista compulsivo, ávido de publicidade. Tenho pena que toda a gente conheça as opiniões políticas dele mas poucos leiam os ensaios magistrais que escreveu sobre Waugh, Green ou Larkin, os meus ingleses, mas sei que a política come tudo em volta. Hitchens nunca foi um dos meus heróis, mas tornou-se um velho conhecido, um dos colunistas que eu lia com mais frequência, naquelas publicações todas onde escrevia, e eu lia sempre com vontade de gostar, sempre certo de que ia ficar impressionado, animado, incomodado, convencido. Hitch era grande.

Christopher Hitchens 1949-2011















Depois de Tony Judt, outro grande intelectual público morreu após uma doença prolongada que ele mesmo nos foi contando. No último artigo que escreveu para a Vanity Fair, Christopher Hitchens confessa que a experiência do cancro o fez duvidar do ufano aforismo «Aquilo que não me mata, torna-me mais forte». E deixa-nos a interrogação: o que é que essa frase pode ter significado para o próprio Nietzsche, um homem que acabou sifilítico e demente? «(…) I have slightly stopped issuing the announcement that “Whatever doesn’t kill me makes me stronger.” / In the brute physical world, and the one encompassed by medicine, there are all too many things that could kill you, don’t kill you, and then leave you considerably weaker. Nietzsche was destined to find this out in the hardest possible way, which makes it additionally perplexing that he chose to include the maxim in his 1889 anthology Twilight of the Idols. (...) / In the remainder of his life, however, Nietzsche seems to have caught an early dose of syphilis, very probably during his first-ever sexual encounter, which gave him crushing migraine headaches and attacks of blindness and metastasized into dementia and paralysis. This, while it did not kill him right away, certainly contributed to his death and cannot possibly, in the meanwhile, be said to have made him stronger. (…) / Eventually, and in miserable circumstances in the Italian city of Turin, Nietzsche was overwhelmed at the sight of a horse being cruelly beaten in the street. Rushing to throw his arms around the animal’s neck, he suffered some terrible seizure and seems for the rest of his pain-racked and haunted life to have been under the care of his mother and sister. (…) The most he could have meant, I now think, is that he made the most of his few intervals from pain and madness to set down his collections of penetrating aphorism and paradox. This may have given him the euphoric impression that he was triumphing, and making use of the Will to Power. Twilight of the Idols was actually published almost simultaneously with the horror in Turin, so the coincidence was pushed as far as it could reasonably go».

[«Trial of the Will», Vanity Fair, Janeiro de 2012]

12/15/2011

Blur















Retrospectiva Richter na Tate. Não me interessa nada aquele Richter que mal conhecia, as experiências dadaístas, cromáticas, abstractas, os espelhos e as geometrias, quase tudo foi feito melhor por outros artistas, é muito entediante. Em contrapartida, gosto, já sabia que gostava, do Richter «pop de esquerda», o discurso crítico sobre o capitalismo, o turismo, o consumismo, o passado nazi mal superado, gosto dos readymades brilhantes e retrabalhados, quase posters, quase ícones, sejam bombardeiros durante a guerra, anúncios de automóveis ou os Baader-Meinhof mortos, é uma espécie de tabloidismo elitista, distanciado, austero. E gosto acima de tudo dos quadros pintados a partir de projecções de fotografias, evocando as duas materialidades, nas pinceladas e no desfocamento, essa mancha fantasmagórica, quase um ectoplasma, e que faz das pessoas mais concretas e identificadas meras assombrações, dizem-nos quem são ao mesmo tempo que as rasuram, como se a memória fosse um acto imediato, que presentifica o passado esfumado e desfaz o presente. Richter pintou várias mulheres com uma mancha em cima, bem o entendo.

Hábito

Descubro, numa conversa, que uma pessoa que eu conheci há uns anos mantém um comportamento impecável para comigo, apesar de termos perdido contacto por completo, e de imediato escondo o embaraço com uma graçola, já não estou a habituado a gente decente.

