1/31/2012
«E então?», pergunta alguém. E a outra pessoa responde: «E então, nada». Parece uma dessas trocas de palavras sem sentido, em que os portugueses são exímios. O «então» da pergunta não supõe forçosamente que tenha acontecido alguma coisa a que se teria seguido uma qualquer reacção; pode ser apenas um vago «como vai a vida?». Idem a resposta: ou é igualmente vaga ou é nula; se o «então» se refere a um nexo causal entre um facto e outro que se lhe seguiu, então não há nada a dizer a isso, não houve nenhum nexo, nenhuma acção. «Então, nada». Ou pode ser uma resposta ainda mais triste, mais conformista: de facto aconteceu alguma coisa mas a conclusão disso é nenhuma, a reacção é nenhuma, aconteceu alguma coisa mas não há «então» possível. E o «nada», em vez de uma simples negação, é a afirmação de uma negação. Como se em vez de uma vírgula houvesse dois pontos: «então: nada».
O direito ao esquecimento
Tem andado em discussão nas mais altas instâncias o «direito ao esquecimento», também chamado «direito a ser esquecido». Trata-se de saber que destino dar a toda a informação que vamos deixando no mundo digital, e que com o passar do tempo se torna caduca ou inconveniente. Esses registos devem ser preservados em nome da memória ou apagados por respeito à privacidade?
Juridicamente, tenho dúvidas. Mas pessoalmente, não. Esta noite tive a experiência penosa de revisitar textos íntimos antigos, mensagens antigas, conversas antigas, apaguei algumas, outras deixei ficar, mas há casos em que não controlo o meu «direito ao esquecimento». Quanto ao «direito a ser esquecido», esse parece-me garantido.
1/30/2012
Let's call it a day
Rain on lens
Boom in frame
All is ruin
Let's call it a day
[«Rain on lens», Smog]
Boom in frame
All is ruin
Let's call it a day
[«Rain on lens», Smog]
Prova documental
Preciso de prova documental, sempre precisei, talvez por optimismo, talvez por masoquismo. E quem procura provas documentais está condenado a encontrá-las.
Those are pearls that were
Em vez de «essas são pérolas que eram os seus olhos» fica «estas eram pérolas que são os seus olhos».
Ideias velhas
I caught the darkness, it was drinking from your cup
I caught the darkness drinking from your cup
I said is this contagious?
You said just drink it up.
1/28/2012
Uma luz indecisa
Ela estacionava em piscas, eu ia logo, e ainda agora aquilo de que mais me lembro é um sorriso tão mutável como a refracção da luz: ela mostrava-se divertida, ansiosa, curiosa, feliz, trocista, inquieta, confiante, incrédula, expectante, entusiasmada, aliviada, descrente, ausente, pensei saber o que era o quê, afinal não sei, e agora é de outro aquela luz indecisa.
1/27/2012
Poderes constituintes
Confesso que a maioria das coisas boas ou más que me dizem e fazem me afecta pouquíssimo. Excepto quando vêm de uma pessoa de quem gosto mesmo, caso em que quase tudo se torna vinculativo, definitivo, patológico. Gostar é constituir um poder. Um poder que é constituinte.
1/25/2012
Theo Angelopoulos 1935-2012
Só conheço a filmografia de Theo Angelopoulos posterior a 1986, a O Apicultor, um dos meus filmes favoritos. É um cinema que só entendemos em parte, tantas são as referências minuciosas á história e cultura gregas; em compensação, e precisamente por ser um cineasta grego, Angelopoulos tinha um invulgar talento para tornar referências específicas em horizontes alegóricos, e reconhecemos arquétipos da mitologia e do teatro, alusões aos grandes poetas gregos modernos, dimensões universais que no entanto partem sempre de noções específicas de comunidade, fronteira, paisagem, da paisagem rural desertificada aos mundos suburbanos, e chegando até às querelas dos Balcãs. Confesso que sou agnóstico em matéria de plano-sequência, não creio haja uma única forma de découpage, mas Angelopoulos filmava admiravelmente takes longos, às vezes em cenas de multidões, às vezes em desolação quase muda. E súbitas aparições majestosas, inquietantes, bocados de monumentos, um dedo apontado transportado em helicóptero, uma estátua de Lenine demolida. Este grego era ao mesmo tempo épico e lírico, o que não é dizer pouco. Se nos filmes que dele conheço a noção de odisseia é forte, não é menos forte a ideia de incompletude. É trágico que tenha morrido (atropelado) antes de terminar uma trilogia que chegava à Grécia dos dias de hoje e que certamente não deixaria de investigar um conceito grego que domina o mundo: κρίσις / krisis / crise.
