Chicago boys
Lembrei-me do meu primeiro amigo «liberal», nem conservador nem esquerdista, à época havia poucos. Dávamo-nos bem, excepto quando discutíamos política. Fazia-me alguma impressão que ele reconduzisse tudo, absolutamente tudo, a um raciocínio económico, como se não existissem outras variáveis. Aliás, mesmo fora da política ele não admitia factores que não esse. Nada naquele homem era não-económico. Eu chamava-lhe «marxista de direita». Ele chamava-me ingénuo. Lembrei-me dele quando dei com esta passagem de Flaubert: «A mesure que l’humanité se perfectionne l’homme se dégrade. Quand tout ne sera plus qu’une combinaison économique d’intérêts bien contrebalancés, à quoi servira la vertu?». Esse meu amigo acreditava na «perfectibilidade» da espécie, uma perfectibilidade que se processava através da «economia de mercado», a qual satisfazia as nossas necessidades e se adequava à nossa natureza. Ele acharia a palavra «virtude» vaga e inútil, enquanto eu, à época, lutaria por ela. Como envelheceram mal, o optimismo dele e o meu.

<< Página inicial