10/25/2012


10/15/2012

Lei Seca 2009-2012


Lei seca (3)

Tal era o pânico moral causado pelo álcool que em 1919 os americanos chegaram ao ponto de aprovar uma Emenda à Constituição que proibia a fabricação, comercialização, transporte e venda de bebidas alcoólicas. Os catorze anos seguintes foram de crime, contrabando, clandestinidade e corrupção. A chamada «Prohibition» constituiu um colossal fiasco. Em 1933, num acto inédito, a 21ª Emenda repeliu a 18ª, terminando com a Lei Seca.

Juventude (6)

Perdemos a juventude, menino, como no Eça, e o menino sou eu, digo em voz alta enquanto passa este conjectural carro eléctrico. Lá vai ele, Lisboa acima, já não o apanhamos, menino; deixa-o ir, continuemos o passeio a pé, está uma bela manhã de sol. Lá vai ele, Lisboa acima, já o perdemos, já não o apanhamos, ia para uma paragem que não era a tua, menino, dizia «juventude» como o outro diz «desejo», deixa-o ir, anda-se bem a pé, e há outros passageiros com destino à juventude. Lá vai ele. Sobe que sobe, cidade acima. Acelerou agora. Já dobrou a esquina. Adeus.

Juventude (5)

Pela primeira vez na vida não espero nada e não quero nada, passou de fatalista a budista, o estupor. Vivo enfim pacificado com a falta de virtude e talento. E dominei o sofrimento, o que julgava impossível, estou um estóico de opereta, desiludido, calmo, divertido.

Juventude (4)

A «juventude» não foi uma época mas um território, um campo de batalha, com o resultado que toda a gente viu. E agora desmontam a feira, e ouço nos altifalantes uma canção melancólica enquanto me cruzo com figurantes que se retiram, como numa tragicomédia de Fellini.

Say something warm, say something nice



I need to walk by the flowers, with someone who can share my face
and it looks like no one can take your place
And I could bleed in sympathy with you
On those days
And I could drink up everything you have
Don't let it go to waste

(...)


Say something warm, say something nice
I can't stand to see you when you're cold
Nor can I stand being out of your life
And I could bleed in sympathy with you
On those days
And I could drink up everything you have

Don't let our youth go to waste

Juventude (3)

A minha juventude acabou em dois momentos, duas catástrofes afastadas, comigo é costume essa dilação, catástrofes uma à espera da outra para fazer efeito completo, duas colunas que entram em colapso em cima de um Sansão que, apropriadamente, passou do cabelo comprido à calvície. Andei treze anos em esforço, treze anos à espera de que a minha força fosse a segunda coluna, tentando equilibrar às costas o edifício instável. Mas, derrubadas ambas as colunas, acabou-se, chega de juventude.

Juventude (2)

Não tenho motivos para ter saudades da juventude, detestei a puta da juventude, mas agora ouço os mais novos à conversa e percebo que este já não é de todo «o meu tempo». E eu não sou sequer igual àquilo que era «no meu tempo». Em que sentido? Expliquei-lhe que me tornei agnóstico em matéria profana, as artérias endurecem, o coração também.

Juventude (1)

A juventude acaba aos 29, ou eu estava convencido disso. Tinha 29 anos quando comecei a escrever em blogues, faz hoje dez anos, dia por dia. Mas, à conta de equívocos, a minha juventude durou até aos 34, e foi ficando. Porquê esse prolongamento? Cenas escusadas, grotescas.

10/14/2012

Lei seca (2)

Décadas antes de a Lei Seca ser instituída, começaram as campanhas de «temperança». Uma das activistas mais radicais era uma viúva de um alcoólico chamada Carrie Nation. Esta virago corpulenta invadia os bares com a Bíblia numa mão e um machado na outra, escorraçando clientes, escavacando tudo. Apresentava-se como «um buldogue a correr aos pés de Cristo, ladrando a tudo aquilo de que Ele não gosta». Os bares passaram a exibir um dístico que informava: «All Nations Welcome But Carrie». O vandalismo da temperança é assim: causa mais riso do que medo.

10/13/2012

Lei seca (1)

Quis instaurar uma «lei seca», por decreto, que é sempre mais fácil, mas claro que ao escolher a epígrafe troquei logo a inocência pela ironia e até pela sabotagem. «Mais vale a proibição do que não haver bebidas», diziam os americanos amigos do álcool, sabendo que todas as proibições se contornam e até apelam ao engenho. E que o gozo, em regime de proibições, aumenta. Na verdade, esta Proibição foi para a maneta em três tempos, e não estou arrependido disso, deu-me até um certo gozo, como um abstémio que brinda ao facto de não beber.

