2/26/2012

Erland Josephson 1923-2012
















Enquanto «sueco» adoptivo, tive Erland Josephson como um dos meus modelos. Em inúmeros filmes de Bergman ele fez de intelectual introspectivo, céptico, irónico, melancólico, inquieto, tudo aquilo que sempre associei às características-tipo de um intelectual, enquanto género humano, não enquanto figura pública. Josephson nasceu numa família burguesa culta (o pai tinha uma livraria), e além do seu trabalho como actor e encenador, escreveu romances, poesia, autobiografia, era também um homem dos livros, ou antes, da literatura. Conheceu Bergman muito novo, aos dezasseis anos, quando interpretou um pequeno papel numa peça dirigida pelo seu compatriota. Entrou em dezenas de Bergmans, de Chove no Nosso Amor (1946) a Saraband (2003), e a certa altura sucedeu a Max von Sydow como alter-ego do cineasta. Deu voz (arrastada e dura) e corpo (compacto e inerte) a universitários mulherengos, sofridos, distantes, difíceis quando não impossíveis. O auge dessa colaboração e dessa projecção é a série televisiva (e respectiva versão cinematográfica) Cenas da Vida Conjugal (1973). Esta assumida patologia do casamento parece de algum modo comentar o fim da complicada relação de Bergman com a actriz Liv Ullmann. Em Cenas da Vida Conjugal, a infidelidade do marido denota mal-estar, mais do que hedonismo, não é apenas uma dificuldade ética mas uma compulsão auto-punitiva. Os admiráveis grandes-planos de Bergman mostram a emoção em rostos frios, e a frustração transforma-os em rostos angustiados, raivosos mesmo. A conclusão amarga da história é que aquele casal só consegue manter uma relação saudável se a sua conjugalidade for uma infidelidade, e por isso casam com terceiros e tornam-se amantes, com um tempo mais espaçado, mais aprazível, e sem os jogos de massacre da vida matrimonial. Gosto muito de outros Bergmans com Josephson (Face a Face, Sonata de Outono), mas Cenas da Vida Conjugal tornou-se muito cedo um dos meus «exemplos negativos», um aviso sobre a miséria que, astuta, habita os mesmos lugares que a felicidade. A outros cineastas, e que cineastas (Greenaway, Angelopoulos, Tarkivski), Josephson levou a mesma gravitas, nunca me esqueço a desolação e o ousado «negócio com Deus» do seu professor ateu em O Sacrifício; mas a minha formação emocional e intelectual fez-se com Bergman, com quem partilho tantas afinidades «suecas», calvinistas, oitocentistas. E «Bergman» em muitos desses filmes diz-se Erland Josephson.

2/25/2012

Done




When the game's been fought
Newspapers blow across the court
Lost matches sooner than you would have thought
Now the game's been fought.

2/23/2012

Foder

«Sexual intercourse began in 1963», escreveu o Larkin, e há quem leve esse verso demasiado a sério, não falta gente dessa época que acha que só se começou a foder em 63, duzentos mil anos de homo sapiens, não indo aos australopitecos, isso não conta, andou a humanidade a roçar-se e a propagar-se, não apenas em filharada, mas em deboches e bordéis e amantes, e isso não conta, não conta a promiscuidade doméstica do homem medieval, os marinheiros quinhentistas, os aristocratas de setecentos, a Belle Époque, os loucos anos 20, nada disso, o truca-truca começou em mil nove e sessenta e três, garantem, revolucionários na sua cabeça, passeando «down memory lane», dizendo coisas terminantes como se o mundo não existisse antes e depois deles e delas, gente a épater le bourgeois fora de época, e sem sequer aquele «rather late for me» do Larkin, que ao menos tinha autocrítica e noção do ridículo.

