La Jetée
Conheço uma parte ínfima da obra de Chris Marker (1921-2012), o prolífico realizador, documentarista, jornalista, escritor, fotógrafo, videasta, artista multimédia, viajante, militante, a quem chamaram «o mais célebre dos cineastas desconhecidos». Gosto muito de tudo o que vi dele, apesar de estar bem distante dos seus leninismos e terceiro-mundismos, bem como do seu entusiasmo pela tecnologia. O que mais me impressionou no punhado de filmes políticos de Marker que vi foi a ideia da política como História, uma História a acontecer, explicada ou interrogada numa lógica de comentário documentário, com uma montagem citacional, ao jeito de ensaio poético godardiano (ou então Godard é que é «markeriano»).
Mas do que eu gosto mesmo mesmo é de La Jetée (1962, 28 minutos), uma das melhores curtas-metragens destes cento e dezassete anos, e onde a ideia de História encarna na noção mais modesta e incerta de memória. Marker, em miúdo, divertia-se com diaporamas, e La Jetée é uma espécie de diaporama em grande, uma sequência de fotogramas sequenciais, onde aparecem, contrabandeados, cinco segundos de movimento contínuo. Trata-se aparentemente de um filme de «ficção científica», uma história pós-apocalíptica com viagens no tempo. Mas o homem que é enviado para o passado não cumpre apenas a missão que lhe foi destinada, ele vai à procura de uma memória pessoal, a imagem de uma mulher no passadiço de um aeroporto, a imagem de um acontecimento que, mal ele sabe, é a sua própria morte.
La Jetée é um «foto-romance», como disse Marker, ou uma «cinematografia da consciência», como escreveu um crítico; um filme onde alguém vai em busca do tempo perdido através de imagens obsessivas, onde alguém tenta escapar ao tempo mas é aniquilado pela substância do tempo, e onde o gesto vago de uma mulher ao vento é subitamente mais importante do que a salvação da Humanidade.


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