6/27/2012

I'll have what she's having


[Nora Ephron 1941-2012]

6/25/2012

Amuletos












A BOA VIDA
Philip Larkin

Há coisa de vinte anos
apareceram no escritório duas raparigas,
uma inglesinha peituda
e a amiga de óculos com quem pude conversar.
Naquele tempo era o rosto que iniciava
a caçada, e duvido que alguém tivesse
um rosto como o dela:
mas foi com a amiga que saí.

E nos sete anos seguintes
escrevi-lhe mais de quatrocentas cartas,
dei-lhe um anel de dez guinéus
que ela me devolveu no fim, e levei-a
a inúmeras cidades com catedral
que nem o clero conhecia. Julgo que revi
a beldade umas duas vezes. De ambas
ela tentou (achei eu) não se rir de mim.

A separação, depois de cinco
tentativas, deu-se quando concordámos
que eu era demasiado egoísta e introvertido
e fácil de aborrecer para amar alguém.
Foi útil saber isso.
Na carteira ainda trago duas fotos
da peituda de luvas de pele calçadas.
Talvez amuletos para dar azar.


[versão PM]

6/24/2012

Pessoas de consulta

Era uma pessoa de consulta, como se diz de um «livro de consulta», útil, de vez em quando, para dar uma ajuda, para tirar uma dúvida, e rapidamente devolvido à estante.

6/23/2012

You can have me now, said the water to the cloud

Coleccionismo

Mas disse que agora está melhor dos seus desgostos. Se nunca mais lhe acontecer nada triste na vida, vai continuar a escrever canções?

Claro. Tenho quase 40 anos, toco guitarra há 25. Coleccionei muitas misérias pelo caminho.

[Josh T. Pearson, em entrevista ao i]

6/22/2012

Cuidado



















«She gave me a smile I could feel in my hip pocket», escreveu Chandler, e eu nunca me esqueço dessa frase e desse cuidado, mesmo quando nem se trata, como aqui, de cobiça ou de sorrisos.

Catastrofismo esclarecido

Há um filósofo francês que tem um ensaio chamado Pour un catastrophisme éclairé. Eu não gosto de catastrofistas, porque aqueles que conheço são demagogos e paranóicos; e não gosto nada de «iluminados», gente arrogante e biliosa; mas um catastrofismo esclarecido parece-me uma óptima ideia. Estou sem dúvida convencido de que o pior vai acontecer, mas isso não é virtude minha nem defeito do mundo, é apenas a lógica do replicável, a sensatez do provável.

6/20/2012

Andrew Sarris 1928-2012



















Numa época em que até gente civilizada não entende «para que servem» os críticos de cinema, Andrew Sarris tinha mais é que se ir embora. Duas das minhas bíblias cinéfilas foram A Biographical Dictionary of Film, de David Thomson, e The American Cinema: Directors and Directions 1929-1968, de Sarris, livros pessoalíssimos, muitíssimo discutíveis, frequentemente injustos, e apaixonados, claro, não há outra maneira de ver cinema. Herdeiro americano dos Cahiers, e igualmente dado a listas e outras idiossincrasias, Sarris formulou muitas noções que hoje damos por adquiridas, que se tornaram clichés, por exemplo a ideia de que os cineastas eram artistas, eram autores, mesmo em casos em que, à época, isso era menos óbvio (Hitchcock). Os seus escritos no Village Voice, analíticos e aguerridos, antigos no tom mas meticulosos na argumentação, foram essenciais para o aparecimento de uma «cultura fílmica» atenta, aberta, exigente. A história da crítica americana do último meio século fez-se no confronto feroz entre duas vozes fortes,Pauline Kael e Andrew Sarris, e depois entre «paulettes» e «sarristas»; Kael era mais estilista, mais divertida, mais imprevisível, mas é da escola «sarrista» que eu gosto, foram de certo modo os «sarristas» que me formaram, directa ou indirectamente, com essa mania de levar terrivelmente a sério o cinema, esse terrífico truque de feira. Que as merecidas homenagens a Andrew Sarris façam também justiça a essa raça maldita, os críticos, gente que vive no escuro para nossa iluminação.

Exageros

Ficam incomodados com os meus «exageros». Mas eu estou com Thomas Bernhard: dizer alguma coisa é sempre um exagero. Por isso, também aquele que comenta «ah, que exagero», está a exagerar.