Rubem na mesa ao lado

Fiquei na mesa ao lado da mesa de Rubem Fonseca, mas nem sequer falei com ele, não se proporcionou e também não fiz nada por isso, vê-se que não é uma pessoa que aprecie o convívio, eu também não, portanto compreendo-o bem, lá estava ele, magro, rosto vincado, careca, um pouco curvado, quase sempre calado, pareceu-me, e monossilábico na única conversa que ouvi, é um escritor de quem gosto muito, que me revelou um outro Brasil, mais urbano e menos demagógico, não é exactamente um dos «meus autores», em parte porque a violência física me interessa pouco, mas é sem dúvida um dos grandes ficcionistas contemporâneos, os contos então são bestiais, mas para quê apertar-lhe a mão, fingir que o «conheci» por causa disso, dizer umas banalidades admirativas, confrangedoras, gerir um embaraço, virar costas, «conhecer» os escritores importa pouco ou nada, uns dias depois li um romance de Rubem e isso sim é conhecê-lo, gostar dele, sermos amigos.

2/18/2012

O método experimental

É uma frase atribuída a Einstein: «Insanity is doing the same thing over and over again and expecting different results». Há quem conteste furiosamente este raciocínio, talvez por causa do vocábulo psiquiátrico, talvez pela subtil impugnação do método experimental, ou simplesmente porque parece abdicar da esperança. Outros só fazem questão de garantir que Einstein nunca disse nada disso. Conheço bem todos os elementos da frase, a «insanidade», o «fazer a mesma coisa uma e outra vez», o «esperar resultados diferentes». Admito que não seja útil como filosofia da ciência ou como filosofia de vida, mas para mim é verdadeira, e não há assim tantas frases às quais possa chamar verdadeiras.

2/17/2012

É uma boa ideia
















(…) Joseph ouve as vidas dos outros, mas não para interferir nessas vidas; na verdade, ele interveio quanto baste quando foi juiz, absolveu gente que se revelou culpada, condenou um homem que detestava por motivos pessoais, e deixou de saber o que é a verdade, acha que «a verdade» é um conceito que revela «falta de modéstia», ou «vaidade», como diz Valentine. O juiz confessa mesmo uma certa empatia com os criminosos, percebeu que talvez fizesse o mesmo se estivesse no lugar deles, e aposentou-se cedo, porque o seu universo ético entrou em colapso. Agora, ouve os segredos e as mentiras dos outros, e sabe enfim o que é a verdade, mas não faz nada com essa informação. Valentine tenta denunciá-lo aos vizinhos, mas descobre que ia estragar muitas vidas, e recua. Ela não tem nada a temer de Joseph, «a justiça não se ocupa dos inocentes», diz ele, mas ainda assim sente pena e repugnância. Pergunta-lhe o que é que ele quer da vida. «Não quero nada», diz ele. «Basta parar de respirar». E ele: «É uma boa ideia». 

(…) Valentine quer perceber como é que Joseph Kern acabou assim, triste, sozinho, desistente. Ele conta-lhe que há muitos anos amou e foi traído, e que o tal homem que condenou em tribunal foi o amante da namorada. Depois disso, diz, «deixei de acreditar», não encontrou mais ninguém, só Valentine, mas demasiado tarde. E a única vez que eles quase se tocam é através de um vidro. Mas então percebemos que um rapaz que se está sempre a cruzar com Valentine é como que um duplo ou um alter-ego do de Joseph: um jurista traído pela namorada. Numa cena emblemática, esse homem, Auguste, deixa cair um manual de Direito que se abre na página que expõe exactamente a matéria que lhe irão perguntar no exame do dia seguinte; e isso também aconteceu, há muitos anos, a Joseph Kern. (…)


[amanhã, no Expresso]

Um lapso oliveiriano

Por lapso a que sou alheio, a minha recensão ao livro de estreia de Leonor Baldaque, no Expresso de amanhã, vem ilustrada com uma fotografia de Leonor Silveira. Um lapso oliveiriano, mas ainda assim desagradável, pelo qual peço desculpa à Leonor que lê este blogue e à Leonor sobre quem escrevi.

2/16/2012

Dead again

Havendo um «born again», também deve haver um «dead again». Acontece quando, em vida, morremos, isto é, desistismos, apesar de continuarmos vivos. E não há nada de ilógico em chamar a isso «segunda morte» ou «morrer de novo», porque a certeza da morte vem logo do nascimento. Qualquer outra morte que nos aconteça é apenas uma impertinente repetição.