O apicultor
O Apicultor passou há uns anos na televisão e nunca mais me esqueci. Revi-o há dias, e confirmei porque me impressionou tanto: é um filme onde tudo já está decidido na primeira cena, e onde o que se segue é uma espécie de longo epílogo. Um filme em forma de epílogo, uma ideia brilhante e tristíssima.
O Melissokomos (1986) é o sonoro título deste filme do grego Theo Angelopoulos. Na versão italiana que vi agora, mais curta e bastante escura, senti falta da melodiosa impenetrabilidade da língua helénica, mas notei curiosas afinidades meridionais. O melissokomos / O Apicultor tem dois italianos, e que italianos: Marcello Mastroianni é o protagonista, e Tonino Guerra um dos argumentistas. Mastroianni e Guerra são génios naquele registo de cansaço metafísico, de lassidão poética aparentemente sem saída. Cineasta crepuscular, Angelopoulos esqueceu por uma vez a história e a política, e centrou-se totalmente naquele homem envelhecido, Spyros, que encontramos no fim e já depois do fim.
A primeira cena é um casamento sem alegria (“sorriam, é um casamento”, pede o fotógrafo). Spyros casa a filha, mas a boda demonstra a distância emocional que reina naquela família. O filho de Spyros nem olha o pai nos olhos. E a beldade que há muitos anos Spyros conquistou é agora metade de um casal estiolado, extinto. É aquela sensação de que vos falava: logo no princípio já tudo acabou. À boa maneira melancólica italiana, a festa serve mais pelo efeito de fim de festa. E depois fica cada um entregue à sua solidão. Ao seu epílogo.
O epílogo de Spyros é uma pequena odisseia através da Grécia, de Norte a Sul. Professor aposentado, ele é apicultor por tradição, e percorre o país à procura de mel, transportando dezenas de colmeias na sua carrinha. O trajecto de Spyros, vamos percebendo, acaba por se fazer aos estremeções, menos pelo programa prévio de trabalho do que pelos humores imprevistos, pelas súbitas coragens ou nostalgias. Pode tentar a reconciliação com uma filha, pode testar um desastrado recomeço conjugal, ou visitar a casa da infância. Nada fica realmente resolvido, ele não encerra de facto nada, nem creio que se reconcilie. Faz uma última volta, como os atletas depois da vitória. Que neste caso é uma derrota.
Angelopoulos é um dos grandes cineastas do plano de conjunto. Paisagens industriais desoladas, cafés vazios, estações de serviço, velhos cinemas, vivendas degradadas, o intimismo consegue-se também pela imagem panorâmica, pelas sequências longas e fluidas que obedecem a uma planificação irrepreensível. Como todos os poetas, Angelopoulos tem uma paixão pelo tangível, árvores, regatos, nevoeiros, um copo de vinho, uma toranja, um pincel de barba. As cores são o cinzento, o amarelo esmaecido, o rosa cheio de humidade. E há o infeccioso zumbido das abelhas.
Spyros continua no seu ofício, mas já sem vontade, sem gosto. O seu diário, talvez escrito, talvez mental, é um adeus aos sítios. “Vivi aqui há muitos anos”, ensaia ele como resposta, quando lhe perguntarem o que faz naquela casa onde já viveu, “vivi aqui há muitos anos” pode ele dizer do mundo em geral, onde já não vive. Está aposentado do mundo, tornou-se frio e inacessível. Sempre que encontra alguém conhecido, só têm um tema: o tempo passa, tudo passa, só fica a decepção.
Então o que é aquela espécie de amour fou, aquela relação entre Spyros e uma rapariga (Nadia Mourouzi) a quem dá boleia? É mais “louco” do que “amor”. Ela anda sem eira nem beira, esfomeada, desenvolta, grata, lasciva, imprevisível. Ele leva-a com ele na viagem, mas nunca chega a haver uma hipótese amorosa, só o fantasma disso. A princípio Spyros nem lhe dá confiança, menos muito permite qualquer envolvimento sexual. É um pai que está a ajudar uma filha que não é dele.
