Theo Angelopoulos 1935-2012
Só conheço a filmografia de Theo Angelopoulos posterior a 1986, a O Apicultor, um dos meus filmes favoritos. É um cinema que só entendemos em parte, tantas são as referências minuciosas á história e cultura gregas; em compensação, e precisamente por ser um cineasta grego, Angelopoulos tinha um invulgar talento para tornar referências específicas em horizontes alegóricos, e reconhecemos arquétipos da mitologia e do teatro, alusões aos grandes poetas gregos modernos, dimensões universais que no entanto partem sempre de noções específicas de comunidade, fronteira, paisagem, da paisagem rural desertificada aos mundos suburbanos, e chegando até às querelas dos Balcãs. Confesso que sou agnóstico em matéria de plano-sequência, não creio haja uma única forma de découpage, mas Angelopoulos filmava admiravelmente takes longos, às vezes em cenas de multidões, às vezes em desolação quase muda. E súbitas aparições majestosas, inquietantes, bocados de monumentos, um dedo apontado transportado em helicóptero, uma estátua de Lenine demolida. Este grego era ao mesmo tempo épico e lírico, o que não é dizer pouco. Se nos filmes que dele conheço a noção de odisseia é forte, não é menos forte a ideia de incompletude. É trágico que tenha morrido (atropelado) antes de terminar uma trilogia que chegava à Grécia dos dias de hoje e que certamente não deixaria de investigar um conceito grego que domina o mundo: κρίσις / krisis / crise.

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