3/31/2012
E eu já lhe pedi mais alguma coisa
- Ouça-me, Mariana: que espera de mim?
- Que hei de eu esperar!… Por que me diz isso o senhor Simão?
- Os sacrifícios que a Mariana tem feito e quer fazer por mim só podiam ter uma paga, embora mos não faça esperando recompensa. Abre-me o seu coração, Mariana?
- Que quer que eu lhe diga?
- Conhece a minha vida tão bem como eu, não é verdade?
- Conheço. E que tem isso?
- Sabe que eu estou ligado pela vida e pela morte àquela desgraçada senhora?
- E daí? Quem lhe diz menos disso?!
- Os sentimentos do coração só os posso agradecer com amizade.
- E eu já lhe pedi mais alguma coisa senhor Simão?
[num sábado camiliano]
- Que hei de eu esperar!… Por que me diz isso o senhor Simão?
- Os sacrifícios que a Mariana tem feito e quer fazer por mim só podiam ter uma paga, embora mos não faça esperando recompensa. Abre-me o seu coração, Mariana?
- Que quer que eu lhe diga?
- Conhece a minha vida tão bem como eu, não é verdade?
- Conheço. E que tem isso?
- Sabe que eu estou ligado pela vida e pela morte àquela desgraçada senhora?
- E daí? Quem lhe diz menos disso?!
- Os sentimentos do coração só os posso agradecer com amizade.
- E eu já lhe pedi mais alguma coisa senhor Simão?
[num sábado camiliano]
Os hedonistas cansados
VIVIAN: Oh, The Tired Hedonists, of course. It is a club to which I belong (…)
CYRIL: Well, I should fancy you are all a good deal bored with each other.
VIVIAN: We are. That is one of the objects of the club.
[Wilde, The Decay of Lying]
CYRIL: Well, I should fancy you are all a good deal bored with each other.
VIVIAN: We are. That is one of the objects of the club.
[Wilde, The Decay of Lying]
Uma virtude de segunda
Há virtudes que me faltam na sua forma genuína e a que chego por vias defeituosas. Por exemplo, sou incapaz de uma verdadeira determinação, mas a minha teimosia é inamovível. É como se tivesse uma virtude de segunda.
3/27/2012
Nada pessoal
Achei que tinha ido ver este filme contigo, mas depois fui confirmar as datas e não podia ser, não batia certo, vimos ambos este filme, mas não juntos, e foi por termos falado depois acerca dele que me pareceu a mim, e talvez a ti também, que o tínhamos visto juntos, apenas porque isso fazia sentido, embora não tenha acontecido. Foi sempre assim, tudo íntimo, nada pessoal.
3/26/2012
Três mergulhos
Em Janeiro de 1968, o ministro francês da Juventude e do Desporto foi inaugurar uma piscina na universidade de Nanterre. O ministro tinha acabado de publicar um extenso relatório sobre «a juventude francesa». Na inauguração, o governante é interpelado por Daniel Cohn-Bendit, que lhe diz que o tal relatório é uma calamidade, pois nem sequer se ocupa «dos problemas sexuais da juventude». O ministro respondeu: «Se tem problemas dessa natureza, aconselho-o a dar três mergulhos na piscina».
O general lituano
- Conhece Kierkegaard, não conhece? – perguntei.
- O dramaturgo norueguês?
- Está a pensar no Sibelius, o general lituano.
[de um conto de Delmore Schwartz]
- O dramaturgo norueguês?
- Está a pensar no Sibelius, o general lituano.
[de um conto de Delmore Schwartz]
Os custos da interioridade
Enquanto esperava, numa cidadezinha de província, imaginei auto-ironias intelectuais e ironias obscenas à volta da expressão «os custos da interioridade».
3/23/2012
Tonino Guerra 1920-2012
Bem-aventurado o artista que chegue ao fim da vida e não seja homenageado com adjectivos mas com
substantivos, isto é, com títulos. Podermos apenas dizer A Aventura, A Noite, O Eclipse, Deserto Vermelho, Blow-Up, Zabriskie Point, Amarcord, Nostalgia, O Navio, Ginger e Fred, O Apicultor, O Passo Suspenso da Cegonha, sem ser preciso um qualificativo, um elogio, um ruído.