Só quando Spyros desiste totalmente do mundo é que se agarra com força à rapariga. Pode parecer um contra-senso, um homem velho devia rejuvenescer com uma mulher jovem, mas Spyros tem a velhice na alma, nenhuma noite de amor cura isso. Spyros porta-se com a rapariga como se fosse um adolescente, com cenas de ciúmes e um ardor erótico febril, mas não vale a pena querer a vida quando a vida já não nos quer a nós. Após um longo epílogo, O Apicultor termina onde começou. Depois do fim. Sem os seus íntimos, afastados, doentes, esquecidos, e sem a rapariga, que também partiu, o apicultor fica definitivamente só. Com o rosto desprotegido, atira os cortiços ao chão e entrega-se às suas abelhas. São as únicas amigas que tem no mundo.
[Público, Dezembro de 2009]
1/24/2012
Todas as respostas
E ainda antes dos 40 cheguei a não ter nenhuma resposta às grandes perguntas e, mais triste ainda, a ter todas as respostas às perguntas pequenas.
1/23/2012
Que em um tempo choro e rio
Demorei uns minutos até perceber de onde conhecia a canção, não tenho esse álbum nem nada, mas ao ouvi-la houve um imediato reconhecimento emocional, mas sem um local ou um rosto, de onde vinha essa recordação, insistente como um zumbido? Lembrei-me então, uma vez íamos de carro e começou a tocar «I Want You», não sei se percebemos logo que era o Costello, mas achamos divertido porque era um longo pedido a uma mulher, um «I want you» constante e cada vez mais lancinante, e eu tinha-lhe contado acerca de um pedido desses, e ele tinha ouvido sem dizer coisa alguma, e então ríamos, dizíamos «chega, ela está conquistada», nem percebemos o que ele cantava, a situação terrível, só ríamos, «chega, já está, não é preciso mais, ela já disse que sim», ríamos, era talvez de noite, Costello desfazia-se nas colunas do automóvel, e não há nada mais triste do que perder um amigo.
Incompetência (1)
Tentaram-me com a lisonja, que não suporto, e ameaçaram-me com o ostracismo, que não temo.
Um humanismo da imperfeição
Os Descendentes é um filme adulto, Alexander Payne é sempre adulto, mas este é um Payne mais discreto, menos demonstrativo, sem grandes efeitos emocionais ou satíricos. É curioso notar como o filme articula os grandes temas da mundividência conservadora. Temos a tradição, perpetuada através da afinidade, da propriedade e da transmissão. A fidelidade, atávica, inquieta, brutal. A família, célula frágil mas regenerável. A perda e os indispensáveis rituais de recomposição. Mas Payne não tem nenhuma agenda e evita qualquer determinismo. «Everything just happens», diz-se a certa altura, é preciso continuar apesar do que acontece, apenas isso, uma aceitação serena e triste, um humanismo da imperfeição.
1/20/2012
Espero que seja demasiado tarde
Give up on trying to save us
I hope we come out with a fail-safe plot
To piss off the dumb few that forgave us
I hope the fences we mended
Fall down beneath their own weight
And I hope we hang on past the last exit
I hope it's already too late
Quem não tem medo
(...) Albee é exímio na mudança de registo, passa-se do insulto mais infamante à gargalhada, das ameaças às citações em Latim, há canções, onomatopeias, berros, empurrões, ternuras, vinganças. Martha e George passam rapidamente à guerra total, e tudo o que dizem é destrutivo, talvez irremediável. Uma coisa é um casal utilizar adjectivos indelicados ou lembrar episódios desagradáveis, ou mesmo imagens psiquiátricas e zoológicas, e eles fazem isso em grande; outra coisa é dizer «para mim é como se estivesses enterrada em cimento até ao pescoço».
Claro que eles gostam daquele jogo, e Martha confessa que George gosta tanto dela que «aprende os jogos que jogamos à velocidade a que eu mudo as regras». Ou seja, Albee não está a denunciar o «casamento burguês» como um logro mas a admitir que qualquer relação amorosa tem componentes sádicas e masoquistas. Que não passam apenas pela agressão e a retaliação, mas por estratégias mais subtis, como diferentes versões do passado, tréguas tácticas e fantasias mais ou menos consensuais, que no caso de George e Martha consistem num filho que não puderam ter e de que falam como se existisse.
Os três actos indicam três mudanças de jogo, primeiro vem o divertimento, depois a assombração, depois o exorcismo. Cada um joga, à vez, impõe as suas implacáveis regras e os seus pactos precários, do «male bonding» à sedução para ferir terceiros, passando pelo jogo dos jogos que consiste em não sabermos o que é verdade e o que é ilusão. Martha e George amam-se. Ele, diz ela, «é tolerante, o que é intolerável, é gentil, o que é cruel, compreende, o que é incompreensível». É desta ambiguidade, desta contradição, que todos temos medo, e se não temos devíamos. (...)