10/12/2012

Uma espécie de diário

Faz esta semana dez anos que tenho um diário. Uma espécie de diário. Há uma década, quando havia apenas umas centenas de blogues, eu explicava o que era um blogue dizendo: «É um diário».

Comecei a escrever diários no final da adolescência. Pensando bem, era inevitável. O meu pai publicou vários volumes do seu diário, e tudo se herda; havia nas estantes lá de casa eminentes diaristas como Green e Jünger; autores decisivos da minha educação literária, como Baudelaire ou Kafka, escreveram diários; e a minha personalidade introvertida e introspectiva adequava-se a essa necessidade de registar, de mim para mim, aquilo que acontecia ou não acontecia. Em cadernos, agendas, páginas soltas, envelopes, comecei a escrever por todo o lado, um pouco desordenadamente. Anotava tudo. Listas de leituras, idas ao cinema, detalhes quotidianos, esboços, projectos, estados de alma, confissões magoadas, desabafos, ambições, frases de efeito, basicamente aquilo que ainda anoto agora. (…)

Reconheço que os blogues introduziram modificações importantes no género diarístico. Tanto a publicação imediata como o acesso universal tornam o blogue num exercício perigoso. Porque o diário era por natureza privado, mediado, nalguns casos secreto, escrito em código, às vezes de publicação póstuma. Há bastantes diários editados em vida, incluindo um dos melhores, o de Gide, mas mesmo esses aparecem de tantos em tantos anos, filtrados de um material original que não conhecemos, ao passo que os blogues vão surgindo como
work in progress. Escrever um diário «em directo» exige que se invente, em equilíbrio instável, uns quantos filtros, regras, deontologias, cuidados difíceis, falíveis, como manter o anonimato de terceiros ou não escrever «online» aquilo que se deve dizer de viva voz. No meu caso, isso significou também criar um registo que destapa a vida íntima e protege a vida privada, um registo a que chamei «confessionalismo hermético».

Porque o diário é a manifestação mais imediata de vontade de expressão, e esta tem de ser vigiada. O diário é um esforço criativo, terapêutico, moral. É um espaço íntimo de observação e contemplação, frágil e desmedido. Creio que tudo começou com as
Confissões de Agostinho, com a invenção do «eu», da consciência, e da auto-consciência, essa que se examina, se acusa, se interroga. (…)

[amanhã, no Expresso]

A grande maravilha


















Usei sempre a imagem do «epílogo», não um último acto mas uma breve conclusão, um desenlace. A felicidade não é forçosamente a tranquilidade. Há uma intranquilidade boa, quando passamos da necessidade à evidência. Quando a evidência se nos torna necessária. Por isso, o epílogo foi um acontecimento inteiramente benigno, alegre mesmo, ainda que sofrido, implausível, fugidio. Como naquele poema do Williams que não cheguei a dizer-te a tempo: «A grande maravilha não é / a beleza, por mais funda que seja, / mas a tentativa clássica da / beleza, / no meio do pântano: a / auto-estrada sem saída, abandonada / quando construíram enfim a nova ponte». E aqui deixei, com o pouco que posso, a história da tua beleza e da nossa tentativa.

10/11/2012

Garrafas de plástico

Não, estou óptimo, ou melhor, óptimo não estou, só que estes três anos, de tanto se espalmarem uns nos outros, parecem um só dia, ou antes, uma só noite, sei que não me faço entender, vou tentar explicar melhor, pensa nas garrafas de plástico, naquelas garrafas de água mineral, a garrafa faz sentido enquanto estiver cheia de água. Mas depois de a teres esvaziado podes espalmá-la e deitá-la fora, aconteceu comigo, espalmou-se-me o tempo.

[Antonio Tabucchi]

Elevador

Embora esteja há muito fora da firma, desgraçado no meio, e num ramo diferente, ocasionalmente ainda me lembro daquela frase. Há um antes e um depois daquela frase. Ele vai ter com ela ao elevador e diz que é preciso fazer alguma coisa, vai morrer uma pessoa se não se fizer alguma coisa. Ela responde em nome da empresa, impassível, inamovível: «And what does that have to do with Wooton Sims?». O guião descreve assim a reacção dele: «Willy stares at her for a long time, increasingly disgusted». E depois ele deixa que as portas se fechem e que ela desapareça de vez. Impossível uma didascália mais exacta: «olhando fixamente», «durante muito tempo», «cada vez mais enojado».

