2/06/2012

Da vida das orquídeas
















Na minha adolescência, houve um momento em estiveram na moda uns filmes «eróticos» hollywoodescos, e Zalman King aparecia sempre no genérico: foi produtor de Nove Semanas e Meia (1986) e de Siesta, o Outro Lado da Noite (1987), realizador de Corpos Escaldantes (1988) e Orquídea Selvagem (1989), e criou depois a série televisiva Red Shoe Diaries. Escusado será dizer que tudo isto era de fugir, mas nessa altura quem fosse adolescente não fugia, a oferta erótica televisiva era mais que escassa, Internet não havia, e estávamos limitados a umas quantas revistas estrangeiras e uns VHS. Isto em matéria de «ersatz», porque já existiam, é preciso dizê-lo, raparigas. O erotismo de King, cuja morte (a de King, não a do erotismo) foi agora noticiada, era completamente kitsch, meio videoclip, meio anúncio, com umas perversões de almanaque, umas confissões de doméstica frustrada e uns toques espúrios de modernismo boémio parisiense. Nunca mais vi nenhuma dessas fitas, e suspeito que devem ser de morrer de riso, mas em termos de imaginário «erótico» era o que havia, pobres anos 80, que hoje tanto mitificamos. E no entanto, confesso que a primeira vez que vi Carré Otis, actriz de coisa nenhuma mas beldade «inadjectivável», até se me estrangulou o sistema cardio-respiratório, como se um produto manhoso de Hollywood pudesse conter um vislumbre de «beleza absoluta», devo ter pensado alguma coisa assim em 89, capaz disso era eu. Godard dizia que cada um dos filmes que amamos é «o mais belo filme do mundo», e em mil nove e oitenta e nove Carré Otis era uma mulher muito bela, portanto «a mais bela mulher do mundo». Envelheceu mal, é certo, como se nós tivéssemos envelhecido bem. A minha melhor amiga, que nem sabe que eu gostava da Otis, há muito definiu o tipo de beleza que me deixa absolutamente à nora, e é mais ou menos a beleza daquela «orquídea selvagem», onde se prova que «as flores nascem do lodo», e assim por adiante, e assim sucessivamente.