7/31/2012
Boas férias
Dear attractive woman number 2, only once in my life have I responded to a person the way I've responded to you, but I've forgotten when it was or even if it was in fact me that responded. I may not know much, but I know that the wind sings your name endlessly, although with a slight lisp that makes it difficult to understand if I'm standing near an air conditioner.
[Steven Soderbergh / Camille Rowe]
[Steven Soderbergh / Camille Rowe]
7/30/2012
Quatro perguntas
Tentamos sempre encontrar teorias ex post facto, biografistas, mutáveis, impossíveis de provar, mas úteis, afinal, ao menos por uns tempos. A teoria por exemplo de que cada vez corresponde a uma pergunta, e à respectiva resposta. Nunca tinha pensado nisso assim, mas de facto houve quatro perguntas, diferentes, precisas, e tive quatro respostas, completas, definitivas. É uma teoria pessoal, descartável, mas que faz sentido por agora, quatro pessoas, quatro perguntas, quatro respostas, quatro certezas.
La Jetée
Conheço uma parte ínfima da obra de Chris Marker (1921-2012), o prolífico realizador, documentarista, jornalista, escritor, fotógrafo, videasta, artista multimédia, viajante, militante, a quem chamaram «o mais célebre dos cineastas desconhecidos». Gosto muito de tudo o que vi dele, apesar de estar bem distante dos seus leninismos e terceiro-mundismos, bem como do seu entusiasmo pela tecnologia. O que mais me impressionou no punhado de filmes políticos de Marker que vi foi a ideia da política como História, uma História a acontecer, explicada ou interrogada numa lógica de comentário documentário, com uma montagem citacional, ao jeito de ensaio poético godardiano (ou então Godard é que é «markeriano»).
Mas do que eu gosto mesmo mesmo é de La Jetée (1962, 28 minutos), uma das melhores curtas-metragens destes cento e dezassete anos, e onde a ideia de História encarna na noção mais modesta e incerta de memória. Marker, em miúdo, divertia-se com diaporamas, e La Jetée é uma espécie de diaporama em grande, uma sequência de fotogramas sequenciais, onde aparecem, contrabandeados, cinco segundos de movimento contínuo. Trata-se aparentemente de um filme de «ficção científica», uma história pós-apocalíptica com viagens no tempo. Mas o homem que é enviado para o passado não cumpre apenas a missão que lhe foi destinada, ele vai à procura de uma memória pessoal, a imagem de uma mulher no passadiço de um aeroporto, a imagem de um acontecimento que, mal ele sabe, é a sua própria morte.
La Jetée é um «foto-romance», como disse Marker, ou uma «cinematografia da consciência», como escreveu um crítico; um filme onde alguém vai em busca do tempo perdido através de imagens obsessivas, onde alguém tenta escapar ao tempo mas é aniquilado pela substância do tempo, e onde o gesto vago de uma mulher ao vento é subitamente mais importante do que a salvação da Humanidade.
O espelho e a lâmpada
Speaking of students, you’ve had some famous ones — Harold Bloom, E.D. Hirsh, Thomas Pynchon.
I’ve had some very good ones, fortunately, yes. .. . I remember receiving a term paper from somebody named Tom Pynchon, whom I didn’t recognize, and I knew it couldn’t have been written by an undergraduate — that it had to have been cribbed. So I wrote down the usual teacher’s dodge, “Come see me at your early convenience. We have to talk.” He hadn’t talked for two minutes before I realized that he was the author of the paper. So there was no question about Pynchon. He had it from the beginning. Some of what he wrote for an undergraduate literary journal became part of his first book, “V.”
How often do you encounter a talent like that?
Once in a blue moon.
[de uma entrevista ao agora centenário M. H. Abrams, professor em Cornell, primeiro editor da canónica Norton Anthology of English Literature e autor do clássico estudo sobre o romantismo The Mirror and the Lamp]
Um convite em pé
Foram-me propostos dois ou três [cargos internacionais]. Diretor-geral da Comunidade Europeia, pelo António Guterres, em 1992 ou 93, na direção-geral da Cooperação. O Guterres chamou-me ao Rato e fez-me o convite. (...) Depois disso convidou-me para a missão da Internacional Socialista para a reforma da Nações Unidas. E ainda me falou vagamente, num almoço no Conventual, na hipótese de ser embaixador da ONU (...). Mais tarde, ao conversarmos em pé (e eu nunca aceitaria um convite que é feito em pé), falou-me na hipótese de ser ministro da República nos Açores (...).
[Medeiros Ferreira, cheio de verve, no Expresso]
[Medeiros Ferreira, cheio de verve, no Expresso]
7/26/2012
A sociedade sem classes
Flaubert escreveu que 89 destruiu a nobreza, 48 a burguesia, e 51 o povo. E concluía: «Il n’y a plus rien».
7/25/2012
Século vinte e um
«Inactual, desiludido e sem ambição», anotei. Ocorreu-me depois que era um curioso plágio: «Ain't got no ambition, I'm just disillusioned / I'm a twentieth century man but I don't wanna be here» [The Kinks].
