4/28/2012

Um número mal anotado

De um artigo do Daily Mirror, publicado em 1912: «If you are unhappy today, 1812 would have suited you no better, and no better than 2012 which, on notepaper, will look like a telephone number misplaced».

Complicações

«Você teve uma história complicada», garante, como quem pergunta, enquanto assino a dedicatória, uma «história amorosa», quer ele dizer, acho que se baseia no que leu, não no que ouviu, mas não sei de qual das histórias se trata. Complicadas foram todas. Refere-se à primeira e à última, narrativas romanescas, com a idealização desfeita e o oásis remetido ao seu estatuto de miragem? Ou às «histórias do meio», exercícios brutalistas à volta da verdade e do cinismo? Temo que ele tenha escolhido a única das histórias de que me envergonho. E quase lhe respondo, quase, quase lhe digo que também houve complicações de que me orgulho.

4/24/2012

Já nas livrarias


















Este sábado, 28 de Abril, a partir da 16h, estarei, juntamente com Almeida Faria, na Feira do Livro de Lisboa (Edições tinta-da china, Pavilhões C25 E C27).

Juízo final

Tento explicar-lhe a minha actual ética, que ela acha apocalíptica. Mas não, digo, é o contrário disso, e cito Swedenborg: o Juízo Final é uma coisa que já aconteceu.

Sem tecto, entre ruínas

Perguntam-me «de que é que te arrependes?», e eu digo «de uma imensidão de coisas». Mas essa impressão imediata não resiste a um exame. Tomei decisões erradas, disse o que não devia ter dito, não fiz o que devia ter feito, falhei por acção e omissão, é verdade, mas quase sempre em questões banais, reversíveis. Sei que escolhi mal o curso que fiz, foram cinco anos penosos e inúteis, mas depois segui em frente, sem sequelas. Um «arrependimento» implica um erro catastrófico, traumático, inapagável. E arrependimentos desses houve apenas dois, quando não terminei atempadamente relacionamentos baseados na humilhação. Foram poucos, mas ainda me parecem muitos, de tal modo fiquei «sem tecto, entre ruínas».

4/17/2012

Lavar as mãos

«Isto de educação sexual é como outra qualquer: devia resumir-se a lavar as mãos (...)».

[Agustina Bessa-Luís]

4/16/2012

Cuspir



I've had it up to here
sweet jesus i should have warned you about me
it's sure to end in tears
and misery
without a father figured i
yeah i concluded then that I'm
not for spitting on


[«From the Hip», álbum Mainstream, 1987]

Provas

Terríveis versos, «These are your friends from childhood through youth / Who goaded you on demanded more proof», mas abstractamente terríveis, não tenho amigos de infância, libertei-me de quem me atazanava, e ninguém alguma vez precisou de provas.

O objecto representado












Ela olha para o famoso Courbet e acha curioso aquele título, «a origem do mundo», mas ele diz que na arte aquilo que interessa não é o título mas a imagem, o objecto representado.

[Noite e Dia, 2008, de Hong Sang-soo]

4/15/2012

Género

I have met with women who I really think would like to be married to a Poem and to be given away by a Novel.

[de uma carta de Keats]