Rattigan

Conheço algumas adaptações ao cinema de peças de Rattigan, como The Winslow Boy e The Browning Version, e li umas páginas inacabadas Separate Tables e Cause Célèbre, mas acho sempre tudo muito entediante; pergunto-me se é mesmo um tédio, ou se estou influenciado pelo saneamento estético de que Rattigan foi alvo. A verdade é que fui ver a recente versão cinematográfica de The Deep Blue Sea, e metade das pessoas saiu a meio, enquanto a outra metade ria ou bufava, em especial quando as personagens discutiam os seus dramas conjugais em linguagem antiquada. Estamos a ser injustos com Rattigan? Ou a homenagear Tynan?

Pim pam pum

Almada assassinou Dantas: «O Dantas em génio nunca chega a pólvora seca e em talento é pim-pam-pum». Truffaut escreveu que o «realismo psicológico» francês sofria de falta de realismo e falta de psicologia, aniquilando de uma penada cineastas como Jean Delannoy, Claude Autant-Lara e Yves Allégret. Kenneth Tynan arrasou os drawing-room dramas de Terence Rattigan, chamando-lhes peças conformistas, falsas e serôdias. Em consequência desses enxovalhos, as obras desses autores foram praticamente varridas. Rattigan eclipsou-se, e mesmo o actual revival conta com o desdém certo das classes intelectuais. Almada, Truffaut e Tynan foram injustos? É difícil dizer, porque os seus textos terroristas levaram a uma espécie de saneamento cultural, de modo que Dantas não existe de todo nas livrarias e Delannoy está guardado em latas nas cinematecas. Confiamos na certidão de óbito, e nem temos curiosidade de espreitar o cadáver.

Semana inglesa

Entre os géneros mais comuns no teatro inglês contam-se a farsa, o dramas «kitchen sink», e a «peça inquietante». De férias em Londres, aconteceu ver espectáculos desses três géneros.

Noises Off [Old Vic], de Michael Frayn, estreou-se em 1982, e desde então tem sido considerada uma obra-prima da comédia, «a peça mais divertida das últimas décadas», escrevem diversos críticos. É um grande exagero. Frayn juntou, com inegável brio, a farsa com a «peça dentro da peça»; mas não me ri mais nem menos do que em outra qualquer comédia escorreita e bem cronometrada. A farsa é um género ao mesmo tempo previsível e virtuosístico: depende da execução perfeita de entradas e saídas, gaffes, acidentes, maçanetas, telefones, lençóis, estaladas. A produção que vi organizava tudo isso com competência mas sem chama. O espectáculo melhora com a introdução da peça dentro da peça, sobretudo porque vemos a repetição do primeiro acto a partir dos bastidores. Aí, Frayn mostra o cruzamento do teatro com a vida real daqueles que o fazem mas também exibe a ilusão teatral como uma técnica. É o que tem mais graça: enquanto a farsa é conformista, mas a desconstrução é crítica e divertida.

Quanto ao «kitchen sink», inaugurado pelos «angry young men», dei com uma peça chamada justamente The Kitchen Sink [Bush]. O quase estreante Tom Wells retoma o realismo social nortenho dos seus antecessores de há décadas, mas agora em versão «sweet young man»: aqui não há revolta contra a sociedade mas uma compaixão poética tributária por exemplo de Shelag Delaney. Os protagonistas são uma família de classe trabalhadora, e vivem com algumas dificuldades e uma grande entreajuda numa cidadezinha costeira do Yorkshire, um sítio «bom para nascer mas mau para viver», diz a mãe. As dificuldades económicas e os dramas privados de cada um são tratados com humor e ternura, e sem qualquer contexto político, o que talvez seja surpreendente nesta altura do campeonato. Wells romantiza um pouco a «virtude dos pobres», como é costume, mas consegue escrever uma peça que conta as atribulações banais de cinco boas pessoas, e que, ainda assim mantém viva a nossa empatia. Muitos «homens zangados» não conseguem metade disto.

