2/07/2012

CK














Louis CK tem uma dívida a George Carlin quando discute o nosso trauma com a linguagem, sejam os «palavrões» sejam os eufemismos do «politicamente correcto». Tem uma dívida a Larry David quando confessa os mais inconfessáveis impulsos anti-sociais e anti-domésticos, incluindo alguns comentários terríveis sobre a paternidade. E tem uma dúvida para com todos os comediantes gordos, quando usa as mais detalhadas vicissitudes do seu corpo como forma de auto-depreciação e auto-repulsa. É um cómico violento em tempos violentos, mas a sua teatralidade quase sem efeitos tem em nós o efeito de querermos acreditar que se trata apenas de uma personagem, que ninguém realmente diz «escarumba», odeia crianças ou tem uma vida sexual tão grotesca. E é claro que CK é uma personagem, mas ao mesmo tempo ele confessa que apenas exagera, e que seria incapaz de dizer alguma coisa que não sentisse, que não lhe acontecesse, que não fosse uma tentação, um desafio, uma angústia. Louis CK é um radical mas transporta uma espécie de mansidão, é um revoltado por inquietude, e não por asco, é um bom tipo com maus pensamentos.