Montgomery Brogan

Yeah, fuck you, too. Fuck me? Fuck you! Fuck you and this whole city and everyone in it. Fuck the panhandlers, grubbing for money, and smiling at me behind my back. Fuck squeegee men dirtying up the clean windshield of my car. Get a fucking job! Fuck the Sikhs and the Pakistanis bombing down the avenues in decrepit cabs, curry steaming out their pores and stinking up my day. Terrorists in fucking training. Slow the fuck down! Fuck the Chelsea boys with their waxed chests and pumped up biceps. Going down on each other in my parks and on my piers, jingling their dicks on my Channel 35. Fuck the Korean grocers with their pyramids of overpriced fruit and their tulips and roses wrapped in plastic. Ten years in the country, still no speaky English? Fuck the Russians in Brighton Beach. Mobster thugs sitting in cafés, sipping tea in little glasses, sugar cubes between their teeth. Wheelin' and dealin' and schemin'. Go back where you fucking came from! Fuck the black-hatted Chassidim, strolling up and down 47th street in their dirty gabardine with their dandruff. Selling South African apartheid diamonds! Fuck the Wall Street brokers. Self-styled masters of the universe. Michael Douglas, Gordon Gecko wannabe mother fuckers, figuring out new ways to rob hard working people blind. Send those Enron assholes to jail for fucking life! You think Bush and Cheney didn't know about that shit? Give me a fucking break! Tyco! Imclone! Adelphia! Worldcom! Fuck the Puerto Ricans. 20 to a car, swelling up the welfare rolls, worst fuckin' parade in the city. And don't even get me started on the Dom-in-i-cans, because they make the Puerto Ricans look good. Fuck the Bensonhurst Italians with their pomaded hair, their nylon warm-up suits, and their St. Anthony medallions. Swinging their, Jason Giambi, Louisville slugger, baseball bats, trying to audition for the Sopranos. Fuck the Upper East Side wives with their Hermés scarves and their fifty-dollar Balducci artichokes. Overfed faces getting pulled and lifted and stretched, all taut and shiny. You're not fooling anybody, sweetheart! Fuck the uptown brothers. They never pass the ball, they don't want to play defense, they take fives steps on every lay-up to the hoop. And then they want to turn around and blame everything on the white man. Slavery ended one hundred and thirty seven years ago. Move the fuck on! Fuck the corrupt cops with their anus violating plungers and their 41 shots, standing behind a blue wall of silence. You betray our trust! Fuck the priests who put their hands down some innocent child's pants. Fuck the church that protects them, delivering us into evil. And while you're at it, fuck JC! He got off easy! A day on the cross, a weekend in hell, and all the hallelujahs of the legioned angels for eternity! Try seven years in fuckin Otisville, Jay! Fuck Osama Bin Laden, Alqueda, and backward-ass, cave-dwelling, fundamentalist assholes everywhere. On the names of innocent thousands murdered, I pray you spend the rest of eternity with your seventy-two whores roasting in a jet-fueled fire in hell. You towel headed camel jockeys can kiss my royal, Irish ass! Fuck Jacob Elinski, whining malcontent. Fuck Francis Xavier Slaughtery, my best friend, judging me while he stares at my girlfriend's ass. Fuck Naturel Rivera. I gave her my trust and she stabbed me in the back. Sold me up the river. Fucking bitch. Fuck my father with his endless grief, standing behind that bar. Sipping on club soda, selling whiskey to firemen and cheering the Bronx Bombers. Fuck this whole city and everyone in it. From the row houses of Astoria to the penthouses on Park Avenue. From the projects in the Bronx to the lofts in Soho. From the tenements in Alphabet City to the brownstones in Park slope to the split levels in Staten Island. Let an earthquake crumble it. Let the fires rage. Let it burn to fuckin ash then let the waters rise and submerge this whole, rat-infested place. No. No, fuck you, Montgomery Brogan. You had it all and then you threw it away, you dumb fuck!

Lisboa, se fosses só três sílabas

Nunca me apeteceu tão pouco regressar a Lisboa. Já houve épocas em que pensei em ir embora, mas nunca fui, por atavismo, receio, comodismo, mas também por gosto genuíno em viver aqui. Agora, porém, sinto que Lisboa está vista, ou antes, os lisboetas, os comportamentos parecem-me pavlovianos, sem surpresa ou frescura, as amizades foram-se deslassando, a paciência diminui, os constantes «contactos» são agradáveis mas fungíveis, cansei-me de fogachos e decepções, tornei-me mais reticente e recluso, e ainda por cima Lisboa é cada vez menos uma cidade, fecham cinemas, livrarias, cafés, começa a ser indiferente viver aqui ou em qualquer outro sítio, basta uma «ligação» e temos tudo em todo o lado, desta vez nem senti que passei uns dias «fora do mundo», como dantes, a única diferença foi um ambiente mais calmo, mais higiénico, de onde estavam ausentes o darwinismo infrene, o situacionismo degradante, a hostilidade mesquinha. Regressei sem vontade, o que nunca tinha acontecido. Não tenciono ir-me embora, mas pela primeira vez senti que podia ir-me embora, é triste quando a nossa cidade não nos faz falta.

4/03/2012

Far from the madding crowd

Revisionismo

Estragar as memórias felizes é o pior dos revisionismos.

