Dietrich Fischer-Dieskau 1925-2012
O barítono alemão Dietrich Fischer-Dieskau representou para mim a expressão consumada, através do formato «canção», de uma sensibilidade peculiar, a sensibilidade romântica, e por isso sempre o considerei um amigo. Antes e depois de ter conhecido Fischer-Dieskau, ouvi grandes intérpretes de lieder, mas nunca tive verdadeira empatia com nenhum. Fischer-Dieskau reunia várias características pessoais, e até biográficas, que o habilitavam a ser o maior de todos, a educação num meio culto, a experiência do horror político que vitimou vários membros da sua família, uma sensibilidade introspectiva, uma presença aristocrática, um conhecimento histórico, uma sensibilidade poética, uma voz masculina, expressiva, cheia de nuances. Li num dos seus obituários que a «volatilidade» da sua voz reagia contra a interpretação «de mármore» dos cantores da geração anterior, hieráticos, incapazes de fragilidade ou doçura; não sei se isso é exacto, mas em todo o caso torna clara a minha intuição de uma «voz humana» naquela voz e naquele «grão da voz» (como dizia Barthes, que aliás não gostava dele). Uma voz que não apostava no dramático e no patético mas nos elementos básicos de timbre e dicção, conseguindo aquele milagre da música que consiste em «dizer o implícito sem o articular». E tudo isso se manifestou comigo de modo explícito, quando a tão comovente Viagem de Inverno de Schubert, na interpretação de Fischer-Dieskau, me salvou a vida numa amarga viagem de inverno aqui há uns anos. Só um grande amigo é capaz de nos salvar a vida.

<< Página inicial