A «peça inquietante» foi Haunted Child [Royal Court], de Joe Penhall, um dos mais prestigiados autores da penúltima vaga. Um espectáculo do Royal Court traz a inquietação no caderno de encargos, mas desta vez Penhall escolheu um tema frouxo: um homem apanhado na engrenagem de um culto new age. O fanatismo das seitas é um alvo demasiado fácil, e tira quase toda a tensão a Haunted Child: estamos sempre do lado da família do homem tresloucado, e ele suscita apenas piedade,ou nem isso. Penhall escreveu há uns anos uma peça sobre a esquizofrenia, e Haunted Child pode ser sobre a «crença» enquanto patologia; mas nem esse estratagema convence. Ou talvez este texto tenha ecos da sua adaptação para cinema de A Estrada, de Cormac McCarthy. Daí nasceu talvez a ideia forte de que as crianças são «assombradas» pelo comportamento dos pais, seja em que domínio for, e que um pai ou uma mãe não pode procurar certezas pessoais à custa da segurança dos filhos. Uma conclusão estranhamente conservadora para o Court. Não é por acaso que Penhall dedica a peça ao seu filho William.

Civilização

Os ingleses são simpáticos? São bem-educados, o que é melhor. Não vale a pena entregarmos à natureza as tarefas que a civilização cumpre eficazmente.

Anatomia (2)


















A actriz inglesa Anna Friel contou ao Sunday Times que recentemente perdeu dois papéis cinematográficos que esperava ter conseguido, num caso porque a consideraram «too pretty» e noutro «not plain enough».

Y

Claro que não funcionou: ela tinha um cromossoma Y a mais, e eu um Y a menos.

Anatomia












A trilogia «anatómica» de Neil LaBute é, parece-me, uma oportunidade perdida. Li as três peças e depois vi várias encenações, a última das quais no Almeida, em Londres, onde LaBute é uma estrela. Em The Shape of Things (2001), um rapaz pouco atraente muda a sua configuração física, à força de dietas, exercício e cirurgia, com o intuito de agradar à sua namorada atraente, mas descobre que o namoro e as mudanças faziam parte de um «projecto» de fim de curso. Em Fat Pig (2004), um jovem de sucesso inicia uma relação amorosa com uma bibliotecária gorda, mas mantém o caso secreto, porque tem vergonha do aspecto dela. Em Reasons to be Pretty (2008), um homem refere-se à namorada como «normal», em oposição a outra mulher, essa sim «bonita», e alguém conta essa frase à namorada, que o deixa. LaBute encara de frente o tema da «obsessão com a aparência», e tem a coragem de explorar temas desagradáveis, propensões inconfessáveis e instintos cruéis. Mas o seu moralismo estraga tudo, a começar, nas edições em livro, pelos prefácios explicativos, ao mesmo tempo grandiloquentes e demasiado banais. Uma vez mórmon, sempre mórmon, dir-se-á do percurso de LaBute, que aliás se tornou «persona non grata» na comunidade; mas o enquadramento religioso não explica tudo. A ideia de que a «obsessão com a aparência» é uma psicopatologia parece-me um erro de base. Sobretudo se estivermos a falar de «aparência física». Não é possível conceber uma economia política da sexualidade sem que a aparência seja uma moeda de troca. A «aparência» como moeda pode ser um conceito revoltante para algumas almas sensíveis, mas decorre naturalmente da beleza enquanto valor. «Belo» não significa «bom», desde os gregos que abandonámos esse equívoco, mas o «belo» é sem dúvida um «bem». Desejamos pessoas fisicamente belas porque reconhecemos uma qualidade naqueles traços físicos que em cada época definem o «belo». O culto da beleza, longe de ser uma patologia, é um sinal de civilização. A atractividade física pode gerar vantagens darwinianas, mas no mundo da natureza a copulação não depende em geral de considerações estéticas. A beleza como factor de atracção, e portanto como critério de escolha sexual, não é uma exigência de primatas, mas uma opção de pessoas numa fase cultural avançada. Uma fase estética, precisamente. Podemos amar o feio, que por virtude do amor nos parece bonito; mas não amamos o feio enquanto feio, o impulso que nos atrai para uma pessoa faz com que reformulemos o conceito concreto de belo de uma forma mais favorável, valorizando detalhes, contrapondo o movimento à imobilidade, explicando que a experiência física implica subtilezas que a simples contemplação não capta. LaBute vacila um pouco nos argumentos. Em The Shape of Things, o exercício de modificação é bastante cruel, em parte por causa do engano malévolo, e no entanto a rapariga tem razão quando diz que ele ficou mais atraente por causa dela, que ganhou alguma coisa com a experiência. Fat Pig relembra que as relações sexuais existem em sociedade, e que há determinados padrões que são um obstáculo à felicidade individual, mas salta entre a sexualidade e o amor de forma demasiado confusa. E em Reasons to be Pretty, encerramento sentimental da trilogia, uma frases anódina e melindrosa revela que não há intimidade sem eufemismo, apesar de ficarmos com a sensação de que a ruptura podia ter acontecido por qualquer outro motivo. Não há muitos dramaturgos actuais que explorem temas tão pertinentes, mas LaBute sofre de uma aflitiva superficialidade, não leva nada até ao fim, nem a irrisão, nem a crueldade, nem a tragédia, há sempre um recuo moral, um recuo de mestre-escola, uma incapacidade para se reconciliar com verdades desagradáveis e torná-las agradáveis, uma visão meramente «sociológica» das «aparências», quando era preciso uma ideia «ontológica». A anatomia não é uma imposição, a anatomia é o destino.

