9/30/2012

É preciso que uma porta esteja aberta ou fechada

É preciso que uma coisa termine para que outra coisa comece? Segundo o Princípio de Exclusão de Pauli, dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. Mas é de corpos que se trata, de propriedades físicas? Ou da reverberação, já difusa, de uma coisa terminada, e do anúncio, muito vago, de uma coisa nova? Que espaço é este em que estou? Que fazer nele e com ele? Musset escreveu «Il faut qu’une porte soit ouverte ou fermée», mas e se não houver porta nenhuma?

Cinquenta



I said I appreciate that
And would you please explain
About the fifty ways

Os mínimos

Na faculdade, era um dos primeiros a terminar os testes. Não porque fosse bom aluno, tive sempre notas banais, mas porque me queria livrar daquilo o mais cedo possível. Naquele curso ou se sabe ou não, retóricas e artimanhas não nos levam longe, por isso ou eu tinha decorada a matéria do exame ou não valia a pena perder tempo. Lia o enunciado, respondia ao que sabia, calculava que não ia chumbar, e ia-me embora. Gostava dessa sensação de acabar entre os primeiros, não por ser melhor do que eles mas por me fartar mais depressa. Fazia os mínimos, entregava o exame, virava costas, estava feito, acabado, adeus.

Darwinismo (3)

Dizem que da «competição» nasce uma «superioridade»; que essa «superioridade» é uma forma de «selecção»; que tal selecção é «natural»; e que os «menos aptos» devem ser «eliminados». Consigo talvez acompanhar a primeira tese, mas duvido da segunda, discordo da terceira, e a quarta horroriza-me. Porquê chamar-lhes «darwinianos» em vez de «nazis»?

Darwinismo (2)

A experiência triunfa sobre o conhecimento, bem sei, e nem acho mal, mas não confundas o «poder» e a «força».

Darwinismo (1)



It took a tattooed boy from Birkenhead
To really really open her eyes

9/29/2012

Actos nem sonham

breasts will be breasts thighs will be thighs
deeds cannot dream what dreams can do


[e. e. cummings]

Um meneio

Uma demora dois segundos acima do decente, um meneio, e tão bem educados que prendemos a respiração.

9/28/2012

Nos herbívoros é que estão as vitaminas


Faz sinal

Faz sinal ao galo vencedor
Que esta dança é arriscada
Vai pela crista não vás num bom cantor
Que a cantiga está mal parada


[B Fachada]

Pornografia

«Há muitas mulheres no mundo» é uma frase pornográfica. Parece empática, quase sentimental, mas refere-se, disfarçadamente, ao único domínio em que é verdadeira.

9/26/2012

Menos por menos


Is away

Gosto da sobriedade com que os jornais ingleses anunciam que determinado colunista não escreve nessa semana: fulano de tal «is away». Não importa onde, porquê, até quando, «is away» basta. Gente decente não pergunta mais nada.

Tudo menos

Um recluso, um eremita, um anacoreta, um estilita, um autista, um sociopata, o que quiserem. Tudo menos vivermos juntos.  

Os pequenos moralistas

Que fossem ao menos uns aforistas severos ou elegantes: um niquinho de La Bruyère ou La Rochefoucauld, um quantum satis de sapiência, um certo estilo; mas estes pequenos moralistas ignoram com igual desdém a condição humana e a gramática. E dão-se como exemplo de virtude, às colheradas, em garganta alheia.

A vegetação tóxica


















Un travolgente senso della caducità, un orrore per la storia percepita come una precipitosa decadenza, quasi un bisogno fisico de collaborare al processo di svuotamento, de annichilimento cosmico, quando la materia privata de ogni forma vivente coincide com la purezza, con quel bianco accecante, tutto luce, che ha en tanto pagine de Piovene la valenza dell’assoluto. Tutta la scrittura de Piovene risponde in fondo al desiderio di un distacco, di una separazione senza odio dal passato, dalle tossiche vegetazioni affettive di un tempo irrecuperabile e infelice.