Born again

Ouvimos muito os evangelistas americanos usarem a expressão bíblica «born again», que no original aramaico é um termo traduzível como «nascer de novo» ou como «segundo nascimento». Os católicos definem o baptismo como um «segundo nascimento», um nascimento espiritual após o físico. Digamos que os «born again» vão mais longe e acreditam num terceiro nascimento, que não é já um rito infantil mas um acto maduro: a aceitação pessoal de Jesus. Muita gente faz pouco disto, mas todo o ruído vem da palavra «Jesus», porque na verdade o mundo fervilha de convertidos, de reformados, de arrependidos, servos não de Jesus mas de outros senhores, aceites com gosto, e às vezes, confesso, a natalidade é tão fecunda que dá náuseas.

2/14/2012

Everybody lies

















«Evebody lies», garantia o doutor House (cuja certidão de óbito foi anunciada há dias). Durante anos, não dei conta disso. Em miúdo, tive um contacto muito esporádico  com a mentira, descobri aqui e ali alguns segredos, mas muito poucas mentiras, quase nenhuma. Passada a adolescência, lembro-me de uma tarde em que tive uma discussão com um amigo, eu contra a mentira, ele a favor, e quase sem dar por isso passámos de clube de debate a clube de combate, apercebi-me nesse dia da enorme importância que o tema tinha para mim, da importância desmesurada, perigosa. Mais tarde, como é normal, fui conhecendo mentirosos, ocasionais ou profissionais, mas as questões eram pequeninas ou nem me diziam respeito, e nunca fui de me meter na vida dos outros. Porém, espaçados no tempo, não escapei a dois momentos House, mentiras importantes, incapacitantes, com prova documental e tudo. Eu não sei o que é «a verdade», e nunca apregoei verdade nenhuma, mas sei o que é a mentira, a mentira vinda de quem não podia ter vindo, a mentira como abominação. Pensava nestas coisas esta noite quando encontrei uns papéis antigos, vestígios amenos, outros hostis, não me lembrava de quase nada, e à medida que lia notei que não havia naqueles papéis nenhuma mentira, nem uma, algumas frases eram sem dúvida epocais ou fugazes, mas todas me pareceram fidedignas, verdadeiras. E até as hostis se fizeram agora quase ternas. Toda a gente mente, dizia o doutor House, é possível, sei de quem me mentisse, sei de quem nunca me mentiu, e não há mais nada a que chame biografia.

2/11/2012

Jovem adulto














Jovem Adulta contraria a visão «regressiva» dos jovens adultos que domina muito do actual cinema americano; em vez de «adolescentes retardados», algumas destas personagens são adolescentes frustrados, isto é, pessoas a quem o regresso à adolescência está bloqueado, na medida em que fracassaram na vida e nas suas aspirações antigas. Mais o que mais me tocou, e não estou a mudar de assunto, foi o genérico: uma cassete com uma canção dos Teenage Fanclub [«The Concept», 1991] que toca no auto-rádio, e vemos o mecanismo da cassete e do leitor de cassetes por dentro, vemos a fita a desdobrar-se, a cabeça magnética, as roldanas, aquelas patilhas ou alavancas, nem sei como se chamam, vemos por dentro uma coisa extinta, mas de que nos lembramos, a cassete, coisa esfusiante e triste, agridoce, como a adolescência, à qual se regressa através desse truque, um truque que quase nos engana.

 

Veemências

Está bem como está. Também há-de casar com alguém que tenha uma semelhança qualquer comigo. E há-de ser mais feliz do que comigo seria. O amor tem que ser filtrado das suas veemências. É isso. Alguém que se pareça com ela é do que eu preciso.