6/18/2012

6/16/2012

Caderno de encargos

Vou, volto, danço de roda das trípodes e das fogueiras, devasso os corações lívidos dos vivos e o seu frágil comércio sentimental .

[Agustina Bessa-Luís]

Consolida, filho, consolida



Reino dos fracos (2)

Ela aceitava que o Reino dos Céus fosse dos fracos, desde que não houvesse Reino dos Céus.

Reino dos fracos (1)

Ela aceitava que o Reino dos Céus fosse dos fracos, desde que o Reino da Terra fosse dos fortes.

Uma classe à parte

Porque as relações amorosas são, como quaisquer outras, relações de classe. Mas a direita imagina que há dimensões da vida social em que a questão das classes «não tem importância»; e a esquerda imagina que só os «possidentes» fazem acepção de classe. E assim se inventa o amor como «uma classe à parte».

6/15/2012

Liberdade para os facínoras

O filósofo francês Roger Garaudy viveu quase um século e teve um percurso intelectual bizarríssimo. Foi protestante, depois católico, depois muçulmano, foi resistente aos nazis, herói de guerra, estalinista confesso, deputado e senador comunista, pensador oficial do Partido, «humanista», marxista cristão, anti-estalinista, dissidente do PCF com direito a expulsão, esquerdista soixante-huitard e auto-gestionário, anti-sionista, negacionista do Holocausto, ídolo no mundo islâmico integrista, prémio Khadafi. Em 1995, Garaudy causou escândalo com Les Mythes fondateurs de la politique israélienne, onde sustentava que o «suposto» genocídio dos judeus pelos alemães não passou de um enorme embuste sionista criado para justificar o expansionismo e o belicismo de Israel. Esse livro tornou-me especialmente atento às questões da liberdade de expressão, e à ideia difícil de que a liberdade serve precisamente para protegermos ideias que consideramos aberrantes, como é o caso.

Infelizmente, Garaudy foi condenado em tribunal por negação de crimes contra a Humanidade, tal como o inglês David Irving, o que deu uma aura de «mártires da liberdade de expressão» a pseudo-historiadores, autores de teses grotescas que deviam ser simplesmente desmontadas com factos e achincalhadas. Na sequência dessa polémica, presenciei um episódio chocante, na antiga Livraria Francesa de Lisboa: um cliente encomendou o livro maldito de Garaudy e a responsável da livraria recusou-se a fazer a encomenda, proibindo também os seus funcionários de mandar vir livros daquele autor. Ou seja, para fazer barragem ao negacionismo, a senhora tornou-se numa pequena nazi.

Na morte de Garaudy, o Nouvel Observateur online que explica o que se deve fazer com os garaudis, construindo um texto delirante que põe em causa a morte do filósofo: «(…) Toute la presse a repris la nouvelle sans la vérifier. On voit par là comment se crée une vérité officielle, au mépris de la recherche du vrai. Tout indique pourtant que ce décès ne s’est jamais produit, ou au moins qu’il y a de sérieuses raisons de douter de cette information. Aucune preuve n’est donnée. Toutes les photographies de Garaudy parues pour l’instant, même sur le site qui annonce sa mort, le montrent vivant. (...) Si une photographie montre Garaudy mort, pourquoi ne l’a-t-on pas publiée? (…) [L]es statistiques (...)montrent l’absurdité de cette théorie, selon laquelle Roger Garaudy serait mort: si on consulte la table de mortalité par âge (...), seul un tiers des hommes de 98 ans meurent. Les deux tiers, soit l’écrasante majorité d’entre eux, ont une espérance de vie de 2,34 années. Roger Garaudy, né en juillet 1913, ne mourra donc selon toute logique qu’en octobre 2014. (…) Face à tant d’incohérences, une question se pose: pourquoi tient-on tant à faire croire aux masses que Roger Garaudy est mort? Voilà ce que nous devrions être en train de nous demander. Mais la doxa du panurgisme contemporain organisé par les pouvoirs occultes, au nom d’intérêts peu avouables, nous dira sûrement qu’il s’agit là d’un délire, selon une stratégie bien connue de confinement criminalisant de toutes les paroles divergeant de la pensée unique». É assim, pela troça, que se responde aos facínoras, e não impedindo-os de dizerem o que lhes der na cabeça.

6/13/2012

Tempo presente

Nunca encontrei uma boa filosofia do tempo presente. Defender o passado contra o presente é reaccionarismo; pôr o futuro contra o presente é utopismo; condenar o tempo em que vivemos é niilismo; elogiá-lo é conformismo; haverá mais coisas na terra e no céu do que estas vãs filosofias?