Porteiros

Portam-se como hostis porteiros de discotecas onde eu nunca quis entrar.

12/14/2011

Haverá sangue

O homicida que ataca liceus e faculdades é uma das figuras da contemporaneidade. Talvez nenhum filme consiga superar Elephant nesse retrato, mas We Need to Talk About Kevin aproxima-se desse feito; é uma espécie de Elephant doméstico e fracturado. A escocesa Lynne Ramsay espantou-nos com os viscerais Ratcatcher (1999) e A Viagem de Morvern Callar (2002), e agora passa das classes baixas à classe média aborrecida, adaptando vagamente o romance de Lionel Shriver, mas retirando a estrutura epistolar e quase todos os diálogos. É um mosaico de memórias e alucinações, uma colagem de experiências e estados de espírito, um exercício disjuntivo, abstracto, puramente imagético, com uma lógica mais poética do que narrativa. Tilda Swinton, que passa o tempo assustada ou catatónica, é a mãe que tem um filho sem ter vontade de ter um filho, que muda a sua vida por causa disso, mas que, à força de não amar a criança, cria uma criança que não a ama, que a detesta, um sociopata que entra numa espiral de desobediências, chantagens, ofensas, terminando num massacre (que nunca vemos). O facto de Ramsay ser uma cineasta quase exclusivamente visual faz com que o filme evite a sociologia, sem evitar várias interrogações sobre o «porquê»; e a aproximação ao «terror» nunca se guia pelas regras do género, mas sugere que qualquer investigação sobre a condição humana é uma história de terror. Não admira que tenham comparado Ramsay a Haneke.

12/13/2011

A mighty stranger (3)