 [Agustina Bessa-Luís]

Inveja conjugal

«Eles têm inveja do nosso casamento». Ouvi-os garantir isto e não disse nada, não sei quem «eles» são, tenho uma vaga ideia acerca do casamento em causa, e desconheço se há motivos plausíveis de inveja. Parece-me, aliás, que «invejar um casamento» é, como quase toda a inveja, um caso de informação deficiente. Inveja-se uma imagem que temos, e que até tornamos mais gloriosa só para a podermos querer para nós, e não para os outros, obviamente indignos dela. Além de que, com franqueza, quantos casamentos invejáveis há no mundo? Posso invejar a alguém o facto de estar casado com determinada pessoa, na medida em que a quisesse para mim; mas será que invejo o casamento deles? Saberei o suficiente para invejar aquele específico estado de coisas? Conheço bem, acho eu, cinco ou seis «bons casamentos», mas não invejo nenhum deles, não apenas porque não desejo as mulheres em causa mas porque todos esses casamentos assentam em bases que eu não quereria para mim, porque somos pessoas diferentes, e o que agrada a uns não convém a outros. Na vida civil, a inveja é quase sempre dirigida a situações, mais do que as pessoas; mas na vida amorosa, desejar o cônjuge alheio não significa invejar uma situação, porque uma situação é relacional, não-copiável. Seria tão estranho dizer «invejo o teu casamento» como dizer «invejo o amor que ele tem por ti», como se o amor dele fosse comparável com o meu, ou o meu com o dele.

2/09/2012

Kicking a dead horse






















O Miguel Esteves Cardoso escreveu uma vez que Sam Shepard era a prova de que não tem mal sermos invejosos: eis um fulano bonito, inteligente, bom escritor e casado com Jessica Lange, é óbvio que devemos invejá-lo. Agora que as revistas do «social» estão a abarrotar de divórcios de famosos ou de «famosos», o único que me interessou e que, confesso, me custou, foi o de Sam e Jessica, depois de quase trinta anos. Não fui investigar os contornos do desquite, também não interessa nada, a verdade é que a tal inveja decente perdeu um dos seus motivos de existência, e acabou-se um dos casais utópicos da minha adolescência. Lembrei-me então de uma vez ter falado a um amigo pessoal de Shepard sobre isso da inveja e da utopia, e de ele me ter respondido: «Percebo o que quer dizer, mas nós não sabemos o que se passa em casa das pessoas».

Inconciliáveis

2310. Dissolution of the marriage or legal separation of the parties may be based on either of the following grounds (…) :

(a) Irreconcilable differences, which have caused the irremediable breakdown of the marriage. (...)

2311. Irreconcilable differences are those grounds which are determined by the court to be substantial reasons for not continuing the marriage and which make it appear that the marriage should be dissolved.

Isto é o que diz a legislação civil da Califórnia, citando um dos motivos mais frequentes nomeadamente para o divórcio dos «famosos»: as «diferenças inconciliáveis». Parece-me óbvio que nenhuma relação sobrevive a alguma coisa que seja «irreconciliável», mas suspeito dessa referência às «diferenças», diferenças é o que há mais, num casal as diferenças são um facto absoluto e ininterrupto, sejam ou não «conciliáveis», e nem sequer é um defeito. Mas dizer que «diferenças inconciliáveis» são aquelas que «o tribunal considere como razões substanciais para que o casamento não continue» parece-me má técnica legislativa,tautologia, ou talvez um pessimismo já a caminho do tédio.

Um terceiro deus


















aqui escrevi uma nota sobre Red, a peça de John Logan. Vale a pena vê-la agora no Teatro Aberto, em especial pelo fantástico Rothko de António Fonseca, um papel que na produção americana foi de Alfred Molina. Além da questão da «pureza» da arte face ao vil «comércio», Red apresenta um paradigma conhecido: o artista tão sério que se torna detestável. Os textos que li de Rothko não deixam qualquer dúvida sobre o facto de se tratar de um homem cultíssimo, cerebral, com horror à frivolidade; mas isso também significava (Logan explora isso bem) que tinha um discurso frequentemente pretensioso, sacerdotal, furibundo e bastante obtuso quanto ao mundo moderno. Não é apenas a velha ideia do intelectual superior que se permite ser humanamente intragável; Logan explora mostra alguém que vive integralmente «a tragédia na cultura», e para quem a criação, como dizia o outro da revolução, não é um chá dançante. É verdade que Mark Rothko, burguês, reservado, rabínico, era muitas vezes aproximado do modelo «apolíneo», tal como se diz na peça; mas a sua pintura, por mais geométrica e cromaticamente severa que seja, exprime um furor dionisíaco. Rothko não era um hedonista, muitos menos um ironista, era um possesso, embora um possesso que procurava manter controlo absoluto sobre aquilo que fazia. Nem Apolo nem Dioniso, mas qualquer coisa como um terceiro deus.

