2/09/2012

Leituras facultativas

Quando deram o Nobel a Wislawa Szymborska (1923-2012) não gostei nada, apenas porque achava que devia ter ido para Herbert, Milosz já tinha sido premiado, e a haver um «polaco seguinte» só podia ser Herbert, tanto mais que a citação sueca falava do cartesianismo irónico da senhora, ou coisa que o valha, e cartesianismo irónico para mim significa Zbigniew Herbert. Mas de facto não conhecia Szymborska, talvez tivesse lido alguns poemas em antologias, não sei. E temi aquele conhecido «desvio nacional» que fez com que premiassem Quasimodo em vez de Ungaretti, por exemplo. Mas depois li-a em inglês e foram aparecendo traduções portugueses, nomeadamente o substancial Paisagem com Grão de Areia. Ainda rabujei, mas menos. A obra poética de Szymborska é escassa, reticente, aparentemente clara, coloquial, lógica mas paradoxal, com um «humanismo» não-catequético. Ela parecia ter um entendimento modesto da poesia, o que em geral me agrada, e tenho citado muitas vezes aquele poema sobre um recital, no qual metade das pessoas são da família e a outra metade veio abrigar-se da chuva. Mas devo dizer que o que mais me fascinou em Szymborska foram as suas crónicas-recensões, que li mais tarde, textos que ela publicou durante décadas na imprensa polaca e que estão recolhidos em vários volumes; a edição que eu tenho, americana, chama-se Non-required Reading, «leitura facultativa» ou «leitura complementar». Em pouco espaço, e partindo sempre de um livro, dos ensaios de Montaigne a manuais de jardinagem, Szymborska dá mostras de uma grande curiosidade pela vida, céptica mas nada indiferente, tudo lhe serve para investigar, comentar, divertir-se, espantar-se, fazer perguntas, numa prosa de uma inteligência e de uma leveza que justifica vários prémios suecos e ao menos uma tradução portuguesa.