Um terceiro deus
Já aqui escrevi uma nota sobre Red, a peça de John Logan. Vale a pena vê-la agora no Teatro Aberto, em especial pelo fantástico Rothko de António Fonseca, um papel que na produção americana foi de Alfred Molina. Além da questão da «pureza» da arte face ao vil «comércio», Red apresenta um paradigma conhecido: o artista tão sério que se torna detestável. Os textos que li de Rothko não deixam qualquer dúvida sobre o facto de se tratar de um homem cultíssimo, cerebral, com horror à frivolidade; mas isso também significava (Logan explora isso bem) que tinha um discurso frequentemente pretensioso, sacerdotal, furibundo e bastante obtuso quanto ao mundo moderno. Não é apenas a velha ideia do intelectual superior que se permite ser humanamente intragável; Logan explora mostra alguém que vive integralmente «a tragédia na cultura», e para quem a criação, como dizia o outro da revolução, não é um chá dançante. É verdade que Mark Rothko, burguês, reservado, rabínico, era muitas vezes aproximado do modelo «apolíneo», tal como se diz na peça; mas a sua pintura, por mais geométrica e cromaticamente severa que seja, exprime um furor dionisíaco. Rothko não era um hedonista, muitos menos um ironista, era um possesso, embora um possesso que procurava manter controlo absoluto sobre aquilo que fazia. Nem Apolo nem Dioniso, mas qualquer coisa como um terceiro deus.


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