6/10/2012

Zurique



A 4 de Março de 1945, seis bombardeiros americanos afastaram-se por erro da rota programada e atacaram a neutral Zurique com bombas incendiárias, julgando que se tratava da cidade alemã de Friburgo. «Zurich is stained, and it’s not my fault» diz a alegoria dos Pavement, todos os crimes de guerra são erros ou todos os erros são crimes de guerra?

Genebra

Há decências que são vis, dizia o genebrino; é preciso sofrer um bocado até chegar a esta sofisticação amarga.

Vida pública

A diferença entre «vida pública» e «vida privada» é que na minha vida pública nunca cometi o mesmo erro duas vezes.

Ivan Lessa 1935-2012


















Nelson Rodrigues, Paulo Francis, Ivan Lessa, três brasileiros com pouca paciência para muitos dos seus compatriotas, três dos cronistas do lado de lá que me habituei a ler, postumamente, tardiamente, ou em directo, no caso de Lessa, «o carioca londrino» que escrevia para a BBC e que agora morreu. Quando estive no Brasil comprei os três livros dele, e mais uma vez fiquei com inveja daquele género de jornalismo brasileiro, praticado por exemplo na revista Senhor (1959-64) e no jornal O Pasquim (1969-91), um jornalismo culto e rezingão, sarcástico e exacto. Lessa era ainda por cima um óptimo memorialista, que vivia num Brasil mental, do Brasil real tinha-se afastado há décadas, era um europeu de empréstimo, civilizado e céptico, como quase todos os brasileiros de quem gosto, a começar pelo Bruxo do Cosme Velho.

6/09/2012

Vânia

Percebo perfeitamente Vânia quando ele acusa o cunhado de ter passado anos e anos «a escrever coisas que os homens inteligentes já sabiam há muito e que aos homens estúpidos não interessam nada».

6/08/2012

O senhor Arnaud














O senhor Arnaud é um juiz aposentado que quer escrever as memórias e precisa de uma dactilógrafa. Mas quererá ele escrever as memórias ou apenas procura uma companhia, de preferência feminina e jovem? E quererá apenas uma companhia ou tenciona criar uma forma de dependência, ou antes, de dependência mútua? É essa a história que nos conta Claude Sautet, cineasta interessante que teve um final de carreira notável (Um Coração no Inverno, 1991, Nelly et Monsieur Arnaud, 1995). O filme é feito à imagem e semelhança do magistrado, cavalheiro maduro, sofisticado e reservado, há aqui uma subtileza invulgar, feita de detalhes e elipses, e uma escrita cinematográfica de uma concisão invejável. O juiz de Michel Serrault lembra o juiz de Jean-Louis Trintignant no Vermelho de Kieslowski, embora Sautet opte pela indiferença estudada e pela ilusão de sedutor envelhecido, em vez de ousar o niilismo magoado; em ambos os casos, temos confissões de fracasso e jogos de intimidade com uma mulher bem mais nova («Nelly» é Béart na sua época esplendorosa). Vermelho é uma obra mais corajosa, mais feroz, mas Sautet imagina com elegância a mesma situação: a possibilidade de tocar em alguém, mesmo quando se acha que é demasiado tarde.

6/06/2012

Genérico final



Fico perturbadíssimo com uma canção no genérico final, reconheço-a mas não sei dizer que canção é, a memória bloqueou, pesquiso e descubro num instante, faz sentido, o álbum saiu no biénio em que ouvi mais discos, alguns deles centenas de vezes, e muitos, ao que parece, continham mensagens secretas, demoníacas, mensagens como este «the end will shelter me away from me» que me deixa inconsolável mas inamovível às tantas da madrugada. 

6/05/2012

Fora do mundo













Belo propósito, compreender o mundo mas estar fora do mundo (e que parecidos são, Onetti e Larkin).

Quod

Há muito tempo que não me servia de um adágio jurídico, mas «quod abundat non vitiat» parece-me uma boa descrição da minha vida aos trinta e nove e meio.

Pró-escolha


















Não sou libertário, pela mesma razão por que não sou anarquista, mas tenho grande simpatia intelectual pelo ideal libertário, expresso com concisão admirável neste crachá americano: «Pro-choice on everything».