Quando não nos conhecem
(...) Houve uma altura em que as pessoas perguntaram: «o que é feito do Miguel?». Alguma vez sentiu, em momentos mais acidentados da sua vida, essa sensação do has-been?
Senti logo quando acabou a Kapa, senti-me uma pessoa com um futuro promissor mas já todo no passado. Sinto isso agora, e sinto com orgulho, tenho orgulho nas coisas que fiz nos anos 80.
Mas não sente que houve um «regresso» nos últimos anos?
Não, eu estava a escrever no DNA [suplemento do Diário de Notícias], e ao longo deste tempo estive sempre a trabalhar, nunca estive ausente. A exposição maior ou menor é uma coisa que se aceita. A glória é maior, depois é menor.
Mas havia a impressão de que o Miguel se tinha ausentado.
Pois, mas estive sempre a escrever, todas as semanas escrevia.
A que é que se deveu essa sensação de que tinha desaparecido?
Não sei, não estava lá, não estava onde se fez essa pergunta, estava do lado de cá.
Mas percebia isso?
Não, só me dava com duas ou três pessoas, e estive sempre cá.
Há bocado falámos do Herman: a certa altura as pessoas decidiram que ele já não tinha graça. Uma pessoa que teve um certo impacto apercebe-se depois dessas reacções menos entusiastas?
Só se consegue ter um impacto, como nos primeiros dias do jornal, quando se é novo, quando ninguém nos viu antes. Tem que se aparecer e por as pessoas a dizer: «Quem é este gajo?» Se não se gere esse momento, está-se tramado.
A sua coluna diária no Público foi vista por alguns como o tal «regresso».
Porque é uma exposição muito maior. A questão da exposição é muito importante, a quantidade de pessoas que estão a ler, e a qualidade delas.
Mas isso é importante para si ou não?
Não, não é importante. Se se atribui importância a isso está-se a garantir uma vida de infelicidade. Se as pessoas perguntam «o que é feito dele», quando uma pessoa está cá sempre, não se pode dar demasiada importância quando dizem «felizmente está de regresso».
Mas não pode voltar ao mesmo tom que teve antes.
Nunca se consegue. Tem-se impacto enquanto se é novo, a partir dos 30 e tal anos já não nos ligam nenhuma. Todas as coisas em que participei foram um êxito no princípio, quando podiam ser, e depois fracassaram terrivelmente. O impacto só se consegue quando não nos conhecem.
Os seus textos agora são bastante menos polémicos. Isso deve-se ao facto de já ter outra idade?
Sim, se bem que tenha muito veneno como plano de reforma [risos]. Estou a guardá-lo. (...)
[entrevista a Miguel Esteves Cardoso, amanhã, na revista do Expresso]
Senti logo quando acabou a Kapa, senti-me uma pessoa com um futuro promissor mas já todo no passado. Sinto isso agora, e sinto com orgulho, tenho orgulho nas coisas que fiz nos anos 80.
Mas não sente que houve um «regresso» nos últimos anos?
Não, eu estava a escrever no DNA [suplemento do Diário de Notícias], e ao longo deste tempo estive sempre a trabalhar, nunca estive ausente. A exposição maior ou menor é uma coisa que se aceita. A glória é maior, depois é menor.
Mas havia a impressão de que o Miguel se tinha ausentado.
Pois, mas estive sempre a escrever, todas as semanas escrevia.
A que é que se deveu essa sensação de que tinha desaparecido?
Não sei, não estava lá, não estava onde se fez essa pergunta, estava do lado de cá.
Mas percebia isso?
Não, só me dava com duas ou três pessoas, e estive sempre cá.
Há bocado falámos do Herman: a certa altura as pessoas decidiram que ele já não tinha graça. Uma pessoa que teve um certo impacto apercebe-se depois dessas reacções menos entusiastas?
