Fernando Lopes 1935-2012
O
que eu gostava em Fernando Lopes era do seu apego ao antigo Portugal, um apego contraditório, magoado. Lopes fazia
parte de um geração de «nostálgicos de esquerda», obviamente hostis ao
salazarismo, mas com saudades de certos gestos e fragmentos do seu passado, da sua
juventude, nomeadamente de uma certeza clareza moral, de um certo sentido de
comunidade e de companheirismo. Não é por acaso ele que nunca teve tanto
reconhecimento como com Belarmino, esse «quase campeão», honrado e triste. Duas
das adaptações literárias de Lopes (Uma Abelha na Chuva, O Delfim) são retratos
brutais de uma mentalidade, um em registo mais elíptico, descontínuo, godardiano, outro mais clássica e romanesco, amores infelizes que escondem ou desvendem povos
infelizes, oprimidos, acabrunhados, cheios de medo. Noutros filmes, Lopes foi mais
ligeiro, quase musical, são filmes que me dizem menos, com excepção de Os
Sorrisos do Destino, um belo divertimento sofrido, autobiográfico quase até ao
despudor. É um oásis nos filmes da última década, que tentaram um idioma mais «contemporâneo»,
onde me parece que o cineasta estava completamente fora de pé, uma certa sofisticação
ficava-lhe mal, ele era um camponês culto mas nada pretensioso, e mesmo quando
filmou um «thriller metafísico» como O Fio do Horizonte, filmou uma Lisboa velha, decrépita, de outros tempos, e escolheu um alter-ego (Claude Brasseur) que acentuava a dimensão pessoal, de homem que envelhece, deixando implícitas (como Tabucchi também faz, de outro modo)
alguma intelectualização do discurso. O que eu gostava em Fernando Lopes era da
ideia de inventar um cinema, o cinema português, que existia há muito mas que nasceu de verdade em 1962, e
que ele tentou manter vivo por todo em lado por onde passou, pelos
cineclubes, pelas revistas, pela escola, pela televisão pública, pelo apoio à produção, ou
simplesmente pelo incentivo aos novos, novos de então e de agora. O que eu
gostava em Fernando Lopes era aquele vício de «beber, fumar, comover-se»,
aqueles tropeções de ternura, como em O’Neill, seu próximo em tantas coisas. O
que eu gostava no Fernando era da sua afabilidade, às vezes tocada, cambaleante, cansada, outras vezes esfuziante, curiosa, generosa, quase de menino, ele era um daqueles homens de quem podemos gostar e admirar ao mesmo tempo, era um desses homens raros.

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