[de um prefácio a um romance de Guido Piovene]

9/25/2012

Country feedback



«Country Feedback» recupera expressões comuns em querelas amorosas, a culpa é a minha, é sempre a mesma coisa, tu cansas-me, perdi a cabeça, vens outra vez com desculpas, e junta-lhes inventários poéticos destrutivos: «We've been through fake-a-breakdown / Self hurt / Plastics, collections / Self help, self pain, / EST, psychics, fuck all». Mas a tensão surge entre dois versos incompatíveis. «I need this» é um queixume e uma confissão compreensíveis, ele precisa disto, ou seja, da relação e de falar sobre a relação. Mas «It’s crazy what you could’ve had» não joga com «I need this», não é dito por alguém com o mesmo estado de espírito, com a mesma falta de confiança. Quando ele diz «as coisas que tu podias ter tido», dá-se como vencedor, «nem sabes o que perdeste»; mas ninguém que se lamuriou «eu preciso disto» se dá assim como vencedor, sendo tão sofridamente um vencido. Talvez ele esteja a ensaiar versões diferentes, ou a contrastar o que diz e o que pensa. Ou então aquele «you» é ele-mesmo, o que faz sentido, mas torna o «eu preciso disto» triste, penoso, intolerável.

Caos

Philip K. Dick costumava dizer que a sua cosmogonia era a do Timeu: Deus não criou o universo, encontrou-o. E estava um caos.

9/24/2012

Semi-quietismo

Há uma heresia cristã que me convém em matéria laica: o semi-quietismo, versão moderada do chamado «quietismo». É uma doutrina setecentista, um estoicismo sem misticismo, uma crença que vive da indiferença, uma acção sem reacção. E com aquele «semi», livro-me das más companhias.

Vinte mais vinte

Aos quarenta anos, tenho a vida que quero, não a que desejo. Aos vinte anos, acharia essa distinção imoral. 

9/23/2012

Greenelândia













O escritor Maurice Bendrix é amante de Sarah Miles, que está casada com um homem impotente. Os encontros decorrem em pleno Blitz sobre Londres, e a católica Sarah pede a Deus que salve Maurice das bombas, prometendo que acaba a relação se ele sobreviver. Thomas Fowler, um cínico jornalista de meia-idade, mantém uma relação com uma dançarina vietnamita de vinte anos, Phuong, mas parece que a perde para o Pyle, um «tranquilo» agente americano, embora Phuong, indecisa, seja mais objecto do que sujeito, como um território colonizado; é por isso que a maneira como Fowler vê Pyle (e a América em geral) deriva tanto da ideologia como da rivalidade. Pinkie Brown, um gangster psicopata, casa com uma rapariguinha chamada Rose para evitar que ela o denuncie como homicida, mas o amor dela, embora não correspondido, tem um poder redentor que talvez não salve Pinkie mas o torne merecedor da misericórdia divina.

Os romances The End of The Affair (1951), The Quiet American (1955) e Brighton Rock (1938) foram adaptados ao cinema nos últimos anos, mas não fazem justiça aos romances de Graham Greene. E não é apenas a questão de haver versões anteriores melhores: o que se perdeu por completo foi a capacidade de entender a dimensão paradoxal do amor humano em Greene, a qual resulta de uma visão heterodoxa da doutrina católica do pecado e da Graça. Os adaptadores modernos de Greene tomam a dimensão teológica como um mero elemento «cultural», uma idiossincrasia das personagens; e o que resulta disso é um empobrecimento da densidade humana. Nos dois «romances católicos» isso é flagrante: não é possível ignorar que o «milagre» que Sarah pede vem reforçar o seu amor por Bendrix, embora termine com ele; e que a horrível manipulação de Rose por Pinkie permite que a aceitação de Rose transforme o ódio em amor. Mas mesmo The Quiet American, que não é um «romance católico», sugere que o «poder do mundo» esconde outros conflitos menos visíveis, menos evidentes, mais tortuosos.

A «Greenelândia» não vive apenas de uma «circunstância», de um «ambiente» e de um «estilo»: trata-se, ao invés, de um universo moral estruturado e complexo, que usa os conceitos teológicos com uma força poética quase selvagem, e que no fim de contas autonomiza o amor dos amantes. Sem pecado e sem Graça, vividos como reais e actuantes (mesmo para quem não acredita), o mundo de Greene fica mutilado, ridículo. Perde aquilo que não podia perder: a ideia de que o amor sabe sobre si mesmo coisas de que nós mal suspeitamos.

Sentimentais

Conheço bem essa gente. São sentimentais em tudo, menos nos sentimentos.

9/22/2012

Governo Sombra












Governo Sombra, esta noite, em directo, às 23h, na TVI 24.

