Liberdade para os facínoras
O filósofo francês Roger Garaudy viveu quase um século e teve um percurso intelectual bizarríssimo. Foi protestante, depois católico, depois muçulmano, foi resistente aos nazis, herói de guerra, estalinista confesso, deputado e senador comunista, pensador oficial do Partido, «humanista», marxista cristão, anti-estalinista, dissidente do PCF com direito a expulsão, esquerdista soixante-huitard e auto-gestionário, anti-sionista, negacionista do Holocausto, ídolo no mundo islâmico integrista, prémio Khadafi. Em 1995, Garaudy causou escândalo com Les Mythes fondateurs de la politique israélienne, onde sustentava que o «suposto» genocídio dos judeus pelos alemães não passou de um enorme embuste sionista criado para justificar o expansionismo e o belicismo de Israel. Esse livro tornou-me especialmente atento às questões da liberdade de expressão, e à ideia difícil de que a liberdade serve precisamente para protegermos ideias que consideramos aberrantes, como é o caso.
Infelizmente, Garaudy foi condenado em tribunal por negação de crimes contra a Humanidade, tal como o inglês David Irving, o que deu uma aura de «mártires da liberdade de expressão» a pseudo-historiadores, autores de teses grotescas que deviam ser simplesmente desmontadas com factos e achincalhadas. Na sequência dessa polémica, presenciei um episódio chocante, na antiga Livraria Francesa de Lisboa: um cliente encomendou o livro maldito de Garaudy e a responsável da livraria recusou-se a fazer a encomenda, proibindo também os seus funcionários de mandar vir livros daquele autor. Ou seja, para fazer barragem ao negacionismo, a senhora tornou-se numa pequena nazi.
Na morte de Garaudy, o Nouvel Observateur online que explica o que se deve fazer com os garaudis, construindo um texto delirante que põe em causa a morte do filósofo: «(…) Toute la presse a repris la nouvelle sans la vérifier. On voit par là comment se crée une vérité officielle, au mépris de la recherche du vrai. Tout indique pourtant que ce décès ne s’est jamais produit, ou au moins qu’il y a de sérieuses raisons de douter de cette information. Aucune preuve n’est donnée. Toutes les photographies de Garaudy parues pour l’instant, même sur le site qui annonce sa mort, le montrent vivant. (...) Si une photographie montre Garaudy mort, pourquoi ne l’a-t-on pas publiée? (…) [L]es statistiques (...)montrent l’absurdité de cette théorie, selon laquelle Roger Garaudy serait mort: si on consulte la table de mortalité par âge (...), seul un tiers des hommes de 98 ans meurent. Les deux tiers, soit l’écrasante majorité d’entre eux, ont une espérance de vie de 2,34 années. Roger Garaudy, né en juillet 1913, ne mourra donc selon toute logique qu’en octobre 2014. (…) Face à tant d’incohérences, une question se pose: pourquoi tient-on tant à faire croire aux masses que Roger Garaudy est mort? Voilà ce que nous devrions être en train de nous demander. Mais la doxa du panurgisme contemporain organisé par les pouvoirs occultes, au nom d’intérêts peu avouables, nous dira sûrement qu’il s’agit là d’un délire, selon une stratégie bien connue de confinement criminalisant de toutes les paroles divergeant de la pensée unique». É assim, pela troça, que se responde aos facínoras, e não impedindo-os de dizerem o que lhes der na cabeça.

<< Página inicial