Só se consegue ter um impacto, como nos primeiros dias do jornal, quando se é novo, quando ninguém nos viu antes. Tem que se aparecer e por as pessoas a dizer: «Quem é este gajo?» Se não se gere esse momento, está-se tramado.
A sua coluna diária no Público foi vista por alguns como o tal «regresso».
Porque é uma exposição muito maior. A questão da exposição é muito importante, a quantidade de pessoas que estão a ler, e a qualidade delas.
Mas isso é importante para si ou não?
Não, não é importante. Se se atribui importância a isso está-se a garantir uma vida de infelicidade. Se as pessoas perguntam «o que é feito dele», quando uma pessoa está cá sempre, não se pode dar demasiada importância quando dizem «felizmente está de regresso».
Mas não pode voltar ao mesmo tom que teve antes.
Nunca se consegue. Tem-se impacto enquanto se é novo, a partir dos 30 e tal anos já não nos ligam nenhuma. Todas as coisas em que participei foram um êxito no princípio, quando podiam ser, e depois fracassaram terrivelmente. O impacto só se consegue quando não nos conhecem.
Os seus textos agora são bastante menos polémicos. Isso deve-se ao facto de já ter outra idade?
Sim, se bem que tenha muito veneno como plano de reforma [risos]. Estou a guardá-lo. (...)
[entrevista a Miguel Esteves Cardoso, amanhã, na revista do Expresso]
Ligação
Estava sem ligação há um tempo, ou com uma ligação intermitente, o que ainda incomoda mais. Parece que o problema era o modem, ou talvez não. Um técnico disse-me que o modem não funcionava, mas outro técnico disse-me que o modem funcionava bem, e acontece que ambos tinham razão, o modem estava operacional mas era antiquado, o que nestas coisas significa obsoleto. Agora tenho um modem novo, uma nova ligação e mais uma alegoria gratuita.
3/13/2012
3/10/2012
Focado na China
Grande personagem, a de Rich Pecci em Life During Wartime (2009), de Todd Solondz. Pecci faz de Mark, um informático enfadonho que responde à pergunta «Are you seeing anyone?» com um fantástico: «No, I’m more focused on China». Mas trata-se de um enfadonho atormentado, pois de repente emerge da letargia e interrompe uma discussão sobre «perdoar» e «esquecer» com esta pergunta ainda mais fantástica: «If it’s possible to forgive and forget, or to forgive and not forget, when would you forget but not forgive?». E depois regressa à sua mudez tristonha.
3/09/2012
Two palms, no sound
It was the rocks you liked
So much you'd throw them
Down into the river's darkness
Down from where the trains go flying
Your legs hung out
Into the air - we'll keep on kicking
We're moving but it's never going
When we go it's like we're faking
Two palms, no sound
[«Closer», Matt Pond PA]
Arte ingénua
Passei de comboio, ia distraído mas reconheci o sítio, demorei dois segundos, conheço mal esta zona, mas depois lembrei-me que me trouxeste a uma exposição horrível, felizmente não havia ninguém de vigia, o que gozámos com aquelas avantesmas, e tu dizias que me tinhas «arrastado» para os «subúrbios», criando uma provocação «social» que usavas em vez de outra coisa, de uma distância, de uma recusa, brincávamos com a exposição, nada mal esta frase, brincávamos com o termos vindo de propósito, tudo tão pacato e desabitado, estava um dia fantástico, tomámos café ao pé do rio, houve alguém que te reconheceu, mas não te importaste, ficámos um bocado ao sol frio, no meio de tanta calma, e falávamos como se estivéssemos de férias noutro continente, como se fosse preciso combinar o nosso ócio, compensar a imobilidade com desafios, esquecer que tínhamos pouco tempo não pensando no tempo que ainda tínhamos, aproveitávamos tudo como jogo, a arte ingénua, a pasmaceira, e no regresso também o trânsito, as vozes da rádio, as casas feias, as tabuletas dos restaurantes, que íamos recitando como se fôssemos miúdos, poucas vezes te vi tão luminosa, quer dizer, sem sombras, embora soubesse em que pensavas, aquilo era um teste ou uma impossibilidade, ou uma possibilidade e uma despedida, e no dia seguinte tudo tinha mudado, «desculpa ter-te trazido para os subúrbios», dizias, como se não tivéssemos estado na Riviera, e há bocado o comboio passou por onde nós passámos, e depois seguiu.
