5/23/2012
5/20/2012
Dietrich Fischer-Dieskau 1925-2012
O barítono alemão Dietrich Fischer-Dieskau representou para mim a expressão consumada, através do formato «canção», de uma sensibilidade peculiar, a sensibilidade romântica, e por isso sempre o considerei um amigo. Antes e depois de ter conhecido Fischer-Dieskau, ouvi grandes intérpretes de lieder, mas nunca tive verdadeira empatia com nenhum. Fischer-Dieskau reunia várias características pessoais, e até biográficas, que o habilitavam a ser o maior de todos, a educação num meio culto, a experiência do horror político que vitimou vários membros da sua família, uma sensibilidade introspectiva, uma presença aristocrática, um conhecimento histórico, uma sensibilidade poética, uma voz masculina, expressiva, cheia de nuances. Li num dos seus obituários que a «volatilidade» da sua voz reagia contra a interpretação «de mármore» dos cantores da geração anterior, hieráticos, incapazes de fragilidade ou doçura; não sei se isso é exacto, mas em todo o caso torna clara a minha intuição de uma «voz humana» naquela voz e naquele «grão da voz» (como dizia Barthes, que aliás não gostava dele). Uma voz que não apostava no dramático e no patético mas nos elementos básicos de timbre e dicção, conseguindo aquele milagre da música que consiste em «dizer o implícito sem o articular». E tudo isso se manifestou comigo de modo explícito, quando a tão comovente Viagem de Inverno de Schubert, na interpretação de Fischer-Dieskau, me salvou a vida numa amarga viagem de inverno aqui há uns anos. Só um grande amigo é capaz de nos salvar a vida.
5/18/2012
So long
O diagnóstico House é detectivesco, heterodoxo, e arrasa o juramento de Hipócrates. Mas na verdade não se trata de um diagnóstico simplesmente médico. Dois célebres aforismos de House garantem que “a Humanidade é sobrevalorizada” e que “toda a gente mente”. Consequentemente, sugere House, só se consegue descobrir a doença humana se não tivermos grande consideração pelas pessoas, que usam as doenças como biombos, como alibis. House é um cínico, que despreza as pessoas tanto quanto despreza as regras apropriadas. Ele quer combater as doenças a seu modo, e não tem qualquer empatia pelos doentes, que vê como criaturas manipuladoras, que é preciso tratar com firmeza e brutal honestidade. (...)
Gregory
House é um homem danificado, marcado por um pai rigorista, uma decepção
conjugal, a perna morta, e o seu interesse na vida privada dos outros,
interesse abusivo e intrusivo, é também a busca de um diagnóstico. De igual
modo, as suas frases chocantes servem para observar as reacções das pessoas,
como uma martelada no joelho. Hugh Laurie, conhecido como comediante
woodehousiano, homem bem-sucedido, pai de família, pessoa encantadora, modesta,
descobriu em si mesmo aquele farrapo humano, exausto, ácido, decepcionado. Filho
de médico, depressivo clínico, Laurie metamorfoseou-se em House, o intratável
de quem gostamos tanto, e em cujos olhos azuis intensos, frios, tristes,
descobrimos um espantoso diagnóstico da nossa condição.
[amanhã, no Expresso]
5/16/2012
A caçadora
Por qualquer razão, não li quase nada do mexicano Carlos Fuentes (1928-2012), mas gosto muito de Diana o la cazadora solitaria (1994), tudo o que tem a ver com Jean Seberg me interessa, é sempre intenso e trágico, e Diana é a (discutível) versão dos amores entre Fuentes e Seberg (a actriz também inspirou vários livros a Romain Gary, com quem aliás foi casada). Mas este romance à clef não é apenas confessional, é também a investigação de um paradoxo: uma mulher dedicada de corpo e alma a todas as causas «nobres» do mundo, mas que trazia em si «a qualidade interna da crueldade, da destruição».
Tão bom para nós
A
melhor cena de sexo deste ano não é uma cena de sexo (o que em geral ajuda): é
de pancada. Mas enfim, são universos afins, e ver Gina Carano e Michael
Fassbender escavacarem um quarto de hotel tentando dar cabo um do outro, é
qualquer coisa. Fassbender é especialista em momentos lúbricos, mas aqui nem
precisa de desfraldar o celebrado varapau irlandês, é tudo vestidinho, a
rebolar, cair, partir, contorcer, sufocar, enfim, uma bela foda. Ajuda o facto
de Carano ser uma lutadora profissional, uma «gladiadora americana» à volta da
qual Steven Soderbergh constrói o formalista Haywire. Machona mas muito feminina,
Carano dá um baile à última não-actriz que Soderbergh foi desinquietar, a pornógrafa
catatónica Sasha Grey (The Girlfriend Experience, 2009). Em cinema, o sexo ou é meramente verbal ou tem que ser cinético, e um arraial de
murros e pontapés, com gente ofegante, a sangrar, é talvez o melhor modo de
fazer cinema sexual, um nadinha inquietante, bastante atlético, e tão bom para
nós como para eles.
