5/18/2012

So long


















O diagnóstico House é detectivesco, heterodoxo, e arrasa o juramento de Hipócrates. Mas na verdade não se trata de um diagnóstico simplesmente médico. Dois célebres aforismos de House garantem que “a Humanidade é sobrevalorizada” e que “toda a gente mente”. Consequentemente, sugere House, só se consegue descobrir a doença humana se não tivermos grande consideração pelas pessoas, que usam as doenças como biombos, como alibis. House é um cínico, que despreza as pessoas tanto quanto despreza as regras apropriadas. Ele quer combater as doenças a seu modo, e não tem qualquer empatia pelos doentes, que vê como criaturas manipuladoras, que é preciso tratar com firmeza e brutal honestidade. (...)

Gregory House é um homem danificado, marcado por um pai rigorista, uma decepção conjugal, a perna morta, e o seu interesse na vida privada dos outros, interesse abusivo e intrusivo, é também a busca de um diagnóstico. De igual modo, as suas frases chocantes servem para observar as reacções das pessoas, como uma martelada no joelho. Hugh Laurie, conhecido como comediante woodehousiano, homem bem-sucedido, pai de família, pessoa encantadora, modesta, descobriu em si mesmo aquele farrapo humano, exausto, ácido, decepcionado. Filho de médico, depressivo clínico, Laurie metamorfoseou-se em House, o intratável de quem gostamos tanto, e em cujos olhos azuis intensos, frios, tristes, descobrimos um espantoso diagnóstico da nossa condição.

[amanhã, no Expresso]