Wuthering Heights já foi adaptado ao cinema umas vezes vinte vezes, e por gente tão distinta como Wyler, Buñuel e Rivette; no entanto, não conheço nenhuma versão tão forte como a de Andrea Arnold. Depois de Sinal de Alerta (2006) e de Aquário (2009), sabemos que Arnold é uma das mais interessantes cineastas emergentes, e este monte dos vendavais confirma esse estatuto, com uma abordagem brutalista, in-yer-face, ao romance de Emily Brontë. Esta tragédia rural claustrofóbica, de caixão à cova, foi filmada num Yorkshire inóspito, com panorâmicas campestres mas poucos planos de conjunto nas cenas domésticas, câmara manual em cima dos actores, pouca iluminação, enquadramentos apertados e oscilantes, e uma igual atenção dada a humanos, cavalos, insectos, charnecas e ventania. É o romantismo a cru, todos os comportamentos são primitivos, instintivos, violentos, a paixão apenas mais um elemento feroz, e mantém-se selvagem mesmo enquadrada pela selvajaria, é a paixão enquanto fúria poética, insensata, letal. A transposição é tão segura que até a introdução de um Heathcliff negro não parece abusiva nem demagógica, serve de barreira adicional a um amor entre dois animais indomáveis, quase irmãos, quase amantes, crianças entretanto crescidas, no meio da escuridão, da lama, da tempestade. Arnold e a sua co-argumentista descarnam o romance até ao osso, o filme nunca parece uma «adaptação», muito menos uma «adaptação literária», não há quaisquer traços de pomposidade ou de sentimentalismo, o que é uma bela homenagem a Brontë. Apesar de ser um romance «vitoriano», Wuthering Heights (1847) tem uma pulsão romântica, está de certo modo desajustado do seu tempo, e portanto também do nosso, Wuthering Heights (2011) resolve esse problema criando um tempo primordial, intemporal, inclemente, um cenário à imagem e semelhança daquela magnífica obsessão.

A mighty stranger (2)























Give me hope in silence
It's easier, it's kinder
Tell me not of heartbreak
It plagues my soul, it plagues my soul
And bury me beside you
I have no hope in solitude
And the world will follow
To the earth down below

But I came and I was nothing 
Time will give us nothing 
So why did you choose to lean on 
A man you knew was falling?

12/12/2011

A mighty stranger (1)



















If all else perished, and he remained, I should still continue to be; and if all else remained, and he were annihilated, the universe would turn to a mighty stranger: I should not seem a part of it. 

Cordélia

«Que assim seja; que a tua verdade seja então o teu dote». Uma frase espantosa de Lear, dita como uma maldição dirigida à filha. Não posso ter mais simpatia pela decisão de Cordélia de não adular o pai, de não mentir, mesmo numa situação em que seria tão fácil, tão vantajoso, tão aceitável. Como ela não mente, fica apenas com a verdade, com a sua verdade, que se torna então numa espécie de castigo. A verdade é o teu dote. E esse castigo vale mais do que todos os prémios.

Últimos poemas

Peter Reading publicou poesia crua, erudita, zangada e meticulosa. Em 1994, editou uma colectânea chamada Last Poems. Não foram os últimos, houve outros, até Vendange Tardive, vindima tardia, de 2010. Mas eram todos últimos poemas. Reading, socialista insociável, indignado e misantropo, dedicou-se nas últimas duas décadas aos temas apocalípticos, a guerra, o cancro, as catástrofes ambientais, a extinção da espécie. Quando morreu, há dias, um obituário lembrava os Last Poems e dizia que ele andava há vinte anos a escrever poemas «como já se tivesse morrido». E que mal tem isso?

Paradoxo londrino

O Dr. Johnson escreveu que quem está cansado de Londres está cansado da vida. Eu nunca me canso de Londres, e há muito que me cansei da vida. Porém, só desisti de Londres.

12/04/2011

London calling


39

É um bem que me roubem e explorem;
um bem que saibam quanto valho (nada); 
um bem que espreitem, que circulem 
incólumes, que amedrontem e persigam;
um bem que me desprezem e destruam
e um bem maior ainda que me ignorem,
porque é preciso pagar, e caro, a vida.