Agustina aos noventa













Hoje, 11 de Outubro, às 18.30, na Bertrand do Chiado, comemoramos os 90 anos de Agustina Bessa-Luís, que se completam daqui a dias. Uma conversa com Mónica Baldaque (filha de Agustina), Alberto Vaz da Silva e Pedro Mexia. Moderação de Anabela Mota Ribeiro. Ler no Chiado é uma iniciativa da revista Ler e da Bertrand.

10/10/2012

Página rasgada

Não se rasura o fim de um «regime» assim tão facilmente, o próprio esforço de eliminação deixa marcas, torna-se em memorial involuntário. O escritor americano Ian Frazier visitou há uns anos a cidade de Ekaterimburgo, nos montes Urais, à procura da casa onde os Romanov foram assassinados; mas a casa desaparecera, tal como a cave onde se deu a matança, e como outros vestígios concretos. Frazier achou tudo aquilo sinistro: «Lembrou-me uma borracha que apaga com tanta determinação que acaba por rasgar a página».

10/08/2012

O futuro


Quatro concertos em cinco anos, Cohen compensou-nos, e bem, da longa ausência dos palcos e do mundo, quase diríamos «bendito desfalque», aquele que o fez ter de andar de novo em digressão, vir até nós. Dos concertos portugueses, um foi excepcional (o de Algés: comunicativo, desapontado, divertido), mas nenhum foi mau, não é possível, com aquele catálogo, com aquela presença.

De fato escuro («a lazy bastard living in a suit») e chapéu, magro, envelhecido, impecável, Cohen é sóbrio, educadíssimo, afável, apresenta e elogia demoradamente os músicos, trata-nos por «friends», fecha os olhos, dobra-se, ajoelha-se, saltita, curva-se, agradece-nos, abençoa-nos. É romântico, lascivo, místico, cáustico, um charmeur de cinismo brando, agora pacificado, e de crenças antigas, de ideias velhas, actuais. Aos 78 anos, deu-nos três horas e meia de espectáculo, que ouvimos com reverência, festa, emoção, e há muito que Cohen tem direitos a coros femininos e a solos virtuosos, ganhou o direito de fazer o que quiser com a sua música e com a sua poesia.

Desta vez, tocou canções de todos os álbuns que contam: «Suzanne» (um hino improvável), «Sisters of Mercy» (a mais casta das canções impúdicas), «So Long, Marianne» (a mais feliz das despedidas tristes), «Hey, That’s No Way to Say Goodbye» (e eu bem sei); «Bird on the Wire» (a simplicidade total), «The Partisan» (numa calorosa interpretação, a política abstractizada, comunitária, instintiva); «Famous Blue Raincoat» (a mais adulta, mais terrível, canção de amor de mão em mão); «I Tried to Leave You» (bom tema para encores e sarcasmos), «Who by Fire» (o mais polissémico verso de Cohen: «And who shall I say is calling?»): «The Guests» e «The Gipsy Wife» (canções «étnicas», etnomusicais); «Dance Me to the End of Love» (passe a redundância), «Coming Back to You» (Cohen deu voz às «sublime Webb Sisters», e de facto são), «Hallelujah» (e o Atlântico tornou-se bíblico); «First We Take Manhattan» («e depois Berlim», cantaram as massas), «Everybody Knows» (as males pessoais e os males do mundo, isto anda tudo ligado), «I’m Your Man» (masculinidade para homens inteligentes), «Take This Waltz» (Lorca vive), «Tower of Song» (Cohen pensionista da canção); «The Future», (um tratado de conservadorismo apocalíptico), «Waiting for the Miracle» (com a sardónica: «The Maestro says it’s Mozart / but it sound like bubblegum»), «Closing Time» (ideal para um falso final de concerto), «Anthem» (talvez o melhor verso de Cohen: «There is a crack in everything / That’s how the light gets in»), «Democracy» (whitmaniana, paradoxal); «In My Secret Life» (quem é que não tem uma?), «Alexandra Leaving» (com a possante Sharon Robinson). E do novo álbum, que ainda não ouvi suficientes vezes, «Going Home», «Amen», «Darkness», «Come Healing» (os títulos dizem tudo, é quase uma despedida).

