Na cidade dela
Não podia ter gostado mais de Na Cidade de Sílvia (2007), do catalão José Luís Guerin. Tem o gosto pelos jogos de sedução de Rohmer e, como Bresson, usa toda a gramática fílmica. Não há intriga, os diálogos são escassos, e tudo se concreta em sons, olhares, detalhes, numa geometria sentimental imaculadamente construída. Há um rapaz que procura uma rapariga, que terá sido sua namorada, ou nem isso, e que se chama Sílvia (como a amada de Leopardi). Vai à procura dela em Estrasburgo, uma cidade plácida e elegante, onde ela estuda. Sentado no café do Conservatório, o rapaz espera rever Sílvia, mas enquanto não a vê vai observando e desenhando as outras raparigas, atento a ínfimos sinais, perscrutador, insinuante. É um jovem belo, narcisista, ocioso, que se entrega ao prazer de ver mulheres. Então aparece Sílvia, ou ele julga que é Sílvia, e persegue-a como um doido, como um stalker, pelas intrincadas ruas interiores de Estrasburgo, até ganhar coragem de falar com ela, a sua ex, que afinal não é ela, não é Sílvia. E é só. Um filme simplicíssimo e sofisticadíssimo, preparado ao pormenor, esteta, hedonista, graciosamente formalista. Uma «quête» primaveril, ligeira, com o grau exacto de exaltação romântica, lubricidade casta, espera confiada e sofrimento lúdico. Não se pode pedir mais.


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