[amanhã, no Expresso]
Claro que eles gostam daquele jogo, e Martha confessa que George gosta tanto dela que «aprende os jogos que jogamos à velocidade a que eu mudo as regras». Ou seja, Albee não está a denunciar o «casamento burguês» como um logro mas a admitir que qualquer relação amorosa tem componentes sádicas e masoquistas. Que não passam apenas pela agressão e a retaliação, mas por estratégias mais subtis, como diferentes versões do passado, tréguas tácticas e fantasias mais ou menos consensuais, que no caso de George e Martha consistem num filho que não puderam ter e de que falam como se existisse.
Os três actos indicam três mudanças de jogo, primeiro vem o divertimento, depois a assombração, depois o exorcismo. Cada um joga, à vez, impõe as suas implacáveis regras e os seus pactos precários, do «male bonding» à sedução para ferir terceiros, passando pelo jogo dos jogos que consiste em não sabermos o que é verdade e o que é ilusão. Martha e George amam-se. Ele, diz ela, «é tolerante, o que é intolerável, é gentil, o que é cruel, compreende, o que é incompreensível». É desta ambiguidade, desta contradição, que todos temos medo, e se não temos devíamos. (...)
[amanhã, no Expresso]
1/18/2012
Lubitsch
Vi nos últimos dias várias comédias americanas recentes. A linguagem era em geral chula, havia nudez frontal, muitas referências à pornografia e vários tipos de excreções. Todas acabavam com a santidade do matrimónio preservada. Agora apetece-me ver um Lubitsch: linguagem elegante, roupa formal, muitos jogos verbais e copos altos de champanhe. E o casamento em maus lençóis.
Radicais
Embora abomine o radicalismo político, tenho uma empatia oblíqua pelos radicais de esquerda e de direita. Reconheço-me na sua entrega, na sua retórica, no seu dogmatismo, na sua violência. Não me passa pela cabeça comportar-me assim em política, mas isso é de facto um detalhe.
Debate
Estávamos numa animada discussão sobre a admissibilidade da mentira quando ele disse: «Tu és contra a mentira porque não és casado, eu não me posso dar a esse luxo». E aí calei-me, num debate ético a biografia ganha sempre.
Gangue cultural
Acabam de me roubar uma pasta contendo livros sobre as facções do Partido Republicano e a poesia húngara contemporânea, bem como uma peça sobre a Guerra da Secessão.
1/17/2012
Uma calma doentia
GEORGE: (…) Do you know what it is with insane people? Do you?...the quiet ones?
NICK: No.
GEORGE: They don’t change.
NICK: They must.
GEORGE: Well, eventually, probably, yes. But they don’t...in the usual sense. They maintain a...a firm-skinned serenity...the...the under-use of everything leaves them...quite whole.
NICK: Are you recommending it?
GEORGE: No.
[Edward Albee, Who’s Afraid of Virginia Woolf?, 1962]
NICK: No.
GEORGE: They don’t change.
NICK: They must.
GEORGE: Well, eventually, probably, yes. But they don’t...in the usual sense. They maintain a...a firm-skinned serenity...the...the under-use of everything leaves them...quite whole.
NICK: Are you recommending it?
GEORGE: No.
[Edward Albee, Who’s Afraid of Virginia Woolf?, 1962]
Pinacoteca
Quem nunca esteve em tempestades acha que a «calma» não pode ser bom diagnóstico, mas nós que sobrevivemos a naufrágios à Turner apreciamos agora naturezas mortas, cheias de romãs pacatas e copos meios vazios.
1/16/2012
Clube de combate
Se a regra número 1 do Clube de Combate é «nunca falar do Clube de Combate», estou fodido. Falar sobre o combate é a única maneira de o combate me ser útil. Adrenalina e equimoses não me chegam como experiência. Eu quero dizer coisas sobre o combate, embora perceba que não seja curial mencionar o clube. Mas como falar do «combate» sem falar do «clube de combate»? Estou fodido.
O Titanic do capital
Já aqui escrevi
que não sou fã de Filme Socialismo, mais pelo «filme», aliás, do que pelo «socialismo»;
mas há alegorias que se tornam estranhamente literais: é o caso do gigantesco navio transatlântico Costa Concordia, que Godard usou
como metáfora do capitalismo, e que agora, mal conduzido, encalhou e adernou, há feridos,
mortos, desaparecidos, e o comandante está preso.
