5/03/2012

Fernando Lopes 1935-2012

O que eu gostava em Fernando Lopes era do seu apego ao antigo Portugal, um apego contraditório, magoado. Lopes fazia parte de um geração de «nostálgicos de esquerda», obviamente hostis ao salazarismo, mas com saudades de certos gestos e fragmentos do seu passado, da sua juventude, nomeadamente de uma certeza clareza moral, de um certo sentido de comunidade e de companheirismo. Não é por acaso ele que nunca teve tanto reconhecimento como com Belarmino, esse «quase campeão», honrado e triste. Duas das  adaptações literárias de Lopes (Uma Abelha na Chuva, O Delfim) são retratos brutais de uma mentalidade, um em registo mais elíptico, descontínuo, godardiano, outro mais clássica e romanesco, amores infelizes que escondem ou desvendem povos infelizes, oprimidos, acabrunhados, cheios de medo. Noutros filmes, Lopes foi mais ligeiro, quase musical, são filmes que me dizem menos, com excepção de Os Sorrisos do Destino, um belo divertimento sofrido, autobiográfico quase até ao despudor. É um oásis nos filmes da última década, que tentaram um idioma mais «contemporâneo», onde me parece que o cineasta estava completamente fora de pé, uma certa sofisticação ficava-lhe mal, ele era um camponês culto mas nada pretensioso, e mesmo quando filmou um «thriller metafísico» como O Fio do Horizonte, filmou uma Lisboa velha, decrépita, de outros tempos, e escolheu um alter-ego (Claude Brasseur) que acentuava a dimensão pessoal, de homem que envelhece, deixando implícitas (como Tabucchi também faz, de outro modo) alguma intelectualização do discurso. O que eu gostava em Fernando Lopes era da ideia de inventar um cinema, o cinema português, que existia há muito mas que nasceu de verdade em 1962, e que ele tentou manter vivo por todo em lado por onde passou, pelos cineclubes, pelas revistas, pela escola, pela televisão pública, pelo apoio à produção, ou simplesmente pelo incentivo aos novos, novos de então e de agora. O que eu gostava em Fernando Lopes era aquele vício de «beber, fumar, comover-se», aqueles tropeções de ternura, como em O’Neill, seu próximo em tantas coisas. O que eu gostava no Fernando era da sua afabilidade, às vezes tocada, cambaleante, cansada, outras vezes esfuziante, curiosa, generosa, quase de menino, ele era um daqueles homens de quem podemos gostar e admirar ao mesmo tempo, era um desses homens raros.