1/20/2012

Quem não tem medo

(...) Albee é exímio na mudança de registo, passa-se do insulto mais infamante à gargalhada, das ameaças às citações em Latim, há canções, onomatopeias, berros, empurrões, ternuras, vinganças. Martha e George passam rapidamente à guerra total, e tudo o que dizem é destrutivo, talvez irremediável. Uma coisa é um casal utilizar adjectivos indelicados ou lembrar episódios desagradáveis, ou mesmo imagens psiquiátricas e zoológicas, e eles fazem isso em grande; outra coisa é dizer «para mim é como se estivesses enterrada em cimento até ao pescoço». 

Claro que eles gostam daquele jogo, e Martha confessa que George gosta tanto dela que «aprende os jogos que jogamos à velocidade a que eu mudo as regras». Ou seja, Albee não está a denunciar o «casamento burguês» como um logro mas a admitir que qualquer relação amorosa tem componentes sádicas e masoquistas. Que não passam apenas pela agressão e a retaliação, mas por estratégias mais subtis, como diferentes versões do passado, tréguas tácticas e fantasias mais ou menos consensuais, que no caso de George e Martha consistem num filho que não puderam ter e de que falam como se existisse. 

Os três actos indicam três mudanças de jogo, primeiro vem o divertimento, depois a assombração, depois o exorcismo. Cada um joga, à vez, impõe as suas implacáveis regras e os seus pactos precários, do «male bonding» à sedução para ferir terceiros, passando pelo jogo dos jogos que consiste em não sabermos o que é verdade e o que é ilusão. Martha e George amam-se. Ele, diz ela, «é tolerante, o que é intolerável, é gentil, o que é cruel, compreende, o que é incompreensível». É desta ambiguidade, desta contradição, que todos temos medo, e se não temos devíamos. (...)

[amanhã, no Expresso]