Quando não nos conhecem
(...) Houve uma altura em que as pessoas perguntaram: «o que é feito do Miguel?». Alguma vez sentiu, em momentos mais acidentados da sua vida, essa sensação do has-been?
Senti logo quando acabou a Kapa, senti-me uma pessoa com um futuro promissor mas já todo no passado. Sinto isso agora, e sinto com orgulho, tenho orgulho nas coisas que fiz nos anos 80.
Mas não sente que houve um «regresso» nos últimos anos?
Não, eu estava a escrever no DNA [suplemento do Diário de Notícias], e ao longo deste tempo estive sempre a trabalhar, nunca estive ausente. A exposição maior ou menor é uma coisa que se aceita. A glória é maior, depois é menor.
Mas havia a impressão de que o Miguel se tinha ausentado.
Pois, mas estive sempre a escrever, todas as semanas escrevia.
A que é que se deveu essa sensação de que tinha desaparecido?
Não sei, não estava lá, não estava onde se fez essa pergunta, estava do lado de cá.
Mas percebia isso?
Não, só me dava com duas ou três pessoas, e estive sempre cá.
Há bocado falámos do Herman: a certa altura as pessoas decidiram que ele já não tinha graça. Uma pessoa que teve um certo impacto apercebe-se depois dessas reacções menos entusiastas?
Só se consegue ter um impacto, como nos primeiros dias do jornal, quando se é novo, quando ninguém nos viu antes. Tem que se aparecer e por as pessoas a dizer: «Quem é este gajo?» Se não se gere esse momento, está-se tramado.
A sua coluna diária no Público foi vista por alguns como o tal «regresso».
Porque é uma exposição muito maior. A questão da exposição é muito importante, a quantidade de pessoas que estão a ler, e a qualidade delas.
Mas isso é importante para si ou não?
Não, não é importante. Se se atribui importância a isso está-se a garantir uma vida de infelicidade. Se as pessoas perguntam «o que é feito dele», quando uma pessoa está cá sempre, não se pode dar demasiada importância quando dizem «felizmente está de regresso».
Mas não pode voltar ao mesmo tom que teve antes.
Nunca se consegue. Tem-se impacto enquanto se é novo, a partir dos 30 e tal anos já não nos ligam nenhuma. Todas as coisas em que participei foram um êxito no princípio, quando podiam ser, e depois fracassaram terrivelmente. O impacto só se consegue quando não nos conhecem.
Os seus textos agora são bastante menos polémicos. Isso deve-se ao facto de já ter outra idade?
Sim, se bem que tenha muito veneno como plano de reforma [risos]. Estou a guardá-lo. (...)
[entrevista a Miguel Esteves Cardoso, amanhã, na revista do Expresso]
Senti logo quando acabou a Kapa, senti-me uma pessoa com um futuro promissor mas já todo no passado. Sinto isso agora, e sinto com orgulho, tenho orgulho nas coisas que fiz nos anos 80.
Mas não sente que houve um «regresso» nos últimos anos?
Não, eu estava a escrever no DNA [suplemento do Diário de Notícias], e ao longo deste tempo estive sempre a trabalhar, nunca estive ausente. A exposição maior ou menor é uma coisa que se aceita. A glória é maior, depois é menor.
Mas havia a impressão de que o Miguel se tinha ausentado.
Pois, mas estive sempre a escrever, todas as semanas escrevia.
A que é que se deveu essa sensação de que tinha desaparecido?
Não sei, não estava lá, não estava onde se fez essa pergunta, estava do lado de cá.
Mas percebia isso?
Não, só me dava com duas ou três pessoas, e estive sempre cá.
Há bocado falámos do Herman: a certa altura as pessoas decidiram que ele já não tinha graça. Uma pessoa que teve um certo impacto apercebe-se depois dessas reacções menos entusiastas?
Só se consegue ter um impacto, como nos primeiros dias do jornal, quando se é novo, quando ninguém nos viu antes. Tem que se aparecer e por as pessoas a dizer: «Quem é este gajo?» Se não se gere esse momento, está-se tramado.
A sua coluna diária no Público foi vista por alguns como o tal «regresso».
Porque é uma exposição muito maior. A questão da exposição é muito importante, a quantidade de pessoas que estão a ler, e a qualidade delas.
Mas isso é importante para si ou não?
Não, não é importante. Se se atribui importância a isso está-se a garantir uma vida de infelicidade. Se as pessoas perguntam «o que é feito dele», quando uma pessoa está cá sempre, não se pode dar demasiada importância quando dizem «felizmente está de regresso».
Mas não pode voltar ao mesmo tom que teve antes.
Nunca se consegue. Tem-se impacto enquanto se é novo, a partir dos 30 e tal anos já não nos ligam nenhuma. Todas as coisas em que participei foram um êxito no princípio, quando podiam ser, e depois fracassaram terrivelmente. O impacto só se consegue quando não nos conhecem.
Os seus textos agora são bastante menos polémicos. Isso deve-se ao facto de já ter outra idade?
Sim, se bem que tenha muito veneno como plano de reforma [risos]. Estou a guardá-lo. (...)
[entrevista a Miguel Esteves Cardoso, amanhã, na revista do Expresso]

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