Leituras facultativas

Quando deram o Nobel a Wislawa Szymborska (1923-2012) não gostei nada, apenas porque achava que devia ter ido para Herbert, Milosz já tinha sido premiado, e a haver um «polaco seguinte» só podia ser Herbert, tanto mais que a citação sueca falava do cartesianismo irónico da senhora, ou coisa que o valha, e cartesianismo irónico para mim significa Zbigniew Herbert. Mas de facto não conhecia Szymborska, talvez tivesse lido alguns poemas em antologias, não sei. E temi aquele conhecido «desvio nacional» que fez com que premiassem Quasimodo em vez de Ungaretti, por exemplo. Mas depois li-a em inglês e foram aparecendo traduções portugueses, nomeadamente o substancial Paisagem com Grão de Areia. Ainda rabujei, mas menos. A obra poética de Szymborska é escassa, reticente, aparentemente clara, coloquial, lógica mas paradoxal, com um «humanismo» não-catequético. Ela parecia ter um entendimento modesto da poesia, o que em geral me agrada, e tenho citado muitas vezes aquele poema sobre um recital, no qual metade das pessoas são da família e a outra metade veio abrigar-se da chuva. Mas devo dizer que o que mais me fascinou em Szymborska foram as suas crónicas-recensões, que li mais tarde, textos que ela publicou durante décadas na imprensa polaca e que estão recolhidos em vários volumes; a edição que eu tenho, americana, chama-se Non-required Reading, «leitura facultativa» ou «leitura complementar». Em pouco espaço, e partindo sempre de um livro, dos ensaios de Montaigne a manuais de jardinagem, Szymborska dá mostras de uma grande curiosidade pela vida, céptica mas nada indiferente, tudo lhe serve para investigar, comentar, divertir-se, espantar-se, fazer perguntas, numa prosa de uma inteligência e de uma leveza que justifica vários prémios suecos e ao menos uma tradução portuguesa.

Dramatis personae

Quase dez anos deste diário chamado blogue. É também um teatro, claro, teatro do «eu», do ego stendhaliano, mais do que do freudiano, mas um teatro com comparsas e figurantes. Há muitas figuras episódicas, assinalam uma amabilidade, uma ambiguidade, um choque, e depois desaparecem. Já os co-protagonistas da história, dramatis personae deste espectáculo, são talvez apenas uns dez ou onze mas estão em todos os meses de todos estes anos, sem nomes, dificilmente identificáveis, mas claramente identificados como o meu mundo, deles e delas vem tudo aquilo que sei acerca do mundo. Em dez anos, só em períodos curtos, e por razões facilmente explicáveis, é que não há ninguém, mas em geral estes exercícios de egotismo vivem em diálogo. Não um diálogo directo com essas pessoas, tento nunca escrever aquilo que posso dizer ao vivo, mas um monólogo dramático onde também lhes dou voz, não conto apenas a minha versão mas também contesto os meus pontos de vista, dos quais, com poucas excepções, raramente estou certo. Uma dezena de pessoas, pouco mais, página após página, texto após texto, não serei capaz de dizer que isto vale alguma coisa, mas não tenho dúvida de que está aqui tudo o que conta, mesmo quando eu não conto tudo.

2/07/2012

Quarenta

Quarenta anos, diz Louis CK, uma idade em que já não impressionamos ninguém e em que ainda ninguém nos ajuda.