1/15/2012
Um herói
«A deer has to be taken with one shot. I try to tell people that but they don't listen», diz Michael Vronsky quando ainda é um nietzschiano melancólico e másculo. Mais tarde, a melancolia torna-se desencanto, e a crueza cede à piedade. Então, com o animal à frente, Michael dispara para o ar, tem nos dedos o único tiro, o tiro certo, mas desiste. Podemos dizer que abdicou de qualquer ideia de «heroísmo». Ou então que se revelou enfim um herói.
Chicago boys
Lembrei-me do meu primeiro amigo «liberal», nem conservador nem esquerdista, à época havia poucos. Dávamo-nos bem, excepto quando discutíamos política. Fazia-me alguma impressão que ele reconduzisse tudo, absolutamente tudo, a um raciocínio económico, como se não existissem outras variáveis. Aliás, mesmo fora da política ele não admitia factores que não esse. Nada naquele homem era não-económico. Eu chamava-lhe «marxista de direita». Ele chamava-me ingénuo. Lembrei-me dele quando dei com esta passagem de Flaubert: «A mesure que l’humanité se perfectionne l’homme se dégrade. Quand tout ne sera plus qu’une combinaison économique d’intérêts bien contrebalancés, à quoi servira la vertu?». Esse meu amigo acreditava na «perfectibilidade» da espécie, uma perfectibilidade que se processava através da «economia de mercado», a qual satisfazia as nossas necessidades e se adequava à nossa natureza. Ele acharia a palavra «virtude» vaga e inútil, enquanto eu, à época, lutaria por ela. Como envelheceram mal, o optimismo dele e o meu.
Lógica
É possível escorar uma biografia moral com a ideia de «post hoc ergo propter hoc», «depois disso,
logo causado por isso». Trata-se de uma conhecida falácia lógica, mas cada um tem direito à sua ficção de virtude.
1/13/2012
O corvo voa
Lembrei-me de uma expressão de Oakeshott, «the pursuit of perfection as
the crow flies». Procurei essa passagem: «The pursuit of perfection as the crow
flies is an activity both impious and unavoidable in human life. It involves
the penalties of impiety (the anger of the gods and social isolation), and its
reward is not that of achievement but that of having made the attempt. It is an
activity, therefore, suitable for individuals, but not for societies». As minhas ideias sempre
foram desfavoráveis à «busca da perfeição» na sociedade, ao passo que o meu temperamento favorecia a «busca da perfeição» no indivíduo. Mas talvez as
minhas ideias tenham levado a melhor sobre o meu temperamento, ou o tenham
modificado, na medida em que cheguei à conclusão de que também o projecto individual está
condenado. Oakeshott, no mesmo ensaio, explica: «For an individual who is impelled
to engage in it [the pursuit of perfection], the reward may exceed both the
penalty and the inevitable defeat. The penitent may hope, or even expect, to
fall back, a wounded hero, into the arms of an understanding and forgiving
society. And even the impenitent can be reconciled with himself in the powerful
necessity of his impulse, though, like Prometheus, he must suffer for it». Já passei por isso, tentei e falhei gloriosamente
em devido tempo, com o devido dramatismo prometaico e o devido chinfrim. Agora,
fico-me por objectivos modestos, a segurança e a decência, por exemplo. Fico a
ver o corvo voar em vez de voar com ele.
1/12/2012
De experiência desfeito
Já me aconteceu umas quantas vezes: ponho-me numa situação em que o desfecho não apenas resolve um caso mas estabelece uma regra. Em todos esses episódios, aliás de natureza diferente, confirmei o que já sabia, que não há nada a esperar da espécie. E com essa experiência me desfaço.
1/11/2012
Casa dos segredos
Concordo com os maçons que dizem que não têm nada que publicitar a sua condição. Mas lembro a muitos desses indignados o entusiasmo que dedicavam a Zuckerberg e Assange, apóstolos da transparência total, da publicidade absoluta, da abolição do segredo. Agora que a devassa lhes bateu à porta, talvez deixem de brincar com ideias totalitárias.
Extemporâneo
John Le Carré sobre dois actores que interpretaram o seu agente George Smiley: «He [Gary Oldman] evokes the same solitude, inwardness, pain and intelligence that his predecessor [Alec Guiness] brought to the part - even the same elegance. But Oldman’s Smiley, from the moment he appears, is a man waiting patiently to explode. If I were to meet the Smiley of Alec Guinness on a dark night, my instinct would be to go to his protection. If I met Oldman’s I think I just might make a run for it. Há muito tempo que não víamos, quase nunca vemos, o elogio de alguém como este notável Smiley de Oldman: um homem apagado, educado, agudo e em colapso. Um herói de outros tempos, fora do tempo, um herói extemporâneo.