9/21/2012

Procurem abrigo



Aquilo de que mais gosto em Procurem Abrigo é a ambiguidade alegórica, ou antes, a ambiguidade face à alegoria. O protagonista que teme uma catástrofe iminente tanto pode ser um paranóico como uma cidadão atento, tanto pode estar com stress conjugal (o cineasta, Jeff Nichols, confessou que era o seu caso) como em sofrimento com a crise económica (da qual aparecem muitos indícios). Embora haja um cheirinho a Bible belt, aquele pobre homem não é um «Jesus freak», nem faz parte de uma qualquer seita apocalíptica. É uma pessoa comum, o comum dos mortais. Essa abordagem «realista» é poderosa, porque joga com as inevitáveis interpretações alegóricas que cada espectador fabricará. Nichols sugere que quem teme uma catástrofe entra em modo de catástrofe, ou seja, vive já em catástrofe. Era assim com os primeiros cristãos, é assim com os casais desavindos, com quem entrou em colapso financeiro, com os mentalmente instáveis, enfim, com todas as pessoas dispostas a ver no céu sinais que nem a astronomia nem a meteorologia entendem.

Pressão atmosférica

Inquirido sobre as suas convicções políticas «bizarras», o jornalista explica: «I’m a registered Republican. I only seem liberal because I believe hurricanes are caused by high barometric pressure and not by gay marriage».

[Jeff Daniels em The Newsroom, HBO, de Aaron Sorkin]

O perigo antes da esperança

Cuando publicó Las partículas elementales, en 1998, hubo quien le etiquetó como “nuevo reaccionario”. “Es imposible que yo sea un reaccionario, soy un conservador”, replica, “un reaccionario es alguien que cree firmemente que se puede regresar a un estado anterior de la Historia, lo que yo no creo para nada. Siempre he tenido la sensación de que todo es irreversible, de que es imposible volver atrás. Soy un conservador bastante típico: pienso que cualquier innovación, en principio, va a salir mal, [ríe abiertamente por primera vez] y estoy contra la innovación porque supone siempre un peligro. Digamos que soy un pesimista que ve antes el peligro que la esperanza”.

[de uma entrevista de Houellebecq ao El País]

9/20/2012

Ética em tempos sombrios



Perdoar os inimigos, de acordo, mas não adiar um segundo a legítima defesa.

9/14/2012

Longa distância

E de imediato retomámos uma conversa interrompida. E regressou, por uns instantes, a nossa aprendida e instintiva coreografia, o timing impecável, a graça esperada e imprevisível, a sisudez brincada, a inquirição subtil, a provocação elegante. E aquela hipérbole que diz que me fazes muita falta.

9/13/2012

Freaks

Ambos, ela e eu, quase divertidos, ela eléctrica, eu desconfortável. Parecia o Freaks, do Tod Browning. Era como se ensaiássemos uma cena entre amantes decepados. Depois, ela levantou-se, contente, como se tivesse superado uma prova estranha. Espero, e desejo, que fique bem.

Os idos

Um típico momento «Aye, Caesarbut not gone». É certo que ainda não foi desta. Mas toma cuidado, imperadorzinho, com a falsa segurança. 

Irrespirável


















Há momentos em que é precisar citar os Situacionistas e não ser situacionista.

Dos usos da História

O ministro inglês William Hague tomou uma decisão discreta mas importante: recuperou um pequeno contingente de  historiadores ao serviço do Foreign Office, e pediu que o avisassem quando o Governo estiver a fazer no presente uma coisa que já deu merda no passado.

9/12/2012

Setecentos

Voltaire dizia que para ter sucesso não bastava ser estúpido, era também preciso ter boas maneiras. Como o mundo mudou.

9/10/2012

Em geral



People say the record [Time Out of Minddeals with mortality - mmortality for some reason! Well, it doesn't deal with my mortality. It maybe just deals with mortality in general... But I didn't see any one critic say: «It deals with my mortality» - you know, his own. 

[uma citação, genuína, de Dylan, referindo-se, mutatis mutandis, a este blogue]

Comissão da carteira

Continuada animado, o jornalismo americano. Depois de Jayson Blair e Stephen Glass, tivemos agora Jonah Lehrer e Fareed Zakaria a prevaricar: plágios,«auto-plágios», fraudes, fabricações. A gravidade dos casos é variável. Lehrer é talvez o único que não tem desculpa. Entre outras coisas, ele foi apanhado a inventar citações de Dylan; e essa função, como sabemos, pertence em exclusivo ao próprio Dylan. 