Um sistema de separações


















Não sou aquilo a que em geral se chama «um liberal», mas Pierre Manent faz-me sempre sentir um liberal «à moda antiga», como nesta entrevista.

Il peut sembler paradoxal que l’instauration du libéralisme se fasse sous l’égide de l’État, même si c’est un certain type d’État…

Dans le contexte moderne, le libéralisme est effectivement la position de ceux qui sont critiques de l’État. Mais dans notre histoire intellectuelle, l’État moderne apparaît comme la première invention du libéralisme  : l’État neutre est l’État qui s’élève au-dessus de la société pour que les hommes soient libres. On peut définir le système libéral qui est le nôtre comme un système de séparation  : séparer l’Église et l’État, séparer l’État et la société, séparer les pouvoirs, séparer la science et la foi. Toute notre organisation est fondée sur un système de séparations.

6/04/2012

O tempo e o modo

Há muitas coisas que aparentemente «correm bem», não se desse o caso de estar trocado o tempo em que acontecem e o modo como acontecem, ou até as pessoas com as quais acontecem. Como escreveu Winston Churchill, «o jantar teria sido esplêndido se o vinho estivesse tão gelado como a sopa, o bife tão mal-passado como o serviço, o brandy tão velho como o peixe, e a criada tão disponível como a duquesa».

Estudar as leis

Um dos meus colegas de curso era um cinquentão, pessoa aliás bastante afável, hesitámos perguntar por que motivo se metia ele a fazer Direito com aquela idade, finalmente alguém mais afoito pôs a questão, e ele respondeu que tinha sido enganado por um sócio e que decidiu «estudar leis» para não voltar a ser enganado, nunca encontrei na vida melhor justificação. 

6/03/2012

O mundo dos vivos
















«Ela quase me trouxe de volta ao mundo dos vivos», e o que agradeço é o «quase».

Dar tempo

Outra citação truncada anotada no mesmo caderno: «os homens nem sempre buscam a felicidade, às vezes buscam um destino», sei bem por que tomei nota disto, dei tempo suficiente à felicidade, e agora dou tempo ao destino, com a mesma expectativa e metade da coragem.

Convicções

Anotei esta definição tirada de uma biografia nem sei de quem: «um homem de convicções que perdeu a convicção». Compreendo bem esse fenómeno, fui educado em convicções fortes, que aceitei convictamente, e criei outras convicções, pessoais, mas com o tempo foram-se todas, ou quase todas, as próprias e as herdadas, não tanto «as convicções» em si, a substância delas, mas «a convicção», ou seja, o ânimo para defendê-las. Como no poema de Yeats sobre o aviador que vai morrer, agora não odeio aquilo que combato nem amo aquilo que defendo, tudo isso me parece inútil: «I balanced all, brought all to mind, / The years to come seemed waste of breath, / A waste of breath the years behind».

E faz bem, Condessa

CONDESSA DE ARTELLES: E no entanto, pode não acreditar em mim, Sr. de Prony, mas juro-lhe que ele amou a Hermangarde que nem um doido, pois fui testemunha desse amor e jamais o esquecerei.

VISCONDE DE PRONY: E faz bem, Condessa, para que haja alguém que se recorde, porque ele provavelmente já nem pensa nisso.

[Yolande Moreau e Michael Lonsdale em A Última Amante (2007), de Catherine Breillat, a partir de Barbey d'Aurevilly]

An exit to damage





You could mess up my life in a poem
Have me divorced by the time of the chorus
And there's no need to change any sentence
When you always decide where I go next
Many nights you would hide from the audience
When they were not in tune with your progress
In the end you were a fool like the journalist 
Who turns what you sing into business.

You could use to be more like your heroes
A darker shade of damaged distortion 
Wearing death like a cape or a costume 
Cut your ties and leave town when you want to 
Killing time till I pass through the chamber
Or the room where you keep my replacement
So well fed up, still you're starving on paper 
You're no him, but he's you, only better.

Leave me an exit to damage
I could use a ledge to jump off of 
I wasn't lying when I said it was over 
I have questions that will lead to more questions 
Run a tie that will cut off my fingers
You write about me on every new record 
I'll show up as a title for a new song
I only hope someone requests it. 

«What's it like for you in Washington?»
«I've only seen photos of Washington.»

I'll never know...

Leave them Manhattan, I want the evergreens 
Write me a song I can sing in my sleep 
As sure as the rain that will fall where you stand
I want you and the skyline these are my demands.