1/10/2012
Leite e mel

Jackson C. Franck foi um cantor folk com uma biografia incrivelmente desgraçada: queimaduras em criança, uma depressão, a morte de um filho, esquizofrenia paranóica, uma doença da tiróide, um tiro num olho, noites ao relento, morte precoce, aconteceu tudo a este homem. Gravou apenas um álbum, largamente ignorado. Descobri-o agora por causa de uma canção num filme, e percebi que já o conhecia há uns anos, quando ouvi «Milk and Honey» numa cover de um amigo meu, que também nunca conheceu essa «glória de todas as terrras», a terra «que mana leite e mel». Uma promessa em Ezequiel, um vazio agora: «Gold and silver burn my autumns / All too soon they'd fade and die / And then, oh there are no others / Milk and honey were their lies».
1/09/2012
Ossos
Veio sobre mim a mão do Senhor; e ele me levou no Espírito do Senhor, e me pôs no meio do vale que estava cheio de ossos; e me fez andar ao redor deles. E eis que eram muito numerosos sobre a face do vale; e eis que estavam sequíssimos. Ele me perguntou: Filho do homem, poderão viver estes ossos? Respondi: Senhor Deus, tu o sabes. Então me disse: Profetiza sobre estes ossos, e dize-lhes: Ossos secos, ouvi a palavra do Senhor. Assim diz o Senhor Deus a estes ossos: Eis que vou fazer entrar em vós o fôlego da vida, e vivereis. E porei nervos sobre vós, e farei crescer carne sobre vós, e sobre vos estenderei pele, e porei em vós o fôlego da vida, e vivereis. Então sabereis que eu sou o Senhor. Profetizei, pois, como se me deu ordem. Ora enquanto eu profetizava, houve um ruído; e eis que se fez um rebuliço, e os ossos se achegaram, osso ao seu osso.
[Fats Waller e Ezequiel (na versão de João Ferreira de Almeida, what else?)]
[Fats Waller e Ezequiel (na versão de João Ferreira de Almeida, what else?)]
1/08/2012
Jamaica
A nova primeira-ministra da Jamaica anunciou a intenção de tornar a ilha numa república, deixando assim de ter a Rainha de Inglaterra como chefe de Estado. Impecável reacção de Buckingham: «the issue of the Jamaican head of state is entirely a matter for the Jamaican government and people [to decide]». Não custa dizer, não custa perceber. Até Buckingham aprendeu.
Escolta
Gente que sente necessidade de nos escoltar. Às vezes fazem isso com boa intenção, outras vezes é abuso de confiança. Lembra-me a desagradável frase gritada pelo Presidente ao agente motorizado: «Ó senhor guarda, desapareça».
Só faz falta quem está
«Só faz falta quem cá está» é uma expressão bizarra. Soa a denegação, a recalcamento, parece dizer o contrário do que diz, por excesso de esforço. É evidente que sentimos «falta» de quem «não está», «falta» significa isso mesmo. E não há ninguém que nunca sinta a «falta» de determinada pessoa em determinado momento. Além disso, «só faz falta quem cá está» sugere que «quem está» talvez não esteja: como é que podemos sentir «falta» de «quem está»? Uma denegação e uma afronta juntas, eis um provérbio português.
Fortunately gone
Encontro o meu primeiro iPod, meio defeituoso mas ainda funcional. A selecção de temas é boa mas um pouco datada, lembro-me perfeitamente de quando ouvia isto, e tem um pequeno contingente de «canções felizes», caso fossem úteis, curiosamente a mais feliz chama-se «Fortunately Gone».
[aqui na versão Peel Sessions]
Agente Kurring
Confiro a filmografia de John C. Reilly, são já dezenas de títulos, dos quais terei visto uns vinte e tal, mas estranhamente só me lembro bem dele nos filmes de Paul Thomas Anderson. Se um grande leading man consegue «nunca chocar com a mobília», um grande «secundário» sabe confundir-se com a mobília. É o caso de Reilly, um «actor de composição» confiável, tranquilo, discreto, atreito a personagens humanas e decentes. Julgo que é o seu aspecto físico que determina que tenha feito tantas comédias, mas não penso nele como um comediante. Agora que a sua notoriedade aumentou um pouco, com os últimos filmes de Lynne Ramsay e Polanski, espero que lhe ofereçam papéis mais substanciais, onde a fragilidade dos virtuosos esteja mais exposta e se manifeste naquele rosto inchado de bonomia e cansaço. Papéis como o do «agente Jim Kurring», que há onze anos aprendi de cor ainda antes de ter visto Magnólia: um polícia que perde a arma, a única coisa que não podia perder, que perde a dignidade, até a reencontrar quando se confessa a uma mulher que também perdeu tudo. Papel que ainda hoje me deixa comovido e grato.
