3/02/2012

A balada da dependência sexual















Uma conversa de escritório no início de Vergonha deixa cair uma referência ao «cinismo» que se tornou em «admiração» («awe», no original); trata-se, provavelmente, de um comentário sobre o mundo dos negócios, mas claro que é também uma chave para o comportamento do protagonista. Brandon (Michael Fassbender) é viciado em sexo, a um nível patológico, mas vive num mundo que ultrapassou o mero cinismo, a promiscuidade cansada e amarga, e entrou em «awe», que eu não traduziria por «admiração» mas por «pavor» (lembram-se dos bombardeamentos «shock and awe»?). Quando Brandon diz a uma colega que gostava de ter sido um músico nos anos 1960, ela responde que os anos 60 foram um «inferno», e cita um documentário sobre os Rolling Stones. Não é por acaso: a visão paradisíaca, dionisíaca, dos sixties acabou por causa de um episódio violento ligado aos Stones, os «incidentes de Altamont». Brandon talvez gostasse de regressar a esse tempo de uma sexualidade eufórica, mas talvez já à época existisse, em potência, o «inferno», a que se seguiu, em épocas mais descrentes, o «cinismo», e depois o «pavor». Brandon vive a sexualidade do tempo do pavor, a sexualidade sem qualquer horizonte de felicidade ou de emancipação, ou seja, o oposto absoluto do evangelho dos anos 60. A compulsão sexual que o atormenta derruba todas as barreiras que permitem a uma pessoa sã distinguir entre o sexo pago e o consensual no sentido próprio, ou entre o sexo virtual e o sexo carnal. Ainda mais do que nos tempos gelados do American Gigolo de Schrader, o sexo tornou-se abstracto, tornou-se um fantasma. Por isso todas as relações de Brandon são de masturbação: sozinho ou acompanhado, o que ele faz é masturbar-se, e todas as outras pessoas se tornam instrumentos. Ele confessa à tal colega que nunca teve nenhum namoro que durasse mais de quatro meses, e cita isso como prova de que até foi capaz de se dedicar durante quatro meses, o que é bastante para quem não acredita em relações, que lhe parecem uma forma de dependência. A ironia de Vergonha está em termos um dependente (sexual) que é contra a dependência (afectiva). A relação desconfortável de Brandon com a irmã pode ter algumas tonalidades incestuosas mal esclarecidas, mas baseia-se essencialmente na recusa da dependência, incluindo a fraternal. Ele quase cita palavra por palavra a frase de Caim sobre Abel: acaso serei eu o guarda de meu irmão? É claro que Steve McQueen se move em terreno pantanoso, todos os estudos sobre a sexualidade como forma de nos fazer felizes ou infelizes arriscam-se a ser catequese; mas em última análise Vergonha é mais sobre o desespero do que sobre a sexualidade. Quando vemos Brandon na cama com duas prostitutas, magríssimo, mecânico, sofrido, rosto desfigurado, lembramo-nos do papel de Fassbender em Fome, do mesmo McQueen, sobre a greve de fome de Bobby Sands. A única diferença é que Bobby ainda acreditava nalguma causa, nalguma coisa.