Andrew Sarris 1928-2012

Numa época em que até gente civilizada não entende «para que servem» os críticos de cinema, Andrew Sarris tinha mais é que se ir embora. Duas das minhas bíblias cinéfilas foram A Biographical Dictionary of Film, de David Thomson, e The American Cinema: Directors and Directions 1929-1968, de Sarris, livros pessoalíssimos, muitíssimo discutíveis, frequentemente injustos, e apaixonados, claro, não há outra maneira de ver cinema. Herdeiro americano dos Cahiers, e igualmente dado a listas e outras idiossincrasias, Sarris formulou muitas noções que hoje damos por adquiridas, que se tornaram clichés, por exemplo a ideia de que os cineastas eram artistas, eram autores, mesmo em casos em que, à época, isso era menos óbvio (Hitchcock). Os seus escritos no Village Voice, analíticos e aguerridos, antigos no tom mas meticulosos na argumentação, foram essenciais para o aparecimento de uma «cultura fílmica» atenta, aberta, exigente. A história da crítica americana do último meio século fez-se no confronto feroz entre duas vozes fortes,Pauline Kael e Andrew Sarris, e depois entre «paulettes» e «sarristas»; Kael era mais estilista, mais divertida, mais imprevisível, mas é da escola «sarrista» que eu gosto, foram de certo modo os «sarristas» que me formaram, directa ou indirectamente, com essa mania de levar terrivelmente a sério o cinema, esse terrífico truque de feira. Que as merecidas homenagens a Andrew Sarris façam também justiça a essa raça maldita, os críticos, gente que vive no escuro para nossa iluminação.

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