4/02/2012

Actores

Acontece-me com frequência interessarem-me muito mais os actores do que as peças em que entram. Já escrevi aqui várias vezes sobre Closer, um texto de que não gosto especialmente mas que funciona sempre bem. Isto apesar de nunca ter percebido as comparações com Coward e Pinter, Patrick Marber não tem a leveza de um nem a tensão de outro, Closer parece-me uma versão dramática das Transformações da Intimidade de Giddens, um peça muito nineties sobre a comunicação e a incomunicabilidade, o destruição do paradigma romântico, as reconfigurações do casal, a sexualidade na era tecnológica, etc. Achei graça ver uma encenação no Casino Estoril, faz sentido, Closer é de algum modo «sociologia de casino», brilhante, crua, minimalista, irritantemente superficial, porém não completamente inútil. Há qualquer coisa nas elipses narrativas que não me convence, e no entanto a coisa resulta, sobretudo se tiver actores à altura. Larry, o médico com preconceitos working-class, é uma personagem especialmente conseguida, e a fúria «cavernícola» quando ele descobre que foi traído é fantástica. Na encenação de Rui Mendes, Larry está bem entregue a João Reis, o melhor actor da sua geração; mas surpreendeu-me a interpretação da personagem da «dançarina» Alice; como não vejo televisão, não conhecia Sara Matos, que além de ser uma mulheraça, faz uma Alice cheia de garra, magoada e vibrante, alegre e mitómana, basta seguirmos a sua prestação vocal para perceber que temos ali actriz, andam outras e outros escondidos pela televisão, é bom descobri-los. Também gostei de Salvador Sobral em Perdi a Mão em Spokane, de Martin McDonagh. Sobral interpreta o recepcionista de um hotel que ou é valente ou tem um valente «death wish», e faz frente a um maneta homicida que anda à procura da mão que lhe deceparam. McDonagh escreveu duas trilogias irlandesas, depois o kafkiano The Pillowman, e escreveu e dirigiu Em Bruges, que tem diálogos fabulosos; ele gosta de grand guignol, e com Spokane criou um protagonista demente, violento, racista, ofensivo, que encontra o seu antagonista perfeito no bizarro recepcionista do hotel onde está albergado. Esta é a primeira peça «americana» de McDonagh, e na Broadway a personagem foi feita pelo irrequieto Sam Rockwell; na encenação de António Cordeiro (que é também o protagonista), Salvador Sobral rouba o espectáculo, estático na sua magreza, sardónico, apatetado, dado a non sequiturs, a criancices, a uma poesia estrambólica. É uma peça menor na carreira de McDonagh, mas vale pelo timing cómico de Sobral.