Terra queimada
Lembro-me de, em miúdo, ter lido num livro de História uma referência à política dita «de terra queimada». Na guerra, dizia o texto, alguns exércitos em retirada destroem tudo à sua passagem, de modo a dificultar o avanço do inimigo, a cortar as vias de comunicação, os hipotéticos abrigos, e a eliminar tudo o que possa ser saqueável. Esses actos eram cometidos mesmo quando o exército em fuga estivesse a combater no seu próprio território, isto é, mesmo numa guerra defensiva. A ideia pareceu-me chocante, e nunca me esqueci dela. Como quase todas as ideias teóricas que me obcecam, esta também se materializou em ponto pequeno, porque de há uns anos para cá, depois de uma catástrofe, também eu arrasei quase tudo à minha volta. Foi uma táctica instintiva, que depois me pareceu repugnante; mas sua a óbvia necessidade e urgência impediu qualquer hesitação. Na longa marcha, que talvez ainda nem tenha terminado, queimei as pontes, desfiz as habitações, arranquei os terrenos férteis. Ao contrário do que acontece numa guerra, fiz isso de mansinho, discretamente, quase à socapa, através da omissão, da caducidade, da não-comparência ou do silêncio. Custa-me observar o campo de ruínas que gerei. Mas, tal como os soldados que nas fotografias do livro aniquilavam, sofridos e decididos, a sua pátria, também eu não hesitei, também eu acho que fiz bem, que fiz o que devia. Há quem diga que me porto como se fugisse de um inimigo. Mas foi disso justamente que fugi: de um inimigo.
7/24/2012
7/20/2012
Até terça
(...) Converti-me de imediato, até ao fanatismo, e assim me conservo, duas décadas depois. Stephen Patrick Morrissey chama aos seus fãs “discípulos”, e é fácil perceber porquê. Gostar de The Smiths nunca foi apenas uma questão musical mas uma maneira de ver o mundo, intensa, um pouco patológica, romântico-tardia, pessimista, arisca. Eu não sabia que havia gente a escrever canções assim, terrivelmente certeiras, agudas, ferozes. Em geral, a música popular traduz as angústias pós-adolescentes de forma directa e bastante eficaz, mas Morrissey é um génio da linguagem indirecta. Ele usava palavras rebuscadas, alusivas, obscuras, estruturas quebradas, uma métrica improvável e um vocabulário insólito. E tantas referências, de Wilde ao “Free Cinema”, de romances “out of print” a cinema de vanguarda, da imprensa tablóide a John Betjeman.
Foi essa força verbal, um pouco misteriosa, que me atraiu logo. As canções contam experiências comuns, banais mesmo, mas a abordagem é estranhíssima, como não conheço outra, antes ou depois, citações a despropósito, divagações lúdicas, epigramas rimados, vinganças cifradas, “found sounds”. Não acho interessante chamar “poesia” às “lyrics”, que obedecem a uma lógica diferente, mas quase nada em poesia se comparava àquilo, mesmo na poesia inglesa, de que gosto tanto. Era como se estivéssemos a ouvir uma língua que nunca tínhamos ouvido. E pensem nos assuntos convocados: assassinos de crianças, reitores sádicos, rufias, a Rainha de Inglaterra, poetastros, homens virgens, encontros em cemitérios, vigários chanfrados, desastres de automóvel, mulheres corpulentas, homicídios de disc-jockeys, namoradas em coma. Em todas estas canções, nunca sabemos exactamente o que é patente e o que fica latente, tanto podemos estar no domínio do descritivo como do alegórico, cada um que interprete como quiser.
(…) Num dos meus temas favoritos dos The Smiths, “Rubber Ring”, fala-se daquelas canções que “ultrapassámos”, ou que julgamos que ultrapassámos, “Yes, you’re older now, and you’re a clever swine”; aquelas canções que um dia nos comoveram e nos salvaram a vida e que entretanto esquecemos. Morrissey recorda: “They were the only ones who ever stood by you”, foram as únicas que estiveram ao nosso lado. E pede para não nos esquecermos delas, para não nos esquecermos dele: “Hear my voice in your head and think of me kindly”, ouve a minha voz e mostra-te grato.
[amanhã, no Expresso]
7/03/2012
Purgatório
Dante descreve o seu Purgatório com uma minúcia que vai muito além da dos teólogos. Concebe-o como um lugar de arrependimento e expiação, antes da salvação final. Ao mesmo tempo, o Purgatório dantesco julga os homens e as mulheres mais pelas suas intenções do que pelos seus actos, julga-os de acordo com o amor enviesado, deficiente ou excessivo que tiveram em vida. E aqui eu não compreendo, ou não aceito. Porque um amor enviesado, deficiente ou excessivo não é apenas intenção, é acto. E desse acto só pode haver arrependimento, não expiação, muito menos salvação. Quem se enganou no seu amor, como eu me enganei, talvez consiga chegar ao Purgatório, mas jamais sairá do Purgatório.
Tottenham
KEN (looking at a surreal Bosch painting): It's Judgment Day, you know?
RAY: No. What's that then?
KEN: Well, it's, you know, the final day on Earth, when mankind will be judged for the crimes they've committed and that.
RAY: Oh. And see who gets into heaven and who gets into hell and all that.
KEN: Yeah. And what's the other place?
RAY: Purgatory.
KEN: Purgatory... what's that?
RAY: Purgatory's kind of like the in-betweeny one. You weren't really shit, but you weren't all that great either. Like Tottenham.
[Brendan Gleeson e Colin Farrell, Em Bruges, 2008, de Martin McDonagh]
RAY: No. What's that then?
KEN: Well, it's, you know, the final day on Earth, when mankind will be judged for the crimes they've committed and that.
RAY: Oh. And see who gets into heaven and who gets into hell and all that.
KEN: Yeah. And what's the other place?
RAY: Purgatory.
KEN: Purgatory... what's that?
RAY: Purgatory's kind of like the in-betweeny one. You weren't really shit, but you weren't all that great either. Like Tottenham.
[Brendan Gleeson e Colin Farrell, Em Bruges, 2008, de Martin McDonagh]