[António Osório, «Trinta e nove anos»]

12/03/2011

Ler como um derrrotado

Durante muitos anos, conheci de perto os nietzschianos, e impressionava-me a «vontade de poder» deles e delas, uma vontade de que nunca partilhei, não é mérito nem demérito meu. A vontade de poder formulada pelo alemão é a expressão natural da força, e eu fazia parte dos fracos, pelo que isso não me dizia respeito. A vontade de poder é também resistência ao sofrimento, capacidade que na altura pensei que não tinha. E é ainda imunidade à piedade. Não é um detalhe: não há vontade de poder sem indiferença à piedade. Eu observava o desdém que eles e elas tinham pela piedade e achava exibicionista, escusado, julgava que podiam abdicar disso sem grande sacrifício, mas claro que não podiam, de modo nenhum, uma pessoa forte que seja sensível à piedade fica contaminada pela doença dos fracos. Segundo Nietzsche, a compaixão aumenta o sofrimento, uma vez que aumenta o número de pessoas em sofrimento. E a compaixão é um mecanismo que multiplica os pontos de vista e estilhaça a unidade do ego. Há que ter cuidado. O forte pode ser compassivo para com o fraco por simples gesto aristocrático ou asceta, ou para ganhar ainda mais ascendente sobre o fraco; mas quem é forte não se pode deixar dominar por quem é fraco, e não pode sobretudo aceitar o discurso da piedade, que segundo Nietzsche é um discurso débil, próprio de mulheres e de cristãos. Exercer a piedade, poupando os fracos, é contrariar as regras da evolução, deixar para trás os melhores elementos da espécie em favor da sobrevivência dos inaptos. Já nesse tempo eu lia Nietzsche «como um derrotado»: ou seja, interpretava o mundo de um modo que me era desvantajoso; mas tinha um entendimento incompleto da vontade de poder, que via como uma cedência ao desejo, quando não é nada disso. A vontade é uma decisão racional, ética, uma decisão de querer determinadas coisas. E de as querer através da força e não através da fraqueza. Nietzsche diz que os fracos são bons porque não têm força suficiente para serem maus, e demorei demasiado tempo a perceber isso, enfeudado no meu cristianismo pueril. Por isso esperava que os fortes deixassem de ser impiedosos connosco, sem saber que assim se tornariam um Sansão sem cabelo, despojados da raiz do seu poder. Elas e eles eram fortes porque nos desprezavam. Alterar isso era alterar a origem das espécies.

 [lendo Anti-Nietzsche (2011), de Malcolm Bull]

Póstumo

Faleci aos 33. Tem um certo estilo. Pelas regras mortuárias, já devia estar desfeito, os restos devolvidos a quem os reclamasse, se fosse o caso. Mas quase seis anos depois, o cadáver não se decompôs, não se decompõe. Para morto, estou bestial.

12/02/2011

Soneto à morte de Pedro Mexía

«Quem jaz morto aqui?» «Pedro Mexía».
«Pedro Mexía morreu?» «Diz antes que morrendo
começou agora a viver, porque vivendo
fora de onde agora vive, não vivia.

«Foi cavaleiro?» «Sim». «E de que entendia?»
«Ora o céu, ora o mar ia medindo
ora de Carlos Magno escrevendo
a fama de ambos, que imortal fazia».

«Mas se Alexandre chorou as memórias
famosas que de Aquiles escreveu Homero,
como não chora César tão grande falta?»

«Porque aquilo que escreveu de suas histórias
basta para dar fé naquele fim último e vero
e tal nunca alcançou pluma tão alta». 


[Gutierre de Cetina (1520-1557), i.m. Pedro Mexía (1497-1551),
versão de Pedro Mexia (1972-?), pluma tão baixa]

Clever swine

Fazia-me impressão aos vinte anos este «Yes, you're older now / And you're a clever swine / But they were the only ones who ever stood by you». E agora, quase com o dobro da idade, reconheço que é tudo verdade: estou, sou, foram.

12/01/2011

Toque de caixa

Dois tipos de ilusão

Sou dado a dois tipos de ilusão: às vezes acredito que não tenho uma biografia, e outras vezes acredito que tenho uma vida.

Jenny Beckman

Nota do autor: O que se segue é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Especialmente contigo, Jenny Beckman.

[aviso prévio em (500) Days of Summer (2009), de Marc Webb, escrito por Scott Neustadter e Michael H. Weber]