5/15/2012
5/14/2012
Panos 2012
PANOS
palcos novos palavras novas
SEX 18, SÁB 19, DOM 20 DE MAIO
Pequeno Auditório e Palco do Grande Auditório
2,5€ (preço único)
Informações e reservas 21 790 51 55
culturgest.bilheteira@cgd.pt
Os Avôs de Rory Mullarkey
Liceu Hölderlin de Pedro Mexia
Septeto Fatal de Alex Cassal
Com os PANOS, a Culturgest junta a nova dramaturgia ao teatro escolar / juvenil. Esta é a sétima edição, e mais de trinta grupos de todo o país encenam uma das três peças oferecidas (escritas de propósito para serem representadas por adolescentes): dois originais em português e um texto traduzido do Connections 2012, programa do National Theatre de Londres em que os PANOS se inspiram.
Tanto em Portugal (recentemente) como no Reino Unido (há 50 anos) acabou o serviço militar obrigatório, mas continua a haver adolescentes por todo o mundo a serem mobilizados para as forças armadas. Os Avôs de Rory Mullarkey (com tradução de Ana Mendes) acompanha oito jovens recrutas no treino que os transforma em máquinas de guerra: os momentos em que tiveram de ser capazes de apunhalar um saco de areia, em que tiveram de reagir à incursão de um pássaro ferido no seu território e em que aprenderam a ignorar o escuro.
Em Liceu Hölderlin de Pedro Mexia, olha-se para o Romantismo enquanto juventude literária e para a juventude enquanto Romantismo etário. Fred está apaixonado por Sofia, que tem um namorado. Fred está desesperado e confiante, e aperfeiçoa um entendimento do mundo à sua circunstância. Num enredo liceal normal, com tédio, conquistas, perguntas e amores não correspondidos, as personagens têm os nomes próprios dos escritores românticos alemães, e os textos destes insinuam-se por vezes nas falas dos adolescentes.
Velocistas, telepatas, alienígenas, viajantes do tempo, camaleões-humanos, miúdos longevos. Os seus corpos transformam-se da noite para o dia. Falam uma língua incompreensível. Parecem ter vindo de outro planeta. São mais fortes, inteligentes, hábeis, intrépidos. Têm apetites vorazes. Mal controlam as suas capacidades. São adolescentes com superpoderes: formam o Septeto Fatal, peça do autor brasileiro Alex Cassal. Um grupo de heróis relutantes, divididos entre ameaças apocalípticas e os exames de fim de ano.
Em novembro passado realizou-se um workshop onde os encenadores dos grupos, os autores e um encenador convidado por cada texto discutiram as três peças. Este ano os encenadores-orientadores foram Anthony Banks (para Os Avôs), Diogo Dória (para Liceu Hölderlin) e Tiago Rodrigues (para Septeto Fatal). As estreias decorreram até ao fim de abril. Agora, neste festival anual, mostramos dois espetáculos de cada peça e publicamos um livro com os textos. Em breve abrem as inscrições para a oitava edição...
Programa
Sexta 18 de maio
18h30 Pequeno Auditório
Liceu Hölderlin Clube de Teatro Eça de Queirós da ES Eça de Queirós (Lisboa)
21h30 Palco do Grande Auditório
Os Avôs Sexta Insónia do Agrupamento de Escolas Eng.º Nuno Mergulhão (Portimão)
Sábado 19 de maio
16h Sala 2
Pano para mangas – conversa com os autores e os grupos
18h30 Pequeno Auditório
Septeto Fatal TASE, Teatro de Animação de Santa Eufémia (Leiria)
21h30 Palco do Grande Auditório
Os Avôs Na Xina Lua da ES Tondela
Domingo 20 de maio
16h Pequeno Auditório
Septeto Fatal AN!MAL, Círculo Cultural Scalabitano (Santarém)
18h30 Palco do Grande Auditório
Liceu Hölderlin (En)Cena da ES/3 de Serpa
5/13/2012
Camera obscura
Este sofrimento estúpido, inesperado, ou crónico e incessante, e as pessoas que se comovem com os seus ou com quem mal conhecem, comovem-se com tê-los e com perdê-los, e talvez digam, como a rapariga envelhecida: «o meu coração está vazio / mas o amor enche as minhas canções».