Embora tenha falado pouco, Leonard Cohen disse-nos: «Espero encontrar-vos mais vezes no futuro». Ainda que não volte, fica prometido.

[foto de Ana Ferraz]

10/05/2012

O jogo favorito

(...) Lembrava-me bem dos “privilégios da beleza”, dessa “tirania imediata”, da beleza como a verdadeira classe alta. Lembrava-me de que “a poesia é um veredicto, não uma ocupação”. Lembrava-me de que só importa aquilo que amas, o resto é escória. Lembrava-me das raparigas, embora não dos seus nomes, lembrava-me de que Breavman às vezes as confundia, estava com uma e pensava noutra, queria recuperar alguém que tinha desaparecido, reencontrava alguém que tinha mudado. Bertha, a que caiu da árvore; Lisa, que tem o cabelo como Cleópatra; Heather, que ele hipnotiza; Tamara, a progressista de pernas compridas, Patricia, a adolescente que faz de “Hedda Gabler”; Wanda, a rapariguinha da aposta; e, acima de todas, Shell, que “parecia um manequim da ‘Vogue’, alta, de peito miúdo, ossuda e frágil”, mas com ancas e ombros largos, narinas dilatadas, sensuais. Shell, a graciosa, a que não se achava bonita. Breavman passa mais páginas com as outras do que com ela, mas eu atribuía todos os substantivos e adjectivos a Shell, ou a quem aos vinte e tantos anos era a imagem dela.

Breavman e Shell estão fechados num quarto, “felizes, seguros, selvagens”, sabem que “não é bom estar sozinho”, despem-se “como se estivessem a ser perseguidos”, querem um amor livre e aventuroso, um amor de “orgulho e quietude”, um amor que habita a nudez do corpo humano, “não havia nada mais excelente que aquilo” (tudo isto é sobre a mesma pessoa ou estou a fazer confusão?). Breavman ama Shell com intensidade bélica, usa imagens guerreiras, bíblicas, faz-se poeta metafísico, romântico inglês, e o texto inclui os poemas que ele vai escrevendo. Escrever faz parte daquilo, ele contempla-a a dormir, quente e rendida, enumera-a, os cabelos espalhados que parecem uma caligrafia, as contracções dos músculos, os vasos sanguíneos, os brincos de jade nas orelhas. Ela é a mulher por quem ele esperava e que lhe estava destinada, o consolo sem planos, a glória obscura, o povo eleito. Podem dizer tudo um ao outro, partilhar tarefas que se tornam rituais. Estão unidos pela exaltação, por aquilo que representam, “qualquer coisa de imortal”, o amor enquanto “protesto contra a sorte e a circunstância”, o amor que transforma, como uma magia, o amor incognoscível, quase intolerável. É por isso que a poesia de Breavman se torna o seu “substituto”, e ele sente que é aquilo que escreve que ama Shell, mais do que ele mesmo.

Lembrava-me desse idílio doentio (“qualquer canção imperfeita alude a um tema ideal”), mas não me recordava da brutalidade com que Breavman se cansa, se esgota. Breavman está ligado a Shell pela carne e as emoções, mas também está ligado à recordação de a amar, à recordação imediata de a amar tanto. Pensa naquilo que atraiçoaria se ficasse com ela, e no remorso que o acompanharia se a deixasse, sente falta dela mas aceita magoá-la, é cruel, precisa de uma disciplina, de um desafio, “uma paz prolongada deixa os generais inquietos”, e Breavman quer começar de novo, “tenho de viver em qualquer lugar que não seja a expectativa”. (...)

[hoje, no Expresso]

10/04/2012

Emenda

Primeiro «deu um desconto» àquilo que eu escrevia, chamando-me um «fingidor». Depois percebeu que se tinha enganado, emendou o juízo, e acusou-me de ser um «radical». Emenda aprovada.

Death of a Fuckin' Salesman



[em fast forward: Glengarry Glen Ross (1992), de James Foley, escrito por David Mamet]

Tudo menos (2)

Um ensimesmado, um autista, um indivíduo com Transtorno de Personalidade Esquiva, o que quiserem. Tudo menos vivermos juntos.