O deus da matança
Le Dieu du carnage, a peça de Yasmina Reza, é um entretenimento bem-feito e banal que não diz nada de novo sobre a «hipocrisia» em que assenta a vida em sociedade. Claro que tudo é falso, reprimido, fictício, que mal baixamos a guarda o verniz estala, e assim por diante. Como jeu de massacre, Reza não acrescenta nada a Pinter e Albee. Mas acho interessante que Polanski tenha pegado no texto: Carnage regressa à ideia de confinamento espacial e anímico que o cineasta tem explorado constantemente desde A Faca na Água e da «trilogia do apartamento», e que nunca na verdade abandonou; mas Polanski não quer apenas caricaturar a burguesia, quer denunciar o logro que é a «civilização». Depois de ter sobrevivido ao gueto de Varsóvia, ao comunismo, a uma esposa grávida retalhada por Charles Manson e a um suspeito processo por violação de menores, creio que o polaco tem algum autoridade para dissertar sobre a civilização e a hipocrisia. Tem algum direito a fazer sua a ideia de que o mundo é dominado pelo «deus da matança».
1/07/2012
Até certo ponto
Lembra-me aquela personagem de Waugh que às vezes não sabe o que deve responder e diz que concorda ou discorda «até certo ponto».
1/06/2012
Da boca do leão
Então Daniel falou ao rei: (…) O meu Deus enviou o seu anjo, e fechou a boca dos leões, para que não me fizessem dano, porque foi achada em mim inocência diante dele; e também contra ti, ó rei, não tenho cometido delito algum. Então o rei muito se alegrou em si mesmo, e mandou tirar a Daniel da cova, e nenhum dano se achou nele (…). Custou chegar aqui mas agora estou grato a todos: a Deus, a Daniel, ao anjo, ao rei e até aos leões.
The good book
Mais do que uma vez encontrei na Bíblia, aberta ao acaso, as palavras apropriadas. Hoje nem sequer a abri, mas em três momentos lembrei-me de uma passagem bíblica que dizia exactamente o que eu precisava. De manhã, o Apocalipse: «porque és morno, nem frio nem quente, estou quase a vomitar-te», aviso que quebrou uma indecisão. À tarde, a meio de um devaneio moral, Daniel: «Deus pesou-te na balança e faltou peso», adágio que no meu caso desaconselha a interpretação literal. À noite, por egoísmo altruísta, Jesus no Evangelho de Mateus: «seja, porém, a tua palavra: sim, sim, não, não».
Um diagnóstico
O médico identifica «um fragmento de um trauma antigo», refere-se à minha «história traumática prévia», alerta para as «sequelas pós-traumáticas». E eu que só lhe perguntei pela minha rótula.
1/04/2012
Filipe Igualdade
Vou assistindo com um cansaço divertido aos Louis Philippe Joseph d’Orléans que se transformam à pressa em «Filipe Igualdade». E que nem assim evitam que lhes cortem a cabeça.
Inconformado
Andava há muito tempo para ver My First Wife (1984), do australiano Paul Cox. É, tal como esperava, uma fascinante contradição, uma telenovela sofisticada. Um compositor de meia-idade descobre que a mulher lhe é infiel. Ela pede o divórcio. Ele não aceita que ela o deixe assim sem mais nem menos e tenta perceber se um casamento mau é melhor que casamento nenhum. Cox pede os seus actores um naturalismo melodramático, quase lamechas, mas filma de modo distanciado, frio, num arriscadíssimo chaud-froid. O título indica que se trata de um filme semi-confessional, e é impressionante como o cineasta trabalha sobre material tão pessoal e tão recente, ainda que talvez já houvesse uma «second wife» com quem as coisas corressem melhor. O enredo é de uma banalidade aflitiva, quase parece impossível que uma longa-metragem se aguente com tão pouco, tanto mais que a empatia também é diminuta; mas Cox parece decidido a aproveitar um luto para questionar a ideia de que se deve ficar «conformado» com o fim de uma relação. O protagonista mostra um inconformismo veemente, lancinante, é um filho de imigrantes russos que talvez seja menos cool do que os burgueses australianos com quem se dá, e que acredita, como o seu pai lhe diz, que o casamento é que conta, a família é que conta, não temos mais nada. Paul Cox filma essa tese sentimental num estilo meditativo, queima-se com o frio e com o gelo, e no final não é certo que esteja conformado com o que aconteceu e com o que lhe aconteceu.