5/12/2012
5/11/2012
O erro e a verdade
Quem era o tipo que dizia que a verdade pode perceber o erro, mas que o erro nunca percebe a verdade? Havias de te ter metido com ele.
Como actores que
Conheço pessoas com uma vida social
intensíssima e a quem nunca ouvi um elogio a ninguém. E ainda me chamam misantropo.
Como actores que quisessem que toda a gente representasse.
Ser esquecido
Fonte próxima do Presidente francês cessante diz que Sarkozy se vai retirar completamente, e que isso significa que é provável que volte. E explica: «Pour revenir, il faut être populaire, pour être populaire, il faut être oublié».
5/10/2012
5/03/2012
La valise en carton
Depois de termos estado em Berlim, não vamos (ainda) tomar Manhattan, mas avançamos, avec nos valises en carton, para Paris. Amanhã, dia 4, o Governo Sombra é transmitido em directo da Fundação Calouste Gulbenkian, em Paris (das 18 às 20h, hora portuguesa, sessenta minutos mais tarde na hora local). A entrada é livre para portugueses, franceses e estudantes de Filosofia. Domingo à noite, ainda a partir do Hexágono, comentaremos as eleições francesas, diremos adeus à sra. Bruni e acolheremos o Tozé Seguro lá do sítio.
Fernando Lopes 1935-2012
O
que eu gostava em Fernando Lopes era do seu apego ao antigo Portugal, um apego contraditório, magoado. Lopes fazia
parte de um geração de «nostálgicos de esquerda», obviamente hostis ao
salazarismo, mas com saudades de certos gestos e fragmentos do seu passado, da sua
juventude, nomeadamente de uma certeza clareza moral, de um certo sentido de
comunidade e de companheirismo. Não é por acaso ele que nunca teve tanto
reconhecimento como com Belarmino, esse «quase campeão», honrado e triste. Duas
das adaptações literárias de Lopes (Uma Abelha na Chuva, O Delfim) são retratos
brutais de uma mentalidade, um em registo mais elíptico, descontínuo, godardiano, outro mais clássica e romanesco, amores infelizes que escondem ou desvendem povos
infelizes, oprimidos, acabrunhados, cheios de medo. Noutros filmes, Lopes foi mais
ligeiro, quase musical, são filmes que me dizem menos, com excepção de Os
Sorrisos do Destino, um belo divertimento sofrido, autobiográfico quase até ao
despudor. É um oásis nos filmes da última década, que tentaram um idioma mais «contemporâneo»,
onde me parece que o cineasta estava completamente fora de pé, uma certa sofisticação
ficava-lhe mal, ele era um camponês culto mas nada pretensioso, e mesmo quando
filmou um «thriller metafísico» como O Fio do Horizonte, filmou uma Lisboa velha, decrépita, de outros tempos, e escolheu um alter-ego (Claude Brasseur) que acentuava a dimensão pessoal, de homem que envelhece, deixando implícitas (como Tabucchi também faz, de outro modo)
alguma intelectualização do discurso. O que eu gostava em Fernando Lopes era da
ideia de inventar um cinema, o cinema português, que existia há muito mas que nasceu de verdade em 1962, e
que ele tentou manter vivo por todo em lado por onde passou, pelos
cineclubes, pelas revistas, pela escola, pela televisão pública, pelo apoio à produção, ou
simplesmente pelo incentivo aos novos, novos de então e de agora. O que eu
gostava em Fernando Lopes era aquele vício de «beber, fumar, comover-se»,
aqueles tropeções de ternura, como em O’Neill, seu próximo em tantas coisas. O
que eu gostava no Fernando era da sua afabilidade, às vezes tocada, cambaleante, cansada, outras vezes esfuziante, curiosa, generosa, quase de menino, ele era um daqueles homens de quem podemos gostar e admirar ao mesmo tempo, era um desses homens raros.
5/02/2012
Lições de Latim
RESIDENT: When it comes to love (…) you’re either an Ovid man or a Virgil man. Omnia vincit amor – that’s Virgil – 'Love wins every time, and we give way to love' – et nos cedamus amori. Housman was an Ovid man - et mihi cedet amor – 'Love gives way to me'.
FLORA: I’m a Virgil man.
RESIDENT: Are you? Well, you meet more people that way.
[Tom Stoppard, In the Native State, 1991]
FLORA: I’m a Virgil man.
RESIDENT: Are you? Well, you meet more people that way.
[Tom Stoppard, In the Native State, 1991]