CK














Louis CK tem uma dívida a George Carlin quando discute o nosso trauma com a linguagem, sejam os «palavrões» sejam os eufemismos do «politicamente correcto». Tem uma dívida a Larry David quando confessa os mais inconfessáveis impulsos anti-sociais e anti-domésticos, incluindo alguns comentários terríveis sobre a paternidade. E tem uma dúvida para com todos os comediantes gordos, quando usa as mais detalhadas vicissitudes do seu corpo como forma de auto-depreciação e auto-repulsa. É um cómico violento em tempos violentos, mas a sua teatralidade quase sem efeitos tem em nós o efeito de querermos acreditar que se trata apenas de uma personagem, que ninguém realmente diz «escarumba», odeia crianças ou tem uma vida sexual tão grotesca. E é claro que CK é uma personagem, mas ao mesmo tempo ele confessa que apenas exagera, e que seria incapaz de dizer alguma coisa que não sentisse, que não lhe acontecesse, que não fosse uma tentação, um desafio, uma angústia. Louis CK é um radical mas transporta uma espécie de mansidão, é um revoltado por inquietude, e não por asco, é um bom tipo com maus pensamentos.

2/06/2012

Os descendentes

Uma amiga diz-me que não gostou de Os Descendentes (aliás, ainda não encontrei quem tivesse gostado). Pergunta-me o que vejo eu de aproveitável no filme. Respondo-lhe, numa palavra: o tema da herança, da transmissão de uma herança. Esse tema não me interessa nada, diz ela. Mas, digo-lhe eu, tu, que tens três filhos, é que devias achar algum interesse nisso; eu, não tendo filhos, sou apenas receptor do que herdei, e não vou legar herança nenhuma a ninguém. Ela reconhece que é paradoxal. Eu fico a pensar que talvez seja natural.

Da vida das orquídeas
















Na minha adolescência, houve um momento em estiveram na moda uns filmes «eróticos» hollywoodescos, e Zalman King aparecia sempre no genérico: foi produtor de Nove Semanas e Meia (1986) e de Siesta, o Outro Lado da Noite (1987), realizador de Corpos Escaldantes (1988) e Orquídea Selvagem (1989), e criou depois a série televisiva Red Shoe Diaries. Escusado será dizer que tudo isto era de fugir, mas nessa altura quem fosse adolescente não fugia, a oferta erótica televisiva era mais que escassa, Internet não havia, e estávamos limitados a umas quantas revistas estrangeiras e uns VHS. Isto em matéria de «ersatz», porque já existiam, é preciso dizê-lo, raparigas. O erotismo de King, cuja morte (a de King, não a do erotismo) foi agora noticiada, era completamente kitsch, meio videoclip, meio anúncio, com umas perversões de almanaque, umas confissões de doméstica frustrada e uns toques espúrios de modernismo boémio parisiense. Nunca mais vi nenhuma dessas fitas, e suspeito que devem ser de morrer de riso, mas em termos de imaginário «erótico» era o que havia, pobres anos 80, que hoje tanto mitificamos. E no entanto, confesso que a primeira vez que vi Carré Otis, actriz de coisa nenhuma mas beldade «inadjectivável», até se me estrangulou o sistema cardio-respiratório, como se um produto manhoso de Hollywood pudesse conter um vislumbre de «beleza absoluta», devo ter pensado alguma coisa assim em 89, capaz disso era eu. Godard dizia que cada um dos filmes que amamos é «o mais belo filme do mundo», e em mil nove e oitenta e nove Carré Otis era uma mulher muito bela, portanto «a mais bela mulher do mundo». Envelheceu mal, é certo, como se nós tivéssemos envelhecido bem. A minha melhor amiga, que nem sabe que eu gostava da Otis, há muito definiu o tipo de beleza que me deixa absolutamente à nora, e é mais ou menos a beleza daquela «orquídea selvagem», onde se prova que «as flores nascem do lodo», e assim por adiante, e assim sucessivamente.