O escorpião

Durante anos, procurei a companhia de pessoas irónicas, sarcásticas, cáusticas, mordazes, não há entretenimento melhor do que a destreza verbal, vingarmo-nos do mundo com um advérbio de modo. O problema é que, mal viramos costas, esses virtuosos fazem de nós o alvo da sua mordacidade e sarcasmo, ainda que sejam supostamente nossos amigos. Não conseguem evitar, é a natureza deles, como disse o escorpião.

A mais pequena ideia

Um texto, qualquer texto, suscita sete ou oito «reacções» típicas, das afectuosamente empáticas às grosseiramente ofensivas, mas não mais do que essas sete ou oito, as que constam do catálogo, nunca mais do que essas, ou diferentes dessas. Uma vez que a escrita gera mais equívocos do que verdade, desisti há muito de prestar atenção aos comentários de desconhecidos, tanto os ditirâmbicos como os ferozes. Reconheço-me naquilo que confessava há tempos um colunista inglês: «I tend to ignore both criticism and praise, because I encounter so many dissenting assessments of my own value as a writer, or even simply as a collection of atoms, it all becomes meaningless noise. (…). After years of carefully skim-reading the comments under my own articles, I can only conclude that none of you have the faintest bloody idea what you're on about». A «estética da recepção» é inevitável, mas causa tanto ruído que ninguém faz «a mais pequena ideia». Eu, aliás, também não.

10/03/2012

A vida secreta

Já vi a frase atribuída a vários autores, de Pushkin a García Márquez: «Toda a gente tem três vidas, a vida pública, a vida privada e a vida secreta». Independentemente da autoria, parece-me uma hipótese curiosa, ao escolher como «terceira vida» uma vida assumidamente «secreta». Lembra-me, aliás, uma canção do Cohen sobre a sua «secret life». O termo «secreta» sugere um sigilo por questões de segurança, de perigosidade, de vergonha, e não apenas de reserva da intimidade. Ou talvez a vida «secreta» não se confunda com a «vida privada» ou com a «íntima», talvez não tenha a ver com segredos, talvez a «vida secreta» seja «secreta» para quem a vive, para o próprio sujeito, talvez seja «a consciência», «o inconsciente», ou aquele velho enigma a que se chamava «o espírito».

10/02/2012

O eu é detestável

Percebi que o «eu» causava grande repulsa, não o meu «eu» em especial, não a primeira pessoa gramatical, mas o «eu» enquanto subjectividade, intimidade: aquilo a que as pessoas chamavam, baixando a voz como se temessem um pogrom, «a exposição». Parece-me, francamente, excesso de zelo ou puritanismo. Reconheço que, como disse Pascal, «le moi est haïssable»; mas ser detestável é uma utilidade, podemos trabalhar o «detestável», estendê-lo na mesa como um paciente anestesiado, tentar compreender. 

Confissões


















«Je veux montrer à mes semblables un homme dans toute la vérité de la nature; et cet homme, ce sera moi». É assim que Rousseau, nascido fez agora trezentos anos, apresenta o seu «pacto autobiográfico», e é assim que continua a ser, para quem quiser aceitar esse risco: «em toda a verdade da natureza». E quando Rousseau diz «esse homem, serei eu», não diz apenas que o homem das Confissões é ele, mas algo mais importante: que ele é, passa a ser, o homem das Confissões.

O feitio

Há diferença entre o «mau feitio» e o «feitio difícil»? Geralmente digo que são coisas diferentes. Talvez identifique «mau feitio» com irascibilidade, enquanto «difícil» signifique apenas complicado. É por isso que me considero um indivíduo sem «mau feitio» (sou calmo, introvertido, distante) mas com «feitio difícil» (complicadíssimo em privado). Talvez aceite que o «feitio» afecte a personalidade, mas resista à ideia de que transforma o carácter. A gente defende-se como pode.

10/01/2012

Quem é que é velho

Leio a notícia da morte, em curto espaço de tempo, de dois dos meus professores da faculdade. Gostava bastante de um deles, um homem distinto e sofisticado, e da cadeira que leccionava. Do outro, guardo uma memória mais apagada, excepto pela raiva que dediquei à disciplina que regia, e àquela «servidão de estilicídio», que, como contei em crónica antiga, quase me fez desistir do curso, tão horrendamente entediante me parecia tudo aquilo. Pouco importa o meu curso, enterrado e inútil; o que conta é que a morte dos professores, como a dos avós, é o começo da nossa, é o fim do mundo que nos «formou», e que nos parecia velho, à época. Quem é que é velho agora?