2/26/2012

Erland Josephson 1923-2012
















Enquanto «sueco» adoptivo, tive Erland Josephson como um dos meus modelos. Em inúmeros filmes de Bergman ele fez de intelectual introspectivo, céptico, irónico, melancólico, inquieto, tudo aquilo que sempre associei às características-tipo de um intelectual, enquanto género humano, não enquanto figura pública. Josephson nasceu numa família burguesa culta (o pai tinha uma livraria), e além do seu trabalho como actor e encenador, escreveu romances, poesia, autobiografia, era também um homem dos livros, ou antes, da literatura. Conheceu Bergman muito novo, aos dezasseis anos, quando interpretou um pequeno papel numa peça dirigida pelo seu compatriota. Entrou em dezenas de Bergmans, de Chove no Nosso Amor (1946) a Saraband (2003), e a certa altura sucedeu a Max von Sydow como alter-ego do cineasta. Deu voz (arrastada e dura) e corpo (compacto e inerte) a universitários mulherengos, sofridos, distantes, difíceis quando não impossíveis. O auge dessa colaboração e dessa projecção é a série televisiva (e respectiva versão cinematográfica) Cenas da Vida Conjugal (1973). Esta assumida patologia do casamento parece de algum modo comentar o fim da complicada relação de Bergman com a actriz Liv Ullmann. Em Cenas da Vida Conjugal, a infidelidade do marido denota mal-estar, mais do que hedonismo, não é apenas uma dificuldade ética mas uma compulsão auto-punitiva. Os admiráveis grandes-planos de Bergman mostram a emoção em rostos frios, e a frustração transforma-os em rostos angustiados, raivosos mesmo. A conclusão amarga da história é que aquele casal só consegue manter uma relação saudável se a sua conjugalidade for uma infidelidade, e por isso casam com terceiros e tornam-se amantes, com um tempo mais espaçado, mais aprazível, e sem os jogos de massacre da vida matrimonial. Gosto muito de outros Bergmans com Josephson (Face a Face, Sonata de Outono), mas Cenas da Vida Conjugal tornou-se muito cedo um dos meus «exemplos negativos», um aviso sobre a miséria que, astuta, habita os mesmos lugares que a felicidade. A outros cineastas, e que cineastas (Greenaway, Angelopoulos, Tarkivski), Josephson levou a mesma gravitas, nunca me esqueço a desolação e o ousado «negócio com Deus» do seu professor ateu em O Sacrifício; mas a minha formação emocional e intelectual fez-se com Bergman, com quem partilho tantas afinidades «suecas», calvinistas, oitocentistas. E «Bergman» em muitos desses filmes diz-se Erland Josephson.