The Queen

Numa audiência, há uns cinco anos, a Rainha recebeu o primeiro-ministro e disse-lhe: «I gather there's a film. I'd just like you to know that I'm not going to watch it. Are you?». Na verdade, The Queen até é uma visão globalmente simpática de Isabel II, mas para a Rainha estava fora de questão ver tal filme, ver aquele assunto exposto na praça pública. «I gather there’s a film» é perfeito, do vago «gather» ao repudiante «a film», um filme qualquer, pouco importa de quem seja. Depois, uma informação terminante, para que conste, não apenas como facto pessoal mas como assunto de Estado, e para que a conversa não venha mais à baila: «I’m not going to watch it». Depois, um teste à lealdade, uma armadilha, uma estocada: «Are you?». Claro que não devíamos sequer conhecer esta conversa privada, mas Blair contou-a à imprensa, cada um é como cada qual, e neste caso até agradeço a inconfidência, a história tem uma ética «monárquica» que mesmo em república procuro também eu seguir.

2/04/2012

And then there was none






















Segundo consta, John Cassavetes, Peter Falk e Ben Gazzara mal se conheciam quando filmaram Husbands, mas ou eram os melhores actores do mundo ou se tornaram os melhores amigos do mundo durante a rodagem, porque Husbands é um grande hino à masculinidade cúmplice e fatigada, festiva e ferida. Quando o vi pela primeira vez, acreditava que de alguma maneira as fragilidades da amizade masculina individual eram redimidas pelas amizades «em grupo», pelo «male bonding» e a «boy’s night out», pela conversa básica, pela competição ritualizada mas não verdadeira, pela diversão um pouco acéfala, um pouco poética. Mas o tempo passou, quase todos os meus amigos se tornaram «husbands» e eu tornei-me ainda mais eremita do que já era, e de qualquer modo a meio da vida não fazemos amigos como antigamente. Cassavetes morreu há mais de vinte anos, antes ainda de eu ter visto Husbands, o ano passado morreu Falk, esta semana morreu Gazzara, e morreu mais gente, acreditem, bastante mais gente.

2/03/2012

Os nossos mortos

La Chambre verte, de Truffaut. Não me interessa tanto a componente gótica do conto de James que o filme adapta: o homem obcecado com a memória dos mortos, fidelíssimo aos seus mortos e distante dos vivos [embora partilhe o gosto dele por obituários]; o que me diz mais é a dimensão patológica: o viúvo e ex-combatente que troca o luto pelo culto, um culto monomaníaco que impede o trabalho de luto. E a ideia de que aqueles que um dia amámos são de certa maneira os nossos mortos, ainda que estejam vivos. Mas há ainda isto, que é terrível e admirável: saber se o culto do passado deve incluir o respeito por quem nos fez mal. E se esse respeito é humanista ou masoquista, ecuménico ou hipócrita, um apagamento ou uma reconciliação.

2/02/2012

Esperança






















Há uma esperança infinita, mas não para nós. 

[Kafka]

Graus de separação

Numa noite má, volto a um amigo fiel de noites antigas, há muito deixado de lado em favor de outros discos. Lembrava-me bem de «when we both of us knew how the end always is», como se só estivesse em dúvida o «how», e até do «how» se tivesse certeza, e do «always». Mas agora fez-me mais impressão «songs about happiness murmured in dreams», quatro graus de separação, reparem, num tempo, este tempo, onde nada está a tantos graus: não a felicidade mas uma canção sobre a felicidade, não uma canção cantada mas apenas murmurada, não murmurada em vigília mas em sonho, coisa tão vaga, tão de fumo. Como aquele jogo em que se diz uma palavra ao ouvido e ela vai passando, de ouvido em ouvido, vai-se desfazendo, até que não significa nada.

Ancora adesso














Valentina Capuano, uma sobrevivente do naufrágio do Costa Concordia, em 2012, é sobrinha-neta de Giovanni Capuano, vítima mortal do naufrágio do Titanic, em 1912. Mais do que a coincidência, assombra-me a dúvida: um regresso trágico ao passado ou um destino mais favorável? «È stato terribileancora adesso sono scossa», diz Valentina, «foi terrível», «ainda estou abalada», pela experiência, claro, mas também pela dúvida.