Inveja conjugal
«Eles têm inveja do nosso casamento». Ouvi-os garantir isto e não disse nada, não sei quem «eles» são, tenho uma vaga ideia acerca do casamento em causa, e desconheço se há motivos plausíveis de inveja. Parece-me, aliás, que «invejar um casamento» é, como quase toda a inveja, um caso de informação deficiente. Inveja-se uma imagem que temos, e que até tornamos mais gloriosa só para a podermos querer para nós, e não para os outros, obviamente indignos dela. Além de que, com franqueza, quantos casamentos invejáveis há no mundo? Posso invejar a alguém o facto de estar casado com determinada pessoa, na medida em que a quisesse para mim; mas será que invejo o casamento deles? Saberei o suficiente para invejar aquele específico estado de coisas? Conheço bem, acho eu, cinco ou seis «bons casamentos», mas não invejo nenhum deles, não apenas porque não desejo as mulheres em causa mas porque todos esses casamentos assentam em bases que eu não quereria para mim, porque somos pessoas diferentes, e o que agrada a uns não convém a outros. Na vida civil, a inveja é quase sempre dirigida a situações, mais do que as pessoas; mas na vida amorosa, desejar o cônjuge alheio não significa invejar uma situação, porque uma situação é relacional, não-copiável. Seria tão estranho dizer «invejo o teu casamento» como dizer «invejo o amor que ele tem por ti», como se o amor dele fosse comparável com o meu, ou o meu com o dele.

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