Then the Canalettos go

Quanto mais estudo a história inglesa contemporânea, mais gosto de Harold-«never had it so good»-Macmillan, um homem tristonho e antiquado mas decente e lúcido, que teve razão em quase tudo, da necessidade de descolonizar a tempo à ideia de que os conservadores não podem endeusar «o mercado». Aqui está ele, numa conferência da ala moderada dos Tories, já a cair da tripeça mas ainda a tempo de lembrar a Thatcher que as «dificuldades financeiras» não justificam que se venda as «pratas georgianas», «all that nice furniture», «os Canalettos» e «os dois Rembrandts que restavam».

Uma boa semana

Morreu recentemente o jornalista e polemista inglês Alexander Cockburn (1941-2012), uma espécie de Hitchens que nunca mudou de ideias, velho radical de esquerda culto, sarcástico, de prosa elegante e implacável. Era filho e irmão de outros Cockburns talentosos, e tio, ui, de Olivia Wilde. Li vários livros dele, sobretudo colectâneas de textos da incomodativa CounterPunch, e ao folheá-los reencontro, devidamente assinalada, a melhor abertura de crónica que conheço: «Esta foi uma boa semana para o clítoris».

Zeitgeist

Decidi passar por um barzinho chamado (palavra de honra) Zeitgeist. Fazendo jus ao nome, tinha falido.

9/05/2012

The rest is silence

Ao sétimo dia

Ah, as angústias que folgam ao sétimo dia.

Lúcido

Coitado dele, que quando exclamou «merda, sou lúcido» tinha acabado de dizer «nada de estéticas com coração», verso talvez duvidoso mas que prova, que merda, que era lúcido.

9/04/2012

Deus não está



O conceito de um «Deus pessoal» é muito aliciante, mas implica um Deus que «intervenha» e se «preocupe» com as questões pessoais de cada um. Mas como conceber uma entidade universal e intemporal que se detenha em peculiaridades individuais e triviais? Se Deus preside à «História», que sentido tem que se «dedique» às nossas histórias? É mais provável que «ouça» mas que não atenda. Ou como diz Tom Waits: God's away on business.

Método experimental

Tanto o meu habitual pessimismo como o meu ocasional optimismo obedecem a uma variante bizarra do «método experimental»: se uma coisa acontece uma vez, é porque pode acontecer, e se pode acontecer uma vez, acontecerá várias vezes. Isto como ciência é frouxo, mas como indício é útil.

Os universais

Em matéria de amizade, sou sensível à «questão dos universais». E nessa antiga querela filosófica considero-me um nominalista, ou seja, acredito que os chamados universais («a amizade») são conceitos abstractos, e que a única realidade de facto é a individual («um amigo»). Só assim consigo compatibilizar duas certezas: a de que não existe «amizade» e a de que tenho amigos.

9/03/2012

For the music is your special friend

A amizade da música

A amizade da música, infalível porque impessoal.

Pedir menos

À amizade enquanto «sucessão de feridas subtis» podemos opor «as amizades» enquanto encontros ocasionais e afáveis. Pedir menos, receber menos, sentir menos a diferença.

É na Terra não é na Lua

Quando foi noticiada a morte do primeiro homem a pisar a Lua, Neil Armstrong, eu tinha por casualidade acabado de ler um excerto de uma entrevista ao segundo homem a pisar a Lua, Buzz Aldrin. A certa altura, surge a fatal pergunta «como é que se sentiu?». E Aldrin não gosta: (…) I’ve now been asked how it felt for four decades. I’ve had to think about it for that long. Well, if the people who asked me that thought for ten or fifteen minutes, they’d realize it isn’t worth asking. I mean, how can I communicate the feeling that I had in an understandable way to somebody who hasn’t thought about it very much until before they ask the question?». E acrescenta: «(…) at this point when I’m asked that question I wonder what is is the person asking really wants me to communicate». Não se trata apenas de um caso de preguiça jornalística, mas da questão mais decisiva sobre como transformar em linguagem, e portanto em empatia, uma experiência que quem quer saber nunca teve, e que quem teve não consegue formular. Não existe maior incomunicação do que esta, e qualquer contacto humano se desfaz perante tal enormidade. Percorrer o espaço entre o que não se conhece e o que não pode ser dito é uma distância muito maior do que a da Terra à Lua.

9/01/2012

O amor

Num dos seus romances, Kingsley Amis define «amor» como o estado de 1) querer ir para a cama e 2) não conseguir com 3) alguém que não se conhece bem.

Braço-de-ferro

Sempre que mantive um braço-de-ferro com alguém, perdi ou desisti. Mas um braço-de-ferro comigo mesmo que resultados admite?