3/08/2012
Experiência amigável
«I doused our friendly venture / With a hard-faced / Three-word gesture», qualquer coisa como «extingui a nossa experiência amigável / com um gesto atrevido / de duas palavras», [«hard-faced» é o equivalente a «cheeky» em inglês nortenho, e em português as tais «três palavras» são apenas duas, essas mesmo, ou até apenas uma, palavras que são um gesto, que são um acto, como ensina Austin]. E pronto, é isso, obrigado por terem vindo.
3/02/2012
A balada da dependência sexual
Uma conversa de escritório no início de Vergonha deixa cair uma referência ao «cinismo» que se tornou em «admiração» («awe», no original); trata-se, provavelmente, de um comentário sobre o mundo dos negócios, mas claro que é também uma chave para o comportamento do protagonista. Brandon (Michael Fassbender) é viciado em sexo, a um nível patológico, mas vive num mundo que ultrapassou o mero cinismo, a promiscuidade cansada e amarga, e entrou em «awe», que eu não traduziria por «admiração» mas por «pavor» (lembram-se dos bombardeamentos «shock and awe»?). Quando Brandon diz a uma colega que gostava de ter sido um músico nos anos 1960, ela responde que os anos 60 foram um «inferno», e cita um documentário sobre os Rolling Stones. Não é por acaso: a visão paradisíaca, dionisíaca, dos sixties acabou por causa de um episódio violento ligado aos Stones, os «incidentes de Altamont». Brandon talvez gostasse de regressar a esse tempo de uma sexualidade eufórica, mas talvez já à época existisse, em potência, o «inferno», a que se seguiu, em épocas mais descrentes, o «cinismo», e depois o «pavor». Brandon vive a sexualidade do tempo do pavor, a sexualidade sem qualquer horizonte de felicidade ou de emancipação, ou seja, o oposto absoluto do evangelho dos anos 60. A compulsão sexual que o atormenta derruba todas as barreiras que permitem a uma pessoa sã distinguir entre o sexo pago e o consensual no sentido próprio, ou entre o sexo virtual e o sexo carnal. Ainda mais do que nos tempos gelados do American Gigolo de Schrader, o sexo tornou-se abstracto, tornou-se um fantasma. Por isso todas as relações de Brandon são de masturbação: sozinho ou acompanhado, o que ele faz é masturbar-se, e todas as outras pessoas se tornam instrumentos. Ele confessa à tal colega que nunca teve nenhum namoro que durasse mais de quatro meses, e cita isso como prova de que até foi capaz de se dedicar durante quatro meses, o que é bastante para quem não acredita em relações, que lhe parecem uma forma de dependência. A ironia de Vergonha está em termos um dependente (sexual) que é contra a dependência (afectiva). A relação desconfortável de Brandon com a irmã pode ter algumas tonalidades incestuosas mal esclarecidas, mas baseia-se essencialmente na recusa da dependência, incluindo a fraternal. Ele quase cita palavra por palavra a frase de Caim sobre Abel: acaso serei eu o guarda de meu irmão? É claro que Steve McQueen se move em terreno pantanoso, todos os estudos sobre a sexualidade como forma de nos fazer felizes ou infelizes arriscam-se a ser catequese; mas em última análise Vergonha é mais sobre o desespero do que sobre a sexualidade. Quando vemos Brandon na cama com duas prostitutas, magríssimo, mecânico, sofrido, rosto desfigurado, lembramo-nos do papel de Fassbender em Fome, do mesmo McQueen, sobre a greve de fome de Bobby Sands. A única diferença é que Bobby ainda acreditava nalguma causa, nalguma coisa.