Na cidade dela
Não podia ter gostado mais de Na Cidade de Sílvia (2007), do catalão José Luís Guerin. Tem o gosto pelos jogos de sedução de Rohmer e, como Bresson, usa toda a gramática fílmica. Não há intriga, os diálogos são escassos, e tudo se concreta em sons, olhares, detalhes, numa geometria sentimental imaculadamente construída. Há um rapaz que procura uma rapariga, que terá sido sua namorada, ou nem isso, e que se chama Sílvia (como a amada de Leopardi). Vai à procura dela em Estrasburgo, uma cidade plácida e elegante, onde ela estuda. Sentado no café do Conservatório, o rapaz espera rever Sílvia, mas enquanto não a vê vai observando e desenhando as outras raparigas, atento a ínfimos sinais, perscrutador, insinuante. É um jovem belo, narcisista, ocioso, que se entrega ao prazer de ver mulheres. Então aparece Sílvia, ou ele julga que é Sílvia, e persegue-a como um doido, como um stalker, pelas intrincadas ruas interiores de Estrasburgo, até ganhar coragem de falar com ela, a sua ex, que afinal não é ela, não é Sílvia. E é só. Um filme simplicíssimo e sofisticadíssimo, preparado ao pormenor, esteta, hedonista, graciosamente formalista. Uma «quête» primaveril, ligeira, com o grau exacto de exaltação romântica, lubricidade casta, espera confiada e sofrimento lúdico. Não se pode pedir mais.
Ética da reciprocidade
O minimalismo moral teria sido suficiente. Que adoptassem a «regra de ouro» cristã (faz aos outros o que queres que te façam a ti) ou o «imperativo categórico» kantiano (age segundo um
princípio que queiras como lei universal). Essa ética da reciprocidade existe no islamismo, no judaísmo, no confucionismo, no budismo, no hinduísmo e no humanismo laico e é talvez o mínimo denominador comum ético.
E no entanto nada parece mais difícil, porque a reciprocidade requer humildade e empatia, bens escassos. Praticamente as únicas pessoas que até hoje vi seguirem uma ética da reciprocidade sem falhas foram pessoas auto-destrutivas, que, como é óbvio, subvertem o princípio de onde parte a
regra de ouro. Fora disso, tenho convivido com severos Jeremias que depois fazem alegremente, alarvemente, o contrário do que exigem.
O meu percurso moral, reconheço, não é recomendável, mas sempre me mantive fiel a esse preceito, em tempos bons e maus cumpri os mínimos, mesmo quando falhei os máximos, portei-me mal mas nunca
nisso, segui sempre a ética da reciprocidade, do pouco que valho tenho isto a alegar antes de pedir justiça.
1/03/2012
Josef Skvorecky 1924-2012
O Engenheiro das Almas (1977), o único romance de Josef Skvorecky editado em português, é um volumoso campus novel, angustiante e hilariante, ao bom estilo checo. O protagonista é um intelectual sob vigilância que lembra Zelig, o camaleão humano, e que embarca numa odisseia que o escritor descreveu adequadamente como «um divertimento sobre os velhos temas da vida, das mulheres, do destino, dos sonhos, da classe operária, dos agentes secretos, do amor e da morte». Skvorecky, um dos mais conhecidos dissidentes checos, exilou-se no Canadá após o esmagamento da Primavera de Praga, escreveu sobre cinema e jazz e publicou uma extensa obra de ficção e ensaio, além de criar uma editora que deu à estampa compatriotas perseguidos como Havel e Kundera. Tal como eles, provou que a alma rejeita engenheiros, e que nenhuma opressão consegue por completo rasurar o gosto pela vida.
1/02/2012
Graça
Precisely because humor is a sign of intelligence (and many women believe, or were taught by their mothers, that they become threatening to men if they appear too bright), it could be that in some way men do not want women to be funny. They want them as an audience, not as rivals. And there is a huge, brimming reservoir of male unease, which it would be too easy for women to exploit.
[uma passagem sensata de um célebre ensaio pateta de Hitchens; e uma audição de Rose Byrne]