4/02/2012

Uma situação excelente


















Tudo isto lembra a famosa mensagem do marechal Foch na batalha do Marne: «Mon centre cède, ma droite recule, situation excellente, j'attaque».

Rating

Não é como nas notas de um exame, formais e afixadas em público. Aqui, são apenas indícios, ou omissões, ou evidências. Aqui, acreditamos se quisermos. Eu acredito.

A manhã que se esvai (2)

«New Dawn Fades» é um título exacto, mesmo na sua ambiguidade. «Dawn» é «amanhecer», um estado contínuo, em processo, mas é também «alvorada», que imaginamos talvez como mais instantânea. Todos os dias há um «novo amanhecer», e portanto um «amanhecer» não é nada de especial, nada de «novo», excepto se fizermos da noite um momento privilegiado que a manhã estragou. Quando um «novo amanhecer» se esvai é porque chegou a manhã e a luz do dia, ganhou-se luz, não se perdeu, excepto se se tiver pensado no «amanhecer» como uma «alvorada», súbita e transformadora, e tivermos percebido que quando clareia o que se esvai não é a luz mas a promessa.

A manhã que se esvai (1)



«It was me, waiting for me, / Hoping for something more, / Me, seeing me this time, hoping for something else». É isso que se encontra depois de certas esperas, cada pessoa encontra-se consigo própria, consigo à espera de si, mas ninguém espera apenas para se encontrar, é fácil dizermos que se espera outra pessoa, mas é mais justo dizer que se espera outra coisa, alguma coisa mais.

Ronda

Actores

Acontece-me com frequência interessarem-me muito mais os actores do que as peças em que entram. Já escrevi aqui várias vezes sobre Closer, um texto de que não gosto especialmente mas que funciona sempre bem. Isto apesar de nunca ter percebido as comparações com Coward e Pinter, Patrick Marber não tem a leveza de um nem a tensão de outro, Closer parece-me uma versão dramática das Transformações da Intimidade de Giddens, um peça muito nineties sobre a comunicação e a incomunicabilidade, o destruição do paradigma romântico, as reconfigurações do casal, a sexualidade na era tecnológica, etc. Achei graça ver uma encenação no Casino Estoril, faz sentido, Closer é de algum modo «sociologia de casino», brilhante, crua, minimalista, irritantemente superficial, porém não completamente inútil. Há qualquer coisa nas elipses narrativas que não me convence, e no entanto a coisa resulta, sobretudo se tiver actores à altura. Larry, o médico com preconceitos working-class, é uma personagem especialmente conseguida, e a fúria «cavernícola» quando ele descobre que foi traído é fantástica. Na encenação de Rui Mendes, Larry está bem entregue a João Reis, o melhor actor da sua geração; mas surpreendeu-me a interpretação da personagem da «dançarina» Alice; como não vejo televisão, não conhecia Sara Matos, que além de ser uma mulheraça, faz uma Alice cheia de garra, magoada e vibrante, alegre e mitómana, basta seguirmos a sua prestação vocal para perceber que temos ali actriz, andam outras e outros escondidos pela televisão, é bom descobri-los. Também gostei de Salvador Sobral em Perdi a Mão em Spokane, de Martin McDonagh. Sobral interpreta o recepcionista de um hotel que ou é valente ou tem um valente «death wish», e faz frente a um maneta homicida que anda à procura da mão que lhe deceparam. McDonagh escreveu duas trilogias irlandesas, depois o kafkiano The Pillowman, e escreveu e dirigiu Em Bruges, que tem diálogos fabulosos; ele gosta de grand guignol, e com Spokane criou um protagonista demente, violento, racista, ofensivo, que encontra o seu antagonista perfeito no bizarro recepcionista do hotel onde está albergado. Esta é a primeira peça «americana» de McDonagh, e na Broadway a personagem foi feita pelo irrequieto Sam Rockwell; na encenação de António Cordeiro (que é também o protagonista), Salvador Sobral rouba o espectáculo, estático na sua magreza, sardónico, apatetado, dado a non sequiturs, a criancices, a uma poesia estrambólica. É uma peça menor na carreira de McDonagh, mas vale pelo timing cómico de Sobral.